Uma lista de desejos em prol do coletivo



Patrícia Fernandes


Brasilienses elencam quais devem ser as prioridades para o governo no ano que começa hoje

O começo do ano costuma vir acompanhado de metas individuais, mas em 2014, no lugar de objetivos pessoais, os brasilienses compartilham anseios coletivos. Melhorias no transporte público, mobilidade urbana, saúde, segurança e transparência da gestão governamental são os cinco principais desejos da população.


Para os órgãos governamentais envolvidos no cenário, a capital federal está no caminho certo e as expectativas para o ano que se inicia são otimistas. Especialistas, no entanto, alertam para a gravidade do quadro e ressaltam que as mudanças requerem estudo e planejamento.


Vale ressaltar que as metas coletivas surgiram em um ano que a precariedade dos serviços oferecidos pelo setor público alcançou elevado grau de insatisfação entre a população. Reclamações referentes à qualidade do transporte público, mobilidade, saúde, segurança, entre outros setores, foram vistas em larga escala.

Movimentos

Diante do quadro, o povo anseia por mudanças. Especialistas ouvidos pelo Jornal de Brasília relatam que as reinvidicações feitas encontram ressonância em toda a sociedade. Prova disso são os movimentos populares de junho de 2013. Apesar de terem sido motivados inicialmente pelo caótico sistema de transporte das cidades brasileiras, elas se estenderam à uma crítica à falta de investimentos em outras áreas essenciais.

Expectativa em ano eleitoral

Ao que tudo indica, o recém-chegado 2014 tem grandes responsabilidades pela frente. E quem deve assumir é o gestor, à frente da máquina em um ano em que a população vai às urnas. Por se tratar de um ano eleitoral, a expectativa dos cidadãos é de que as transformações tomem forma. O desejo é de que os candidatos escolhidos consigam realizar as melhorias necessárias e os serviços básicos sejam oferecidos de maneira digna.

Saúde

Longas filas, falta de médicos e precariedade da estrutura física são as principais dificuldades enfrentadas pelos pacientes. “Já presenciei gente sendo tratado pior do que um bicho nos hospitais”, afirma o técnico em informática Cassio Pereira, 20 anos.

Apesar dos desejos de mudança na área para 2014, Cassio não está otimista. “Em um governo não dá para fazer tudo o que precisa ser feito. Com a Copa aqui até achei que as coisas fossem mudar, mas pelo visto, isso não vai acontecer”, conclui. O ponto de vista dele vai de encontro ao que pensa a professora Angelita Fernandes, 48. “Há um excesso de burocracia aliada à falta de qualidade”, observa.

Na contramão, a Secretaria de Saúde avalia que o investimento na área nesta gestão proporcionou um avanço imenso no serviço prestado à população. “A implantação do sistema de classificação de risco, os investimentos na atenção primária reforçaram o setor que estava deteriorado”, afirma a pasta.

Para o promotor de Justiça de Defesa da Saúde Pública do Ministério Público do DF, Jairo Bisol o governo não tratou a saúde pública com a vontade política de resolver os problemas. Por isso, as expectativas para 2014 não são otimistas. “Existe um deficit de pessoal de 50%. É um problema generalizado, em todas as categorias. O governo não conseguiu fazer a recomposição desse quadro ao longo desse mandato”, diz Bisol.

Segundo ele, o modelo de atenção à saúde está invertido. “Em vez de focar na atenção primária, se investe nos hospitais. Mas como o trabalho voltado para esse aspecto leva, em média, de dois a três anos, não vejo possibilidade de grande mudança.”

Segurança

A sensação de insegurança fez parte da rotina dos brasiliense em 2013. “É impossível dar uma volta à noite, por exemplo, sem ficar preocupado. Seria muito bom se 2014 trouxesse de volta a segurança”, aponta o estudante Adalri Júnior, 18 anos. Para ele, é importante que haja uma aplicação mais severa da legislação. “Existe a certeza da impunidade. O bandido sabe que comete o crime e não acontece nada”, salienta.

Para o especialista em segurança pública da Universidade Católica de Brasília (UCB), Nelson Gonçalves, é essencial que seja feita uma revisão na legislação voltada para os menores. “A lei exige uma série de medidas protetivas aos menores, mas elas não são operacionalizadas do ponto de vista educacional”, garante. Ele ressalta, ainda, o aumento da criminalidade no DF. “Alguns índices apresentam uma ou outra queda, mas o fato é que nós estamos percebendo um aumento muito grande. O que mais preocupa não são os números, mas, o que eles provocam”, alega.

A Secretaria de Segurança, porém, tem uma visão diferente. “Os números da criminalidade não refletem a sensação de insegurança. Nos primeiros 11 meses deste ano, o DF registrou 608 homicídios, contra 723 no mesmo período do ano passado, queda de 16% no índice de mortes violentas”, afirmou a pasta.

De acordo com o órgão, as tentativas de homicídio também registraram redução de 10% no mesmo período. Na mesma linha, segundo o órgão, o roubo com restrição de liberdade apresentou queda significativa de 26,4% neste ano. Já o sequestro relâmpago apresentou baixa de 55%.

O especialista em segurança, porém, assegura que a gestão precisa melhorar. “Hoje não vemos políticas sérias na área de segurança pública.”

Trânsito

Os problemas estruturais no trânsito também dificultam a vida da população do DF. Para evitar um colapso, é importante que a mobilidade seja uma premissa em 2014. Segundo o especialista em comportamento no trânsito, Fábio de Cristo, um dos principais entraves da mobilidade na capital é a falta de estacionamentos. Contudo, o especialista reconhece que os projetos devem ser pensados em conjunto. “Esse tema envolve várias medidas que vão desde a melhoria do transporte coletivo, passando pela implementação de sistemas eficientes de cobrança do tempo estacionado nos espaços públicos, até a cobrança de taxa para circular na cidade em determinados horários, lugares ou dias”, explana Fábio de Cristo.

O ponto de vista do especialista é refletido na sensação da população. “Eu me mudei do Sul para Brasília e vi uma diferença muito grande. A mobilidade daqui deixa muito a desejar”, aponta o estudante Renan Oliveira. Segundo o jovem, os recursos poderiam ser melhor aplicados. “Pelo que vejo, dinheiro tem. O que parece é que ele não é destinado ao que realmente precisa”, diz.

Como nos casos da Saúde e da Segurança, a pasta dos Transportes também mostram uma situação diferente daquela apontada pela população e por especialistas. “Quanto aos engarrafamentos, a solução passa, necessariamente, por encontrar mecanismos que promovam a redução da frota de veículos do transporte individual e privilegiem o transporte coletivo”, afirmou a assessoria de imprensa da Secretaria de Transportes.

E completa: “A migração do transporte individual para o coletivo será possível quando o transporte coletivo for de qualidade. Por qualidade, entende-se: veículos seguros e confortáveis, pontualidade, frequência, integração e rapidez nos deslocamentos”, destacou.

Segundo a pasta, entre os projetos para 2014 estão a conclusão do Expresso DF Sul, a licitação do Expresso DF Norte, a expansão do Metrô-DF e conclusão dos 600 km de ciclovias, espalhados por diversas cidades do Distrito Federal.

Transporte Público

A má qualidade do transporte público foi uma das marcas de 2013. O tema, retratado em inúmeras reportagens do Jornal de Brasília, também contou com um emblemático processo licitatório para renovar a frota. Após uma série de denúncias sobre as irregularidades, a licitação foi concluída, mas, segundo os usuários, o problema ainda está longe de ser resolvido.

O estudante Tiago Lima Paulino, 18 anos, afirma que o ano novo se inicia com problemas muito antigos. “Eles só trocaram os ônibus que já tinham, por outros. Mas eles continuam sem horário certo para passar e estão sempre lotados”, relata. De acordo com ele, que mora no Setor Militar Urbano, ir de casa à faculdade é uma tarefa árdua. “Levo duas horas para chegar na UNB. Venho em pé. Já chego muito cansado para a aula”, declara.

Para o especialista em comportamento no trânsito, Fábio de Cristo, a ausência de transporte público de qualidade tem impacto direto na vida do usuário. “Há o aumento do desgaste físico e emocional, seja na espera pela condução ou por ficar em pé durante todo o trajeto; na raiva e na agressividade dos motoristas, mesmo nos horários mais cedo do dia”, destaca.

Segundo Fábio, o desejo da sociedade é justificável. “O povo brasileiro já deu uma grande demonstração de mobilização nacional em 2013. As mobilizações deste ano em todo o país começaram pela reivindicação por um transporte melhor. Portanto, a visão da sociedade é coerente com o que temos identificado no cenário nacional”, diz.

De acordo com ele, não há solução única para os problemas do transporte público. “O desafio das autoridades de trânsito consiste em equilibrar intervenções que incluem tanto o uso do automóvel, do transporte coletivo quanto a melhoria da infraestrutura viária e da fiscalização”, sustenta.

Em resposta aos posicionamentos, a Secretaria de Transportes afirmou que está realizando a substituição da frota de ônibus do Sistema de Transporte Público Coletivo. Segundo a secretaria, a frota de ônibus reduzida pode ser explicada. “A primeira fase compreende apenas a substituição da frota, mantendo os mesmos horários e itinerários praticados atualmente”, ressalta. Com a conclusão da substituição, o tempo das viagens será reduzido.

Transparência
Saber como o dinheiro pago é gasto pelo governo é um das exigências do povo. “O problema está em tudo e é consequência de uma gestão errada. Isso acaba afetando saúde, segurança, educação”, salienta o professor Flávio Vidal. “Há muito desperdício de dinheiro. Não adianta pensar em solução a curto prazo. Toda mudança efetiva leva tempo”, salientou o professor. Segundo o especialista em administração pública da Universidade de Brasília (UNB), José Matias-Pereira, a gestão governamental do DF é ineficiente. “Desde o começo, a ética, a competência e o compromisso não são levados a sério. Então, era óbvio que a gestão iria fracassar”, afirma. “Estamos diante de uma gestão desastrosa, nebulosa, onde a sociedade, em nenhum momento, foi consultada e há um elevado desperdício de recursos públicos”, ressalta. Ele alerta que as mudanças, no entanto, dependem da população. “A situação é preocupante, mas pode mudar com a população escolhendo melhor seus governantes”, conclui. A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Transparência e Controle, mas os questionamentos não foram respondidos.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília

About A Politica e o Poder

%d blogueiros gostam disto: