Um vale de lágrimas

  Ela já foi chamada de “poste” do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Tempos depois, se tornou a presidente com o maior índice de aprovação da história, atingindo 63% de aprovação em março, de acordo com pesquisa do CNI/ Ibope. Assim é a vida de uma presidente: recheada de altos e baixos. Mas como em política pode acontecer de tudo, logo veio o dragão da inflação e colocou a popularidade da presidente Dilma Rousseff no lado profundo dessa equação. Prova de que o brasileiro pode até aceitar desaforo quando o assunto é política, assim como fez com o troca-troca ministerial, porém, quando se mexe em seu bolso, a história muda bastante. E os ventos agora não estão favoráveis a Dilma. De acordo com o Datafolha, desde a última semana, de 65% a popularidade da presidente Dilma Rousseff caiu para meros 57%.

O Datalha demonstrou, em um retrato triste para a presidente, que ela pisa em um chão espinhoso. Ela perdeu pontos com homens e mulheres, em todas as regiões do país. Isso significa que, nos últimos meses, a maioria da população não enxerga mais o governo Dilma como “ótimo”. Também, pudera. O país apresenta dificuldades inegáveis. O anúncio do PIB no começo do mês desapontou mais uma vez. A inflação continua desmedida e fez o consumo subir apenas 0,6%, segundo dados do IBGE.

Tudo isso levou o Brasil a correr riscos altos – como ter sua nota rebaixada pela agência de classificação de riscos Standard e Poor’s (S&P). A perceptiva nacional, na visão da S&P poderá ir de “estável” para “negativa”. Justamente o contrário do que aconteceu com outros países americanos, como os Estados Unidos, que tiveram uma boa notícia na segunda-feira: sua nota elevada pela agência. A nota da S&P é como um atestado de que o país é capaz de honrar seus compromissos, pagar suas dívidas e manter uma economia sadia, ou seja – de que não dará um calote em seus credores.

O ministério da Fazenda, como é esperado, tentou minimizar o cartão vermelho recebido na quinta-feira da semana passada. Dessa vez, as explicações ficaram a cargo de Márcio Holland, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, “É apenas uma mudança de perspectiva, não é mudança de rating, de estável para negativo”, disse, durante o balanço do Programa de Aceleração de Crescimento 2 feito pelo governo. Já Gleisi Hoffman, ministra da Casa Civil, foi mais realista: “Não tiro o mérito, mas temos que observar o momento delicado da economia mundial. Estamos todos no mesmo barco. Se furarmos o casco, não afunda apenas o comandante, a tripulação inteira vai junto”, afirmou.

Fazendo uma comparação com o futebol, paixão nacional, como se o país saísse da “série A” e entrasse na “série B”, pois os futuros investidores pensarão duas vezes antes de apostar em alguma empresa tupiniquim. Analistas da agência não perdoaram 11 gigantes nacionais, que também podem ter um corte em sua perspectiva, como a Bovespa, o Bradesco, o Banco do Brasil e o Itaú.

Se para a presidente a pesquisa trará algumas noites de insônia, para os candidatos a roubar sua vaga em 2014 os dias estão sendo floridos. A Rede Sustentabilidade, por exemplo, divulgou nota à imprensa praticamente comemorando a queda na popularidade da presidente, que classificou como um “alinhamento do eleitorado com proposta de desenvolvimento sustentável”. Embora a presidente ainda fosse reeleita com 51% dos votos, o segundo lugar não iria nem para o senador Aécio Neves (PMDB-MG), nem para o governador Eduardo Campos (PSB-PE), e sim para a ex-senadora Marina Silva (Rede), com 16% dos votos.

“O levantamento sinaliza que as propostas defendidas na campanha de 2010, que tinham como eixos centrais a cidadania e a sustentabilidade, continuam reverberando na sociedade”, declara em nota o partido da presidenciável mais bem cotada após a presidente Dilma.

Além do Pibinho e da alta na inflação em abril, a taxa de desemprego aumentou 5,8%, segundo o IBGE. Com a máquina do governo inchada e os gastos públicos no limite, será difícil a presidente reverter o estrago feito com os resultados ínfimos da economia. Para isso, tem feito várias viagens ao Nordeste. Embora tenha o presidente Lula como seu cabo eleitoral, tem na região um adversário enfurecido: Campos. Mas tem como escudo os programas assistenciais do governo, que são amplamente utilizados nessa região, principalmente o Bolsa Família.

Na quarta-feira, José Eduardo Cardoso, ministro da Justiça, comentou a queda de popularidade da presidente. Ele afirmou que a pesquisa foi feita antes da hora e que o importante é que o Brasil siga trabalhando. Ressaltou a situação nacional nos últimos 12 anos, que considerou “invejável” e que “preocupa a oposição”. “Eu estaria preocupado se tivesse que enfrentar um governo com essa popularidade e estaria torcendo por uma quedinha aqui dar uma esperança. É natural que no nível de popularidade tão alto da presidente Dilma Rousseff a oposição comemore uma oscilação”, afirmou. “A tendência é que o governo continue na mesma linha, que o Brasil continue a crescer e a economia permaneça estável. Acho que a oposição vai ter dificuldade”, acrescentou o ministro.

Ele também comentou – e negou com veemência – os boatos de que o Bolsa Família iria acabar. O burburinho começou no começo do mês, quando um erro fez a Caixa Econômica Federal liberar o recurso antes do prazo, causando um pandemônio em várias regiões do Nordeste.

Alheia à toda as críticas e polêmicas, a presidente lançou, também na quarta-feira, o programa “Minha Casa Melhor”, uma continuação do “Minha Casa, minha vida”, voltado à compra de móveis e eletrodomésticos. “Muitos vão dizer que é um desperdício fazer o ‘Minha Casa Melhor’. O ‘Minha Casa Melhor’ é preciso naquilo em que ele se dispõe a fazer: garantir acesso aos bens modernos para a população que no Brasil não tem acesso ao crédito e que pode ter acesso ao crédito”, afirmou Dilma, repetindo como é fundamental que uma parcela da população tenha acesso ao crédito.


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