Todos os ângulos do esporte

  Suzano Almeida, da Agência Brasília

Todos os ângulos do esporte  
  Foto: Brito
Em entrevista à AGÊNCIA BRASÍLIA, a medalhista olímpica de bronze Ricarda Lima fala sobre a missão dos centros olímpicos do DF, que vai além das vitórias em competições
Os centros olímpicos foram criados com base na concepção de inclusão social e desportiva para atender pessoas a partir dos 4 anos de idade. Hoje, as nove unidades do Distrito Federal atendem aproximadamente 19 mil alunos, que têm à disposição mais de 20 modalidades esportivas olímpicas e não olímpicas. Eles são atendidos por professores e têm suporte de profissionais como psicólogos, preparadores físicos e médicos. A ideia não é apenas buscar novos talentos para o esporte, mas oferecer a assistência necessária para formar cidadãos.

Medalhista de bronze com a Seleção Brasileira de Vôlei, nas Olimpíadas de Sidney, em 2000, Ricarda Lima é uma das coordenadoras dos centros olímpicos. Ela recebeu a equipe da AGÊNCIA BRASÍLIA no Centro Olímpico de Samambaia e falou sobre o trabalho junto às comunidades e dos objetivos traçados para os alunos.

Como definir os centros olímpicos tecnicamente e do ponto de vista social?
Sou suspeita para falar sobre esse assunto, já que sou apaixonada pelo programa. Ele segue diretrizes da Organização Mundial do Esporte e do Ministério dos Esportes: esporte educacional, de participação e de rendimento. Mas, no início do programa, nosso foco principal foram os esportes educacionais e de participação, que têm 98% dos alunos. São crianças, jovens, adultos, idosos e pessoas com deficiência a quem passamos os valores olímpicos – amizade, excelência e solidariedade – e outros, como aprender a ganhar e a perder. É uma relação muito clara de esforço e recompensa.

Os centros olímpicos são formadores de talentos para grandes competições?
Quando a gente fala de talento, num universo tão grande de crianças e jovens, o rendimento é extremamente excludente. Foi o que aconteceu comigo, que saí de um universo de meninas de Taguatinga que jogavam, depois de um grupo de Brasília até chegar a uma Olimpíada, e não é fácil. Você tem o esporte como direção, mas adolescentes e a comunidade também recebem orientações sobre saúde, prevenção e outras questões. Ser atleta é consequência. Temos uma turma de aperfeiçoamento, para a qual direcionamos os que se destacam. A partir daí as portas vão se abrindo.

Qual é, então, o principal objetivo da administração dos centros olímpicos?
Queremos formar pessoas conscientes da importância das suas opções e escolhas, ao mesmo tempo em que criamos condições para que essa formação permeie também o dia a dia deles, sempre trabalhando o fair-play (jogo limpo), mesmo quando há diferenças sociais. Todos se igualam dentro do campo.

Que outros programas são abordados nos centros?
Trabalhamos o programa Virando o Jogo Contra as Drogas, combatemos o bullying e falamos sobre higiene. Temos uma equipe multidisciplinar de psicólogos, assistentes sociais e pedagogos, com o objetivo de municiar os professores com outras formas de trabalhar os alunos e suas famílias.

O Brasil receberá as Olimpíadas em 2016. Existe garimpagem de atletas para a competição?
Precisamos ter cautela. Para que se formem atletas para as olimpíadas, são necessários pelo menos dois ciclos olímpicos – cada um tem quatro anos. Seria possível formar atletas para 2020. No meu caso, foram quase 20 anos para que eu chegasse a uma Olimpíada. Por isso, é precoce esperar que haja algum atleta pronto para os jogos no Brasil. Ainda precisamos de mais investimentos.

Como é feito o direcionamento de cada caso?
Os professores e técnicos trocam experiências e, quando percebem um talento, procuram envolver técnicos de outras instituições. Um menino alto, por exemplo, é direcionado para o vôlei ou para o basquete. No esporte de rendimento tem que haver – e acho que vamos chegar a isso – incentivo desde as categorias de base, com treinador, preparador físico, terapeuta, para que esse talento possa crescer e se tornar profissional.

Qual a principal dificuldade para os alunos dos centros olímpicos?
Acredito que seja o transporte. Algumas cidades como Samambaia são enormes, e nem todos conseguem chegar. Ainda precisamos equacionar esse problema: fazendo parceria com empresas, criando o passe-atleta, aplicando recursos. A partir daí, podemos pensar em atletas olímpicos.

O que você sente ao ver uma criança aprendendo um esporte?
Eu fico pensando: ‘o que podemos fazer melhor?’ Quero que eles realizem seus sonhos, que é o mais importante, e que a gente faça desse ambiente o caminho correto, que, normalmente, é muito duro, mas que eles consigam superar. Ser um vencedor é diferente de conquistar um campeonato. Não significa que ganhará de novo. O vencedor tem valores e atitudes e se mantém vencedor.

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