Violência: Tiros e pânico em colégio da Asa Sul

Aluno de 14 anos do Caseb é baleado nas costas em pleno pátio da escola reforçada por um posto policial dentro da instituição. Os dois acusados, identificados como estudantes da mesmo centro de ensino estão apreendidos…

O estampido dos tiros ecoou no pátio do Centro Educacional Caseb, na 909 Sul, minutos antes de o sino convocar os estudantes para a entrada em sala de aula. Uma bala acertou a parede. A outra, as costas de João*, 14 anos, que segue internado no Hospital de Base do DF. Os autores da tentativa de homicídio ignoraram o posto policial instalado no interior do colégio (leia reportagem abaixo), mas acabaram apreendidos no início da noite em São Sebastião. Esse é mais um caso grave de violência dentro ou nas imediações da instituição de ensino (leia Memória).

Testemunhas relataram que a vítima conversava com quatro amigos sob a sombra de uma árvore, quando os suspeitos caminharam em direção ao grupo e um deles puxou o revólver e atirou em direção ao adolescente. “Foi tudo muito rápido. Ninguém espera que alguém entre armado dentro da escola. Quando a gente viu, tentou correr. O moleque atirou duas vezes, um (tiro) acertou as costas do outro”, detalha Pedro*, 14 anos, que estava ao lado da vítima no momento do ataque.

A correria e o desespero foram generalizados. Clara*, 14, ainda viu quando os dois agressores saíram correndo do colégio. “Um deles tropeçou e caiu. Não vi se estavam de uniforme, mas usavam camisetas brancas”, conta a estudante Rafaela*, 14. Quando Paula*, 13 anos, correu em direção aos amigos, viu João ensanguentado. “A perna dele começou a travar. Aí, ele caiu. Deitou no meu colo e pediu para eu não soltar a mão dele”, revela a menina.

O jovem baleado chegou ao Hospital de Base do DF consciente. A mãe dele, a auxiliar de serviços gerais Vânia*, 32, mal conseguia falar. Apesar de abalada, ela contou ao Correio a conversa que teve com o filho, já internado. “Ele reclamou que (o ferimento) estava doendo muito. Disse que não sabia por que atiraram nele e que conhecia os dois (agressores) de vista.” No fim da tarde, João foi operado. Por volta das 19h, a mãe dele, aliviada, disse que o filho estava bem.

A violência juvenil assombra Vânia há tempos. Moradora de Planaltina, ela mudou de endereço e trocou o filho de escola por causa das ameaças que ele sofria por parte de jovens moradores de um bairro rival. “Eu o matriculei no Plano Piloto justamente por medo de acontecer isso”, lamenta (Leia Três perguntas para).

Indignado com os recorrentes casos de violência dentro do Caseb, o comerciário Pablo Lima, 42 anos, morador do Cruzeiro, decidiu tirar os dois filhos, de 15 e 16 anos, da instituição. Segundo ele, ambos foram ameaçados de morte com estiletes e canivetes nas dependências da escola. “Depois que um dos meus filhos teve o celular roubado por dois alunos da escola, eles o ameaçaram de morte caso comunicassem o roubo. Dei queixa na polícia, e a direção não fez nada”, desabafa.

Em nota, a assessoria de Comunicação da Secretaria de Educação informou que o garoto baleado estuda no 6° ano do ensino fundamental e mora no bairro Arapoanga. O órgão diz acompanhar o caso diretamente, tanto na escola quanto no Hospital de Base. “Um outro aluno envolvido é novato na instituição de ensino e mora em São Sebastião”, encerra a nota. O Correio procurou a direção do Caseb, mas os responsáveis não comentaram o caso.

Uniformizados

Moradora da 709 Sul há 45 anos, Clara* relata que o Caseb “sempre teve péssima fama”, mas, ultimamente, com a disseminação de drogas como o crack, a situação piorou. “É normal você passar por aqui à tarde e ver meninas e meninos brigando entre si, usando drogas escancaradamente e promovendo arruaça”, denuncia.

A arma usada no crime foi encontrada pelo comerciante Erivaldo Macena, 46 anos, em uma área verde e residencial perto do Caseb. Ele só soube do crime horas depois. E se lembrou de ter visto dois jovens uniformizados correndo em direção à W3 Sul. “Um deles jogou algo no mato, mas não dei atenção. Quando o cliente contou do tiroteio, voltei aqui, achei a arma e avisei a polícia.”

Segundo informações da Polícia Militar, o revólver localizado seria de calibre . 38, mas as marcas das balas deixadas na parede do colégio tinham características de calibre .22.

* Nomes fictícios em obediência ao Estatuto da Criança e do

Adolescente (ECA).

Três perguntas para

Vânia*, 32 anos, auxiliar de serviços gerais

A senhora tem ideia de por que tentaram matar o seu filho?

Não. Ele também não sabe. Disse que conhece os dois (acusados) de vista. E que ontem (quinta-feira) eles ficaram o encarando.

As rixas entre jovens são comuns nas imediações da escola e também em Planaltina, onde vocês moram. O filho da senhora está envolvido de alguma forma?

Sim. Ele foi ameaçado. Fomos à delegacia registrar queixa, mas não sei se fizeram alguma coisa. Até mudei de casa por causa disso e também coloquei ele para estudar aqui (no Plano Piloto). Porque lá, em Planaltina, só estuda quem eles (os criminosos) deixam. Se você mora num determinado bairro, isso basta para eles espancarem, roubarem as coisas, as roupas e fazer a pessoa voltar para casa só de cueca. Aconteceu o que eu temia.

O que a senhora acha que precisa ser feito para evitar que os jovens continuem sendo

feridos ou mortos por causa de motivos banais?

Não sei. É complicado. Precisa ter mais polícia nas escolas. Lá, em Planaltina, quando você passa na porta das escolas, na entrada ou na saída, vê um monte de mala, gente mal encarada. Se houvesse mais policiamento e se eles tirassem essas pessoas das ruas, prendessem, acho que melhorava. Mas tem rua em Planaltina que a polícia não entra. Se a viatura passa, é correndo. Não sei o que fazer.

Memória

28 de setembro de 2012

Um professor de educação física do Caseb foi flagrado no Parque da Cidade fumando maconha com os alunos. Cinco estudantes de 15 e 16 anos acompanhavam o docente. Os militares faziam a ronda no estacionamento do parque e levaram todos para a delegacia. Eles encontraram com o educador uma balança de precisão. A suspeita era de que ele vendia drogas aos adolescentes.

Julho de 2010

Um adolescente de 15 anos foi espancado por 13 jovens em um ponto de ônibus localizado a 300m do Caseb. A prima dele, de 12 anos na época, não gostou quando dois dos agressores começaram a chamá-la por um apelido. Ela discutiu com eles, e Caio Rodrigo Lessa tentou defendê-la. Ao saírem da escola, os dois se dirigiram para a parada de ônibus e, quando esperavam a condução, foram surpreendidos pelos desafetos, armados com paus e pedras. As agressões só pararam quando o menino desmaiou. A mãe pediu a transferência dele no mesmo dia.

7 de outubro de 2002

Danilo Evangelista dos Santos, 17 anos, foi morto nas proximidades do Colégio Caseb com quatro tiros. Os dois rapazes que iniciaram a briga eram alunos do Caseb. Outro jovem, de 22 anos, ficou ferido durante o tiroteio. De acordo com a polícia, o crime aconteceu durante uma disputa entre gangues.

Posto policial em nada resolveu

Os casos recorrentes de violência motivaram a instalação, dentro do Caseb, de um Polo de Polícia Comunitária. A estrutura é composta por duas viaturas, quatro motocicletas e oito PMs todos os dias. O Batalhão Escolar não informou quantos homens estavam na escola na hora dos tiros. Mesmo assim, foram os militares que trabalham lá os primeiros a prestarem socorro à vítima

As negociações para a implantação do polo no Caseb começaram em 2009 e envolveram a PM, o Ministério Público, a Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do DF (Aspa-DF) e a Secretaria de Educação. O projeto começou a funcionar em agosto do ano passado e tem conquistado a simpatia de pais, alunos e professores. Segundo a polícia, toda a comunidade em um raio de até 3km é beneficiada. Por meio de comunicação via rádio, as 16 unidades no DF se comunicam com as outras escolas para deslocar policiais, caso necessário.

O presidente da Aspa-DF, Luis Claudio Megiorin, participou do processo para a implantação dos 16 polos de Polícia Comunitária no DF. O do Caseb representa a ação mais efetiva para conter a violência no perímetro escolar. Por isso, recebeu a notícia de ontem com pesar. “Pelo que percebemos, não basta só a polícia. É preciso unir a repressão com educação e medidas de punição”, defende.

Os suspeitos prestavam depoimento na DCA até o fechamento desta edição. Eles podem responder por ato infracional análogo ao crime de tentativa de homicídio. Se condenados, podem ficar internados por até três anos

Fonte: ADRIANA BERNARDES, ARTHUR PAGANINI e MANOELA ALCÂNTARA – Correio Braziliense – 02/03/2014 – – 00:04:14

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