‘Universidade do crime’ 80% dos presos têm antecedentes criminais



Mateus Gusmão

As cenas de barbaridades no presídio de Pedrinhas, no Maranhão, escanca-raram um problema nacional: a péssima qualidade dos presídios brasileiros. No maranhense, por exemplo, cerca de 2200 detentos vivem encarcerados quando a capacidade máxima do local seria de 1.770. Ou seja, quase 500 pessoas mais. Pior. No ano passado, 60 presos morreram em confrontos entre os grupos que tentam dominar a unidade. As imagens dos mortos, alguns decapitados, que circularam pela internet eram chocantes. E levantaram uma discussão sobre o poder de reabilitação do criminoso encarcerado. Para muitos especialistas, com o atual modelo penitenciário, é quase impossível recuperar algum condenado.

Eles têm razão. Para se ter uma ideia, em Volta Redonda, cerca de 80% dos suspeitos presos pela Polícia já possuem antecedentes criminais, garante o delegado da 93ª DP, Antônio Furtado. “A gente sabe que existe uma super lotação dos presídios. É por isso que muitos dizem que é a universidade do crime. Existe uma mistura entre os presos de baixa e alta periculosidade, que ficam em uma mesma cela. Isso é muito ruim. Além disso, em uma cela que cabem 30, tem 70 detentos, o que gera a superlotação”, disparou, mostrando que é difícil um criminoso se reabilitar nessa situação.

 
 
Em entrevista exclusiva, Furtado explicou os motivos da reincidência dos ex-detentos em cometer crimes. Um deles seria o social, já que a maioria dos presos seria de classe humilde, de gente que mora na periferia. Além disso, os criminosos teriam, em sua grande maioria, baixa escolaridade e um ambiente familiar conturbado. “Muito cedo, essas pessoas têm seus sonhos de consumo frustrados. E buscam conseguir isso de outras formas. Além das drogas, eles, para sustentarem o vício, começam a cometer furtos e roubos ou passam a traficar”, explicou.


Quando passam a atuar no tráfico de drogas, acentua o delegado, as coisas pioram. “No tráfico eles se acostumam com um dinheiro ilusório. Começam a ganhar até R$ 1,5 mil por semana. Se acostumam com isso, com o dinheiro fácil. E como eles têm em sua maioria baixa escolaridade, como poderiam conseguir manter uma renda de R$ 6 mil por mês?”, completou Antônio Furtado, dando a entender que o criminoso acaba atraído pela ‘vida boa’ que o dinheiro do tráfico pode lhe oferecer.

Tem mais. O delegado afirma que o ciclo vicioso começa já na primeira prisão. “O criminoso é preso e, quando solto, é recebido com festas. Encontra aberta a porta da delinquência”, comentou, mostrando que faltam oportunidades para os ex-detentos no mercado de trabalho formal. Falta de oportunidade que pode ser compreendida, acentua. “Muitos empresários têm medo de dar emprego a um ex-detento. Isso porque há casos terríveis de pessoas que deram oportunidade para um ex-preso e ele acabou furtando o caixa da firma, por exemplo”, lembrou Furtado.

Para o delegado, é preciso que existam políticas públicas efetivas para pôr fim ao ciclo vicioso – do preso sair da cadeia e voltar a cometer delitos. “É preciso preparar os detentos para se reingressarem na sociedade com dignidade. O preso poderia fazer cursos dentro da cadeia, para que saia de lá com uma profissão e que possa se ressocializar na sociedade. E longe do crime”, completou, lembrando que diversas empresas da região até chegam a procurar mão de obra, mas esbarram no problema da maioria dos detentos não ter qualificação.

Furtado lembrou ainda de um caso ocorrido em Volta Redonda, de um ex-presidiário que, ao sair da prisão, arrumou emprego em uma oficina mecânica. Dois dias depois foi demitido porque os donos descobriram que ele já havia sido preso. “Por isso é preciso políticas públicas. A família do preso tem que receber um auxílio-reclusão, por exemplo, para poder se reestruturar. E o preso tem que ser educado para que, ao sair, possa se ressocializar”, concluiu, fazendo um alerta à sociedade. “Se o detento voltar pior quem vai pagar é a sociedade, é um pai de família”, sentenciou.

Homem é preso por roubo duas vezes à mesma drogaria
Para corroborar sua tese, durante os últimos dias, o delegado Antônio Furtado apresentou dois suspeitos que tinham sido presos e, detalhe, que tinham antecedentes criminais. Um deles é Alan Carbone Soares, 43. Ele foi preso acusado de roubar por duas vezes, num intervalo de 12 horas, a mesma unidade da Drogaria Moderna, no Santo Agostinho. A ação de Alan foi flagrada pelo circuito interno de TV do estabelecimento, que foi entregue aos policiais. O suspeito, segundo o policial, tem uma ficha criminal extensa, tendo sido detido por tráfico de drogas, furto e cinco roubos qualificados.

A primeira ação de Alan teria sido feita às 23 horas de terça, 28. Simulando estar armado – com a mão embaixo da blusa –, Alan teria exigido que a caixa da farmácia lhe entregasse R$ 40,00, dinheiro que estava em caixa. Não satisfeito, Alan teria voltado à cena do crime na manhã de quarta, 29, por voltas das 12 horas. Aparentava estar drogado e ficou fazendo perguntas e mais perguntas às funcionárias da farmácia, até que quando uma delas se aproximou, ele a puxou pelo cabelo até ficar em frente à caixa registradora. Saiu levando R$ 306,00 e um vidro de xampu. Mas não teve sorte, pois ao sair da drogaria foi detido por populares, que chamaram a Polícia Militar. Alan foi preso em flagrante e responderá pelos dois furtos, podendo pegar até 20 anos de prisão. Ao ser apresentado à imprensa, Alan não quis se pronunciar.

Suspeito de latrocínio é preso com arma e drogas
Carlos Alexandre Fernandes Amanso, o Batata, 20, preso na segunda, 27, é outro detido pela polícia de Volta Redonda que já tem antecedentes criminais. Ele foi apreendido em sua casa, no São Luís, com um revolver calibre 38, munição e 30 pinos de cocaína. Batata ainda é suspeito de ter cometido um latrocínio na Rua São Sebastião, no São Luiz, em agosto de 2013, quando Edmar Monteiro dos Reis, 73, foi assassinado dentro da sua própria quitanda. O seu corpo foi encontrado pelo filho e o caixa estava arrombado, sem sequer uma moeda.

Batata, segundo Furtado, teria passagens por tráfico de drogas, resistência e por dirigir sem CNH. Agora, irá responder por porte ilegal de arma e tráfico de drogas. Mas a situação pode piorar. É que, segundo testemunhas, o rapaz teria sido o autor do assassinato de Edmar. Com isso, Antônio Furtado vai enviar a arma apreendida com Batata para o Instituto de Criminalista Carlos Éboli (ICCE), para saber se o projétil que atingiu o comerciante saiu da arma de Edmar. O exame deve ficar pronto em um mês.

O delegado da 93ª DP revelou ainda que recebeu, através do ‘Teia Invisível’, sistema de denúncias anônimas, em agosto de 2013, diversas denúncias de que Batata poderia ter cometido o crime contra Edmar. “As testemunhas diziam que Batata chegou ao local de moto, com um comparsa, que teria ficado do lado de fora da quitanda de Edmar. Logo que Batata entrou, foi ouvido um disparo de arma de fogo”, diz o delegado que chegou a pedir a prisão temporária do suspeito, o que não conseguiu.

Só que a Polícia Civil continuou monitorando Batata. Descobriram, por exemplo, que o rapaz estaria ‘tocando o terror’ no bairro. Estaria até aliciando adolescentes para vender drogas no São Sebastião. E quem não aceitasse, segundo o delegado, era expulso do bairro. Se continuasse, era ameaçado de morte. Deu no que deu: quando foi apreendido em sua casa, os policiais encontraram uma arma e drogas que seriam suas. Batata acabou sendo indiciado por latrocínio, tráfico de drogas e porte ilegal de arma. Se for condenado, ele pode pegar até 45 anos de prisão. Ao ser apresentado, Batata negou todas as acusações.

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