Venezuelano “mora” no Aeroporto Juscelino Kubitschek


Venezuelano “mora” no Aeroporto Juscelino Kubitschek Homem diz ser perseguido pelo governo de seu país de origem e pede asilo político ao Brasil

Isa Stacciarini

 
 
O território brasileiro se tornou rota de fuga de estrangeiros que, dizendo-se ameaçados, se refugiam para escapar de perseguições políticas. No Brasil desde maio de 2011, o venezuelano Moises Roberto Boyer Riobueno, 42 anos, afirma ser um exemplo. Ele está há quatro meses no Aeroporto JK. Abrigado nos espaços de embarque, desembarque e praça de alimentação, ele já se tornou conhecido no terminal.


O refugiado, que se diz piloto e coronel reformado do exército, relata ter fugido da Venezuela após denúncias que custaram a vida da esposa e das filhas. As três foram brutalmente assassinadas, segundo ele, em 2010. Desde então, o estrangeiro perambulou por Boa Vista, Manaus e Brasília.

FARC

Riobueno se refugia no Brasil por causa de um episódio que tirou seu sossego. Ele afirma ter transportado, em 2002, um guerriheiro das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em um avião particular. Luis Edgar Devia Silva, conhecido como Raul Reyes, segundo Riobueno, foi levado da Colômbia para Venezuela supostamente a mando do então vice-presidente, José Vicente Rangel.

Reys morreu em 2008 em uma operação no Equador, mas desde que o refugiado relatou ter levado o guerrilheiro à Venezuela, tem sofrido ameaças do governo chavista.

A história de Riobueno também envolve participação na política. Ele conta ter sido deputado federal por quatro anos, e se candidatou a governador pelo Partido Social Cristiano, legenda de oposição. “Na Venezuela, o que existe é um governo fascista e ditatorial. O socialismo não funciona. Fui vítima de ameaças por grupos radicais que investem na interceptação de celular e e-mail”, garante.

Desde que chegou ao Brasil, Riobueno solicitou ao Comitê Nacional para Refugiados (Conare), vinculado ao Ministério da Justiça, a permanência no País por meio do refúgio. No entanto, nunca obteve retorno. Ele possui apenas uma autorização provisória da Polícia Federal, que vence em 25 de abril. Além do refúgio, o homem deu entrada no auxílio alojamento.

“Não posso voltar para a Venezuela, pois me matam. Vendi meu carro para me manter aqui e minha casa está para ser confiscada. Não tenho mais nada”, lamenta.

Em uma mochila já surrada e em uma pasta de mão, Riobueno carrega documentos, uma muda de roupa, objetos para higiene pessoal e fotos da família. O banho é feito na pia do banheiro. “É um ‘banho de gato’ que faço de madrugada. Passo uma água no corpo com uma taça”.

“Quero voar, quero trabalhar”

Durante o dia, Moises Roberto passeia pelo saguão do aeroporto e procura ajudar passageiros com as bagagens. Ele não cobra pela gentileza. À noite, ele se senta na praça de alimentação e observa as decolagens e aterrissagens dos aviões. “Eu me sinto como as pessoas que trabalham na limpeza do aeroporto”, compara.

Entre as idas e vindas dos aviões, o venezuelano observa atentamente cada manobra. E confessa a vontade de ficar no Brasil: “Quero voar, quero trabalhar”, emociona-se.

Riobueno já planeja recorrer caso o Conare recuse o pedido de refúgio. Por direito, o estrangeiro tem até 15 dias para entrar com recurso.

Riobueno diz ter cinco irmãos, mas não possui contato com a família desde a morte da esposa e das filhas. “Eles me culpam pela morte delas. Minha mãe ainda está viva e ela também me responsabiliza por uma invasão à casa, quando tentaram me achar”, conta.

O venezuelano acredita que a morte da família foi uma emboscada. Ele relata que todos estavam dentro do carro dele, que era blindado. Mesmo assim, os tiros atingiram a todos. Ele mesmo teria sido baleado oito vezes, motivo que o teria feito ficar em coma por quatro meses.

“Estou vivo por milagre de Deus, mas tive que passar por tratamento psiquiátrico para aceitar tudo isso”, confessa.

Versão Oficial

O Ministério da Justiça explica que Moises Roberto Boyer Riobueno é um solicitante de refúgio. Após a apreciação do caso pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare), ele pode ou não ser reconhecido como refugiado. Segundo o órgão, o estrangeiro fez a devida entrevista com o comitê e aguarda a apreciação do resultado pela sessão plenária do Conare, assim como os demais solicitantes de refúgio.

Nesses casos, cabe ao estrangeiro comparecer no Departamento de Polícia Federal para renovar o documento provisório de permanência no país, que tem validade de 180 dias.

O JBr. procurou a agência da ONU para refugiados, chamada de Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), mas a assessoria de imprensa destaca que o órgão não se pronuncia sobre estrangeiros cujo processos tramitam em segredo de Justiça.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília

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