você já caiu na armadilha do dinheiro fácil?


Dinheiro que cai do céu?
Lucros altos e em pouco tempo podem indicar uma empresa bem- sucedida ou um esquema ilegal. Saiba como não cair em golpe

Por Rê Campbell / Fotos: Fotolia – AFP
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Promessa de dinheiro fácil sempre foi isca para vários tipos de trapaça. No Brasil, um golpe antigo vem chamando atenção de órgãos de defesa do consumidor e da Justiça desde o início de 2013. Pelo menos 25 mil brasileiros se sentiram lesados nos últimos 15 meses por terem caído no que parece ser o famoso esquema de pirâmide financeira. Esse é o número de queixas feitas ao site Reclame Aqui revelado com exclusividade à Folha Universal. As empresas denunciadas se apresentavam como negócios de marketing multinível, mas cobravam altas taxas de quem desejasse participar. Isso levou as vítimas a contrair dívidas e a investir suas economias.

Reclamações desse tipo também cresceram em diferentes unidades do Procon espalhadas pelo País. As denúncias levaram o Ministério Público de vários estados a averiguar cerca de 80 empresas. Diante das suspeitas, a Justiça brasileira interrompeu a operação de pelo menos três companhias: a TelexFree, a Priples e a BBom. Se ficar configurada a formação das pirâmides, os responsáveis terão de responder por crime contra a economia popular e, dependendo do caso, por lavagem de dinheiro, como explicou o advogado criminalista Caio César Arantes.

“O dinheiro simplesmente percorre a cadeia e somente o idealizador do golpe (ou, na melhor das hipóteses, umas poucas pessoas) ganham trapaceando os seus seguidores”, explica Arantes. Isso acontece porque a “sustentação” real da pirâmide depende da tarifa de adesão de novos adeptos e não da venda de produtos.

Quem não conseguiu o lucro prometido acabou protestando. “Desde 2013, houve um boom de denúncias contra esse tipo de empresa”, disse o diretor de operações do Reclame Aqui, Diego Campos. O executivo do portal acredita que o fato de os primeiros integrantes da TelexFree terem divulgado que foram bem-sucedidos pode ter estimulado a abertura de empresas semelhantes e a atração de novos adeptos.

Campos alerta que o golpe da pirâmide costuma ser anunciado como marketing multinível. “Se o ganho estiver atrelado ao recrutamento de mais pessoas, estamos falando de pirâmide. No marketing multinível, só a venda de produtos garante a remuneração do participante”, explica o executivo, citando empresas de cosméticos nas quais revendedores fazem vendas porta a porta, com o auxílio de catálogos e amostras grátis.

“Essas pirâmides vêm crescendo porque o consumidor está ávido por multiplicar dinheiro. O consumidor investe um valor e eles prometem que a pessoa vai conseguir um percentual muito alto, de até 200%, rendimento que não condiz com o mercado. É preciso ficar atento”, comenta Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da Pro Teste, órgão que luta pela defesa do consumidor.

Caso TelexFree

Desde junho de 2013, as operações da TelexFree foram bloqueadas no Brasil, por determinação da Justiça do Acre, sob suspeita de prática de pirâmide financeira. A empresa continuou operando nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.

Agora, a Justiça americana também aponta para a suspeita de fraude. Um relatório divulgado pela Secretaria de Estado de Massachusetts no último dia 15 afirmou que a TelexFree é uma pirâmide disfarçada de venda de telefonia VoIP (por meio de internet) que arrecadou cerca de US$ 1,2 bilhão em todo o mundo. No documento, as autoridades pedem o fim das operações, a devolução dos lucros e o ressarcimento dos prejuízos causados aos investidores, chamados de “divulgadores”. A denúncia aconteceu um dia após a TelexFree pedir concordata no Tribunal de Falências do Distrito de Nevada. A ação das autoridades de Massachusetts é uma tentativa de proteger parte do dinheiro arrecadado pela empresa para uma eventual indenização das vítimas.

Durante buscas feitas na sede da TelexFree em Massachusetts no fim de abril, a polícia surpreendeu o diretor financeiro da empresa, Joseph Craft, numa tentativa de fuga com cheques destinados aos donos da companhia, James Merrill e Carlos Wanzeler. O valor da apreensão chegou a US$ 38 milhões. O processo contra a TelexFree é conduzido pela Securities and Exchange Comission (SEC), autoridade reguladora do mercado de capitais americano.

Defesa e acusação

Apesar das evidências de fraude, muitas pessoas ainda creem no modelo da TelexFree. Defensores da suposta pirâmide acusam o Ministério Público de impedi-las de continuar lucrando com o negócio, segundo relatos feitos na página do Facebook da Folha Universal. É o caso do leitor Edson Mota, de Santo André (SP). Por e-mail, ele disse que colocou R$ 92 mil na TelexFree entre novembro de 2012 e março de 2013, mas só recuperou R$ 56 mil.

Agora, Edson enfrenta dificuldades. “Estou há mais de seis meses sem pagar aluguel da residência e dependemos da ajuda de familiares até para comprar alimentos”, relatou. Apesar disso, Edson ainda acredita que a empresa é idônea. “Tenho acompanhado o caso através de noticiários e vídeos postados pelo diretor da TelexFree (sr. Carlos Costa) na página da empresa no Facebook […]. Que a Justiça de nosso Brasil seja coerente”, concluiu.

A maioria dos que criticaram o negócio reclama de perdas financeiras e falta de informação. Uma leitora do Paraná relatou que o marido investiu R$ 17 mil, mas recuperou menos da metade do dinheiro. “O assunto causa muita revolta e ele está com uma dívida enorme no banco”, afirmou ela, sem revelar a identidade. Já o leitor Jovino Neto, de Goiás, colocou R$ 6 mil no negócio, mas recuperou pouco mais de R$ 1,5 mil. “Entrei nessa depois de muita insistência de um amigo. […] Acredito que (o dinheiro) será perdido, que isso fique como lição para os que procuram ganho fácil. Não caia nessa.”

Já a leitora Renata Duran, que vive nos Estados Unidos, disse que a promessa de lucros de 200% convenceu o marido dela, que investiu, mas só conseguiu 26% de retorno. Renata destacou as contradições da empresa em seu comentário. Segundo ela, a TelexFree “demonstrava estar indo superbem”, mas “recentemente se declarou em falência, o que impede que ela seja processada”.

A Folha Universal tentou contato com as empresas TelexFree, Priples e BBom, mas não obteve sucesso até o fechamento desta edição.

Diante de tantas incertezas, uma coisa é certa: não existe multiplicação mágica de dinheiro nem na bolsa de valores.

Emoção, em vez da razão

Para a psicóloga clínica Débora Jorge, o imediatismo leva muitas pessoas ao engano. “As pessoas não querem perder tempo, investir em suas habilidades e talentos. Elas querem retorno imediato. Então a proposta de dinheiro fácil ilude mesmo”, afirmou.

O bispo Jadson Santos, que coordena palestras para empresários, concorda. “Não se deve pensar só em conquistar, apenas em multiplicar. É claro que isso é possível, mas, só para ter uma noção, mais de 90% das pessoas que jogam e ganham dinheiro acabam perdendo e voltam para a miséria”, cravou Santos, em entrevista ao portal universal.org.


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