Velório do arquiteto Lelé emociona amigos na Câmara dos Deputados”

Velório do arquiteto Lelé emociona amigos na Câmara dos Deputados”O Brasil perdeu um dos melhores corações. Quando morre uma grade figura como ele, é comum exaltar as grandes obras, mas a melhor obra dele, é ele mesmo”, lamentou o amigo José Carlos Coutinho


Corpo de Lelé é velado no Salão nobre da Câmara dos Deputados

O corpo do arquiteto carioca João da Gama Filgueiras Lima, o Lelé, chegou ao Salão Nobre da Câmara dos Deputados por volta das 20h desta quinta-feira (22/5) para ser velado. O cortejo fúnebre subiu a rampa do Congresso, e o caixão aberto foi posicionado para a despedida. A cerimônia deve se estender até as 6h desta sexta-feira (22/5). O sepultamento está marcado para as 10h, na Ala dos Pioneiros do cemitério Campo da Esperança.

Pela manhã, familiares, amigos e simpatizantes se reuníram em cerimônia de velório na Igreja da Ascensão do Senhor, no Centro Administrativo da Bahia. O corpo saiu da Bahia em um voo comercial e chegou ao aeroporto JK por volta de 17h30. Lelé morreu aos 82 anos em Salvador, ao meio-dia desta quarta-feira (21/5). Ele passou mais de dois meses internado em consequência de um câncer.

Salão Nobre
Entre os presentes na cerimônia, o arquiteto e também pioneiro de Brasília, Glauco Campello, 79 anos, lembrou da época em que trabalharam juntos no Centro de Planejamento (Ceplan) da UnB. “Ele foi nosso líder inconteste no Ceplan”. À época, Glauco acompanhou Lelé com outros 221 professores na demissão coletiva – de 1965 – e voltou para a cidade natal, Recife.

Ao lembrar das obras do arquiteto, Glauco disse que ele sempre foi muito humano. “Além das obras dele serem bonitas, tinham uma grande importância social. Os projetos dele visavam o bem-estar e resolver carências da população.

O professor de arquitetura da Universidade de Brasília (UnB), José Carlos Coutinho, se emocionou ao lembrar do amigo. “Não sei o que lamento mais, a perda do grande arquiteto, ou do grande cidadão que foi o Lelé. Ele era extremamente generoso. Doou alguns trabalhos em Abadiânia (GO) e Salvador”.

“Não posso deixar de me emocionar ao falar dele, o Brasil perdeu um dos melhores corações. Quando morre uma grade figura como ele, é comum exaltar as grandes obras, mas a melhor obra dele é ele mesmo”, lamentou o amigo.

Coutinho foi professor de uma das filha de Lelé, Adrina Filgueiras, em 1994 na UnB. “Ela é uma excelente profissional, conduziu as obras do Beijódromo – um dos prédios da universidade -, ela é uma arquiteta de peso. Tem o DNA!”

O diretor do Departamento Técnico de Arquitetura e Engenharia da Câmara, Maurício Matta, 56 anos, lembrou da generosidade de Lelé. “Foi um pioneiro. Ele se considerava um operário de chão de fábrica e nunca perdeu essa humildade”. “Ele deixa um legado fantástico sem nenhum retorno financeiro para si”, completou.

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) lembrou da convivência com o arquiteto enquanto era reitor da UnB, entre 1985 e 1989. “Lelé foi um arquiteto diferenciado nos desenhos e nas criações, com o compromisso com o lado social, como nos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), os Centros Integrados de Atendimento à Criança (Ciacs), na UnB – foi um dos arquitetos do prédio mais importante da universidade, o ‘Minhocão’ – e nos hospitais da Rede Sarah. Usou o conhecimento em prol social”, ressaltou.

O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo, Haroldo Pinheiro, trabalhou com o arquiteto desde 1974 e disse que Lelé fez parte da geração que floresceu num momento de entusiasmos da cultura e da tecnologia brasileira. “Ele veio para Brasília em 1957 para ajudar a construir a cidade. Teve uma vida de convivência com Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e Frei Matheus, mas sempre teve luz própria”, ressaltou.

“Como arquiteto dominou todo o arco da construção e dominava com extrema facilidade. Depois do movimento moderno brasileiro, foi o arquiteto que realmente inovou. Ele tinha soluções ecologicamente corretas, que aplicava às suas obras 30 anos antes de isso virar moda. Fazia mais, utilizando menos recursos”, lembrou Pinheiro.

O presidente do conselho falou sobre a falta de reconhecimento dos arquitetos pelo governo. “Os governantes que controlam a tecnologia e ciência no Brasil não têm ideia da importância do arquiteto. A qualidade humana não interessa aos gestores públicos. O que vi nos últimos oito anos foi um profissional querendo trabalhar sem interesse comercial, porém impedido pela burocracia. As construtoras dominam a construção civil, decidem tudo e minimizam o arquiteto”.

Os dois produziram juntos os projetos da Rede Sarah de Brasília, de Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, além de residências, escolas e postos de saúde. “As coisas com alguma importância que fiz na vida, foram com a ajuda dele”, completou.

O vice-presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) no Centro-Oeste, Paulo Henrique Paranhos, foi ao velório representando o presidente do IAB Nacional, Carlos Magalhães. Paranhos e João Filgueiras trabalharam juntos nas obras das favelas do Rio de Janeiro, por volta de 1983.

Segundo ele, Lelé percebeu que se ele desse oportunidade às pessoas que moravam nas favelas, elas corresponderiam com trabalho. “Essa é uma característica que se destaca. Ele era uma arquiteto por excelência, que conseguiu por mieo do exercício profissional desempenhar o ofício de cidadão, sobretudo pelas pessoas doentes, em sofrimento”, disse.

A filha de Lelé, a jornalista Sônia Filgueiras, 46 anos, também esteve presente. “O que mais admirava no papai é que ele foi muito virado para o lado social. Construiu hospitais, escolas, o saneamento de favelas. E sempre teve a preocupação de manter o custo da obra baixo e com o resultado de grande qualidade”, lembrou ela, antes de o descrever como um pai carinhoso, sábio, sempre cheio de conselhos para dar. Como arquiteto, ela o enxergava como um profissional completo, que calculava, projetava, construia e era criativo.

A arquiteta Adriana Rabello Silgueira Lima, filha que seguiu os passos de Lelé, acompanhava o pai nas obras desde que era criança e trabalhou com ele em diversas construções, inclusive no Memorial Darcy Ribeiro na UnB, o Beijódromo. “Ele era um grande coordenador, que extraía o melhor de cada um. Mantinha a equipe unida, e eu era um membro da equipe dele, o braço direito. Mas não tenho como dar continuidade ao seu legado. O que ele fez, ele fez. Agora vou cuidar do acervo produzido pelo meu pai”, anunciou ela.


(Com informações de Guilherme Pera, Maryna Lacerda e Luiz Calcagno)


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