Vida de ex-catadora de latinhas do DF que passou na prova do TJ vira filme

A catadora de latinhas que passou em um concurso de nível médio do Tribunal de Justiça do Distrito Federal recebeu uma proposta na última sexta-feira (14) para transformar a vida dela em um documentário. A história é inspiradora: a mulher estudou apenas 25 dias, enquanto se recuperava de uma cirurgia na casa da mãe. Com a aprovação, Marilene Lopes trocou, há 13 anos, uma renda mensal de R$ 50 por um salário de R$ 7 mil.

Surpresa, mas feliz com a oportunidade, Marilene diz que aceitou a proposta, vinda de uma produtora independente. “Tantas pessoas querem ter fama para aparecer. Eu quero somente para levantar a autoestima das pessoas”, afirmou. “[Eles disseram que] querem concorrer a prêmios pelo Brasil [contando a minha história].”

A mulher informou que falta negociar detalhes da filmagem com a produtora. Ainda não há datas para o início da produção.

A técnica do TJ afirma se orgulhar da trajetória que percorreu. Sem dinheiro nem para comprar gás e obrigada a cozinhar com gravetos, a mulher decidiu se inscrever no concurso em 2001, depois de ler na capa de um jornal sobre a abertura das inscrições. Ela passou menos de um mês estudando junto com as irmãs, que tinham a apostila da seleção. Apenas Marilene foi aprovada.

“Minha mãe disse que, se eu fosse operar, ela cuidava dos meninos, então fui para a casa dela. Minha mãe comprou uma apostila para as minhas irmãs, aí dei a ideia de formarmos um grupo de estudo. Íamos de 8h às 12h, 14h às 18h e de 19h às 23h30. Depois eu seguia sozinha até as 2h”, lembra.

Na época, ela e os cinco filhos moravam em uma invasão em Brazlândia, a 30 quilômetros do centro de Brasília. Marilene já havia sido agente de saúde e doméstica, mas perdeu o emprego por causa das vezes em que faltou para cuidar das crianças. Como os meninos eram impedidos de entrar na creche se estivessem com os pés sujos, ela comprou um carrinho de mão para levá-los e aproveitou para unir o útil ao agradável: na volta, catava as latinhas de alumínio.

Segundo ela, a situação durou um ano e meio, e na época a família passava muita fome. “Nunca tinha nem fruta para comer. Eu me lembro que passei um ano com uma só calcinha. Tomava banho, lavava e dormia sem, até secar, para vestir no outro dia. Roupas, sapato, bicicleta [os filhos puderam ter depois da aprovação no concurso]. Nunca tive uma bicicleta”, conta.

Mesmo para se inscrever na prova Marilene, que é técnica em enfermagem e em administração, encontrou dificuldades. Ela lembra ter pedido R$ 5 a cada amigo e ter chegado à agência bancária dez minutos antes do fechamento, no último dia do pagamento. E o resultado foi informado por uma das irmãs, que leu o nome dela no jornal.

“Tinha medo [de não passar] e ao mesmo tempo ficava confiante. Sabia que se me dedicasse bem eu passaria, só precisava de uma vaga”, diz. “Dei uma flutuada ao ver o resultado. Pedi até para minha irmã me beliscar.”

Marilene já passou pelo Juizado Especial de Competência Geral, 2ª Vara Cível, Órfãos e Sucessões de Sobradinho, 2ª Vara Criminal de Ceilândia, 12ª Vara Cível de Brasília e Contadoria. A trajetória dela inspira os colegas. Por e-mail, o primeiro chefe, o analista Josias D’Olival Junior, é só elogios. “A sua história de vida, a sua garra e o seu caráter nos tocavam e nos inspiravam profundamente.”

Da época de catar latinhas, a mulher diz que mantém ainda a qualidade de ser supereconômica. Ela afirma que não junta mais alumínio por não encontrá-los mais na rua. “As pessoas descobriram o valor, descobriram que dá para vender e juntar dinheiro”. Já as irmãs com quem estudou, uma se formou em jornalismo em 2011 e outra passou quatro anos depois no concurso do TJ de Minas Gerais, e foi lotada em Paracatu.

Raquel Morais Do G1 DF

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