Universal no “olho da rua”


Repórter do Universal.org vive uma noite como morador de rua e conhece o trabalho do grupo Anjos da Madrugada

A noite caiu cobrindo o ar com seu manto escuro. Então eu preciso encontrar um lugar para passar a noite. Embora as ruas pareçam vazias, você pode ver quase todas as marquises ocupadas por camas de papelão e plástico preto. No Brasil, cerca de 1,8 milhão de pessoas vivem nas ruas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para encontrar meu espaço, saio do Largo São Bento, no Centro de São Paulo, e desço até a rua Libero Badaró, sozinho. Tenho um par de tênis e um short e uma blusa rasgados. Não é só o que visto, é tudo o que tenho. E 1 real no bolso não furado para o café da manhã de amanhã.

O frio corta as mãos e o rosto molhados pela garoa como se mil facas entrassem em cada ponto descoberto do meu corpo. A primeira regra para morar na rua é ser forte.

Por isso, ignoro a garoa gelada. Vejo uma senhora comendo um cachorro-quente doado. Isso me lembra que tenho fome. Mas também não ligo para ela. Não tenho dinheiro para comer agora. E a segunda regra para morar na rua é ser forte.

– Posso sentar aqui um pouco?

– O quê?

– Posso sentar aqui um pouco?

E sento. Com a cabeça aquele senhor permitiu que eu entrasse em sua casa. Duas folhas de papelão sobrepostas, duas sacolas – uma com um par de sapatos – e um cobertor sendo estendido. Essa é a casa dele.

– Há quanto tempo o senhor tá aqui?

Não entendo a resposta. O tempo sem ter com quem falar tirou a habilidade natural que quase todos os homens têm. Ele está na rua há anos, deduzo. E não vai subir até o Largo São Francisco para comer porque tem medo.

– Disseram que a comida é boa.

– Não vou sair daqui. Fiz a besteira de sair daqui e meteram a mão nas minhas coisa. Eu podia ter dado um chute nele, mas não fiz p… nenhuma. Meteram a mão nas minhas coisa tudo. Não saio daqui.

É a minha deixa. Dou boa noite e sigo meu caminho. A terceira regra para morar na rua é saber que você está sozinho.

*

O Largo São Francisco é como um grande hotel. Com a diferença de que, ao invés de camas, colchões e edredons, temos concreto, papelão e algumas mantas ralas.

Quase todos já estão dormindo, enfileirados sob as marquises mais longas. Quem ainda está acordado também se protege da garoa, que agora está mais forte. Dou a volta no largo, mas não encontro um lugar protegido. Na frente da faculdade de direito percebo que não tenho direito a uma cama seca.

Então sigo a música. Entro na primeira rua, onde estão dançando forró, e depois em outra, onde estão cantando sertanejo. Escolho a segunda. Acho um degrau coberto e sento, olhando as pessoas que se divertem no bar. Eles cantam, dançam, bebem e fingem que você não está ali.

Se você anda de encontro a alguém, esse alguém troca de calçada. Você sabe o motivo quando olha para trás e a pessoa está voltando para a mesma calçada. Essa é a quarta regra para morar na rua: saber que você é de uma espécie diferente. Mas não importa. A quinta regra é ser forte.

Então isso é o que é preciso para viver na rua: ser forte, ser forte, saber que está sozinho, saber que é de outra espécie e ser forte. Todos que falam comigo concordam.

*

– E aí, dotô!

O doutor não responde. Então o colhedor de latinhas segue seu caminho. Chinelo, bermuda, blusa verde e um sorriso na cara. Recolhe uma, duas, entra no bar e pede para o dono separar algumas.

Então sai ainda sorrindo e segue a rua. Lá em cima, no alto de um prédio alto, duas bandeiras olham por nós. Uma do Brasil e uma de São Paulo. Não pertenço a nenhum dos dois lugares.

A chuva aumenta e o vento corta como 10 mil facas entrando em cada ponto descoberto do corpo. E então você dança. Dança porque precisa se esquentar. E finalmente alguém olha para você e ri. E você continua dançando. Eles riem, mas eles nunca dançaram com o ódio de verdade.

*

– Chega com respeito! Não chega assim na casa dos outros, fazendo shhh pra mim. Eu que faço shhh pra você!

O grito assusta, mas só eu me assustei. É a primeira vez que estou ali e ele levantou para gritar olhando na minha direção.

– Não vem arrastar aqui não. Quer pôr no jornal e depois fica aí.

Respondo com a cabeça, mas ele não está olhando para mim. O olhar dele vai mais longe. Olho para trás e ninguém está lá. Então percebo que ele está brigando com ninguém. Está sonhando, dormindo de olhos abertos.

Os cantores do bar já foram embora e precisei encontrar um lugar para passar a noite. Em frente à faculdade há camas contornando todas as paredes. Encontrei 50 centímetros desocupados entre duas cabanas de manta e papelão e sentei.

Duas viaturas da Guarda Civil Metropolitana (GCM) fazem nossa proteção. “Eles são bonzinhos quando tem alguém aqui. Quando a gente tá sozinho eles humilha a gente”, garante o ex-presidiário de 44 anos de idade que tem que pagar 250 reais de pensão para a filha especial, mas não tem o dinheiro porque foi demitido do emprego de caseiro que fez bem por 2 anos, até o patrão descobrir que ele tinha passado 17 anos na cadeia. Ninguém dá emprego para ele. O primeiro documento que pedem é a ficha de antecedentes criminais. “Quero trabalhar, mas ninguém deixa. Se seguro uma placa ali na Sé, eles dão 25 reais pra ficar o dia inteiro na chuva e no sol. 25 reais!” E se não pagar a pensão da filha dia 10, ele vai ser preso. “Pelo menos aí eles dão auxílio-reclusão pra minha filha.”

Ele fala mais do que os outros.

Quatro carros param em fila com os pisca-alertas ligados. Duas ou três cabeças saem de debaixo do cobertor para olhar. Pode ser comida. Mas a chuva está forte agora e eles desistem de descer.

– Sai daqui, seu pão com mortandela!

Já me acostumei com os gritos do meu colega de ‘quarto’.

– Não tô te desrespeitando. Tô falando no mesmo tom que você. Você vem arrastar aqui pra depois pôr no jornal.

Ele fala sozinho por pouco tempo. Quando cedo o espaço para outro homem montar sua cama, meu ex-colega de quarto acorda brigando: “Vai me tirar da minha cama? Eu cheguei cedo, é minha cama!”

– É só ir mais pra lá. – Replica o outro.

A discussão parecia ir longe, mas logo que encontro outro lugar para sentar e olho na direção deles, tudo já está resolvido. Uma negociação que envolveu o espaço, um maço de cigarros e um sabonete.

Tudo se sossega até que uma nova velha briga por espaço rasgue a noite. Por enquanto, tudo está calmo. Boa noite!

*

– Boa noite! Boa noite! Vamos comer?

Você olha e eles estão lá. Um, dois, dez, 20, 30. São muitos, andando em todas as direções, desejando boa noite, distribuindo bancos de plástico, armando tendas. São os Anjos da madrugada.

– Boa noite, qual seu nome? – Ele me estende a mão.

Digo meu apelido.

– Muito prazer. – E diz o nome dele. – Vamos jantar?

Ele sai e logo outro chega. Também me estende a mão, nos apresentamos e, quando percebo, estou sentado em um banco de plástico branco de frente para ele, falando sobre mim. Sua proposta é mudar minha vida. Mas não olho para ele. A terceira regra é saber que estamos sozinhos.

– Você não quer isso para você a vida toda, né? Você é novo, tem o futuro todo pela frente. Você pode mudar sua vida.

É difícil não conversar com ele. Eu e mais dois de nós conversamos. Falamos sobre nós, ele fala sobre ele. Mas fala mais sobre Deus. Não sobre a Igreja dele. Sobre Deus. Sobre como Deus é o Único que pode tirar a gente da rua. Basta deixarmos.

– Você vai lá no domingo, 9 e meia da manhã, e a gente vai lhe ajudar. Você ajuda a gente e a gente ajuda você. É fácil chegar lá. Você fica nos últimos bancos e eu vou lá lhe procurar para gente conversar bem.

Junto com a palavra “Universal”, quem dorme na região já sabe que virão itens básicos que pouco se vê por ali. São cobertores novos e seminovos, roupas de frio, produtos de higiene pessoal e alimentos.

Durante a conversa descubro que o grupo age no resgate e auxílio de moradores de rua há muito tempo, conscientizando e levando os desabrigos até os abrigos municipais. Isso quando os desabrigados querem.

A janta chega e aquece não só nossos estômagos, mas nossas almas. É como se algo fosse preenchido dentro de nós. E então já podemos olhar nosso benfeitor nos olhos. De barriga cheia somos gente de novo.

– Tem comida para todo mundo? – Pergunto.

– Tem sim. Você quer outra?

Todas as palavras são acompanhadas por ações. Todas. Por isso é fácil acreditar no que dizem. “Deus lhe faz companhia” e ali estão eles conversando de igual para igual. “Deus alimenta sua alma” e uma bela feijoada é servida. “Deus aquece seu coração” e ganhamos calças, blusas e cobertores.

Todas as palavras são acompanhadas por gestos. E, quando isso acontece, as regras são quebradas. Não estamos sozinhos, não somos diferentes, e quando dizem que podemos mudar de vida, realmente podemos. Essa é a força de que precisamos. Deus nos ajudará, mas é mais fácil acreditar nisso quando Ele envia seus anjos para agir.

Duas horas de conversa e está plantada a vontade de mudarmos. A aproximação criada nos faz acreditar nas promessas de auxílio para tirar documentos, para aprender a ler e escrever, conseguir um emprego, encerrar os vícios. Nos faz acreditar novamente em Deus.

Para continuar a conversa, explicam com detalhes e insistência como chegar até ao templo no próximo domingo. Até lá, a chama que acenderam ainda deve estar queimando em nós.

A madrugada subiu cobrindo o ar com o cheiro da chuva. Quando os Anjos da Madrugada vão embora, ainda não tenho onde passar a noite, mas sei onde não quero passar a vida.

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