Sobram pacientes, faltam cirurgiões-dentistas!


Jackelyne Pontes

 


 Diante do quadro caótico que se encontra a saúde pública nacional, com filas intermináveis, falta de medicamentos, estruturas físicas dos estabelecimentos de saúde cheias de infiltrações, mofo, rachaduras, telhado caindo, mobiliário condenado, falta de segurança, profissionais com salários defasados e vínculos precários, ausência de uma educação continuada, a saúde do trabalhador cada vez mais comprometida, tudo incomoda, indigna e principalmente me faz sofrer, mas o que mais me abala de verdade é essa disparidade entre a oferta de tratamento e a fila de usuários a espera de atendimento.

Temos profissionais comprometidíssimos no quadro de funcionários da Prefeitura Municipal de Cuiabá, mas apesar de todo esforço no final da jornada de trabalho saímos angustiados e com o sentimento de querer fazer mais mesmo sem poder. Eu, particularmente, nas tardes de movimento intenso na minha unidade, gostaria de me multiplicar: ser duas, três, quatro profissionais. A cada exame clínico que faço para o início do tratamento dos meus pequenos pacientes tenho a impressão de que nunca conseguiremos chegar nem perto do controle da doença cárie. Fazemos nas unidades municipais um movimento de prevenção, em que os bebês recém-nascidos são atendidos por profissionais especializados, mas mesmo assim a situação das bocas de nossas crianças é de cortar o coração.

Cuiabá já foi referência nacional em saúde bucal, e hoje amargamos um lugar pouco animador nesse ranking. O que mudou? Será que a abordagem do problema está errada? Será que os nossos profissionais e gestores estão adotando estratégias equivocadas? Será que o usuário tem reivindicado o seu direito à saúde de acordo com o que reza a Constituição Federal? Será que os nossos representantes na política têm encarado o problema da saúde pública com o respeito e a importância que ele merece? Será que o governo nacional tem levado em consideração a promoção, prevenção e proteção como meta? São muitos questionamentos que pairam sobre as nossas cabeças, mas o que eu sei e vivencio no meu dia-a-dia é que esse quadro de doença e caos precisa mudar.

Precisamos que os profissionais concursados sejam chamados a tomar posse de suas vagas, mas antes disso precisamos criar vagas, pois as que o município oferece são insuficientes. Precisamos substituir os contratos temporários, com vínculos precários e indicações políticas por contratos estatutários. Precisamos de mais clínicas odontológicas, de profissionais cirurgiões-dentistas inseridos na Estratégia de Saúde da Família (ESF, antigos PSFs), precisamos de medidas urgentes.

No último levantamento, o Sinodonto (Sindicato dos Odontologistas do Estado de Mato Grosso) constatou que o município de Cuiabá necessita de mais 76 cirurgiões-dentistas. Enquanto isso temos filas intermináveis, agendas dos profissionais sempre lotadas, crianças, adolescentes, adultos e idosos padecendo. A procura pelo atendimento odontológico é grande, os plantões oferecidos nas clínicas odontológicas do CPA I, Coxipó e Verdão são insuficientes, o quadro de cirurgiões-dentistas é menor que o número de “cadeiras” disponíveis na rede municipal. Fica aqui o meu desabafo. Queria mesmo me multiplicar!

   Jackelyne Pontes é cirurgiã-dentista, filiada ao Sinodonto-MT (Sindicato dos Odontologistas do Estado de Mato Grosso) e escreve exclusivamente para este blog todo domingo – jackelynepontes@gmail.com

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