Segurança Pública no DF Operação Tartaruga. Até quando?


Por Isa Stacciarini

Além do deficit, há a Operação Tartaruga. Mas os bandidos não dão trégua. …

Muito além do deficit no contingente de policiais militares – alertado por especialistas, mas minimizado pelas autoridades –, o Distrito Federal vive o momento de Operação Tartaruga. Ou seja, os PMs que se juntam ao movimento atuam com certa lentidão, o que pode comprometer a segurança dos brasilienses. Exemplos dessa combinação perigosa são dois crimes ocorridos na Asa Sul em um intervalo de oito horas: um sequestro relâmpago e um assalto a uma lanchonete. Neste último, a vítima reagiu e, por pouco, não ocorreu uma tragédia.

Do total de 15 mil PMs, aproximadamente 12 mil exercem a atividade de policiamento e patrulhamento ostensivo. No entanto, esses servidores trabalham em escala de 12/36 horas. Portanto, segundo a corporação, há nas ruas cerca de 3,5 mil policiais diariamente. Considerando que existem 2,7 milhões de habitantes no DF, nada menos que 800 cidadãos, em média, são protegidos por apenas um militar. Especialistas garantem que a PMDF atua com um deficit aproximado de 4,3 mil homens, o que representa uma carência de cerca de 20% no efetivo. Situação nada confortável para quem vive com medo de ser refém da criminalidade.

Dados preliminares da Secretaria de Segurança mostram que até ontem houve quatro roubos com restrição de liberdade – ou sequestro relâmpago – na Asa Sul e três roubos a comércio. Pelo menos duas pessoas foram vítimas de tentativa de homicídio na área; e cinco pessoas foram vítimas de latrocínio (roubo seguido de morte) em toda a região de Brasília.

Mulher usada de escudo

Na 408/409 Sul, um casal chegava para jantar por volta das 21h30 de domingo quando foi vítima de três menores de idade. Um taxista que passava pelo local percebeu a atitude, ligou para a Polícia Militar e repassou os dados do veículo do casal. Equipes do 1º Batalhão da PM seguiram o veículo que estava sendo conduzido por um menor.

Ao localizar o carro onde estava o casal rendido, a polícia tentou fazê-lo parar, mas o motorista não obedeceu. O condutor perdeu o controle do veículo ao passar pela tesourinha da 203 Sul e bateu de frente em um poste. Um dos suspeitos trocou tiros com a polícia e fugiu. Outro desceu do carro usando a mulher de escudo. Os dois jovens apreendidos têm 12 e 15 anos, e o terceiro, que conseguiu escapar, ainda é procurado. 


“Eles foram encaminhados ao Núcleo de Atendimento Integrado (NAI), onde vão ficar à disposição da Justiça. O casal estava muito abalado, pois ninguém espera ser vítima de um roubo com restrição de liberdade”, explica delegada de Proteção a Criança e ao Adolescente, Mônica Ferreira.

Atitude não é indicada

A polícia não recomenda a atitude do jovem que tentou evitar o assalto na 307 Sul (foto). A dona da lanchonete, por sua vez, reclama da falta de segurança. “Por causa da insegurança já é padrão não deixar um valor alto no caixa. A gente trabalha no susto, largado na criminalidade. Os criminosos fazem o que eles querem porque a polícia não age efetivamente”, considera. A empresária afirma que ligou para o 190 horas depois do assalto, mas não foi atendida. “O telefone só chamava até encerrar a ligação. Foi quando eu desisti e o meu sócio, que é meu irmão, se deslocou até a loja”, conta.

Jovem tenta impedir assalto a lanchonete

Na 307 Sul, um casal entrou na lanchonete localizada em um posto de gasolina e, armado, anunciou o assalto a 20 clientes e funcionários do estabelecimento. Um jovem de 24 anos que estava do lado de fora da loja percebeu a movimentação, entrou no local e tentou impedir a ação. Ele reagiu e chegou a derrubar o suspeito do roubo. Um colega do jovem também tentou ajudar a impedir o assalto, e o assaltante deu três disparos.

Dois tiros atingiram o abdômen do homem de 24 anos, que foi levado pelo amigo ao Hospital de Base. Depois ele foi transferido a uma unidade particular de saúde, passou por atendimento e foi liberado depois de procedimentos médicos.

Pertences levados

O casal ainda conseguiu levar cerca de R$ 300 do caixa da loja, uma bolsa de cliente com cartões e documentos, além de R$ 85 de outro estabelecimento que funciona no mesmo local. A mesma dupla já tinha assaltado outro estabelecimento na Asa Sul em 8 de janeiro, levando dinheiro e documentos de vítimas. A 1ª DP (Asa Sul) investiga o caso, mas ninguém foi preso até o fechamento desta edição.

A dona da loja assaltada na madrugada de domingo conta que este foi o segundo roubo em menos de um mês. Em 28 de dezembro, o estabelecimento, que funciona 24 horas, foi invadido por quatro homens armados, que levaram pertences de clientes e tiraram do caixa todo o valor que havia: R$ 200.

E na última sexta, outra loja de conveniência no final da Asa Sul foi assaltada. Os ladrões obrigaram as vítimas a deitar no chão e as agrediram com chutes.

Trabalho pode ficar mais lento

Em tempos de criminalidade expressiva, pesquisadores avaliam como sendo coerente o Governo do Distrito Federal (GDF) cumprir as 13 promessas firmadas com a Polícia Militar. Isso porque a situação pode piorar a partir de fevereiro. No próximo dia 6, a Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares do DF (Aspra) vai fazer uma reunião entre os militares com o objetivo de intensificar a operação tartaruga.

O presidente interino da entidade, sargento Manoel Sansão Alves Barbosa, garante que a polícia vai ser rigorosa na paralisação das atividades de rua. “A PM vai parar porque não foram cumpridas as promessas assinadas pelo governador. É necessária a operação para forçar o aumento de salário haja vista que temos o pior retorno financeiro de todas as áreas de segurança pública”, afirma.

Um policial militar ganha remuneração bruta de R$ 4,5 mil. Sansão afirma que o governo aumentou o salário dos agentes de trânsito do Detran, mas não deu atenção às reivindicações da polícia. “Estamos radicalizando cada vez mais a paralisação, que vai durar tempo indeterminado. Não podemos aceitar um descaso do governo. É inadmissível”, considera.

Comando responde

O comandante do Centro de Policiamento Regional Metropolitano, coronel César Ferreira, afirma que a operação tartaruga não influencia no policiamento de rua. O policial destaca que está completando o quadro de militares com aproximadamente 1,5 mil homens que iniciarão no curso de formação em fevereiro. No entanto, ele garante que os crimes contra o patrimônio público, como roubos e furtos, apresentaram redução se comparado a 2012. Dados da Secretaria de Segurança, porém, apontam alta de 12,4% neste tipo de delito. “É um paradoxo falar em operação tartaruga se existe um maior atendimento de ocorrências da polícia. A operação não tem influenciado no patrulhamento de rua”, afirma.

Operação

Ferreira afirma que nesta semana será lançada uma operação com 50% a mais no número de viaturas nas ruas da Asa Sul, Guará, Lago Sul, Cruzeiro e Sudoeste. Segundo o coronel, o que tem influenciado nos crimes da Asa Sul são os usuários de droga, especialmente os que consomem crack, o aumento no número de moradores de rua e o envolvimento de menores de idade. “Os meliantes cometem o crime para alimentar o vício”, ressalta.

Ponto de Vista

O especialista em segurança pública George Felipe Dantas explica que existe um déficit na PMDF de 4,3 mil homens. Segundo o professor, a estratégia seria o Poder Executivo solucionar a situação das 13 promessas feitas aos policiais. “Em tempos de tartaruga precisa se tratar bem a PM para não acontecer uma crise maior. Deve haver prudência do estado. Não ter uma polícia forte e motivada é um cuidado que necessita ser tomado pelo Executivo”, ressalta.

Também especialista em segurança, o professor Antônio Testa destaca que o Plano Piloto acaba sendo alvo para a propagação de crimes, uma vez que se aumentou o número de comércios que atraem jovens e consequentemente meliantes. No entanto, segundo ele, atrelado ao crescimento do comércio também existe a falta de policiamento. “O que existe é um policiamento disfarçado que não rondam as quadras residenciais e os locais abandonados”, aponta.

Vítima faz papel de polícia

A falta de policiais já reflete negativamente nas ruas. Na última quinta-feira, pouco antes das 12h, um cidadão rendeu um suspeito de furto no centro de Ceilândia. O suspeito estava acompanhado de um comparsa e tentava levar um carro estacionado na CNM 2. O veículo, no entanto, era de um homem que trabalha na loja em frente ao local. Ele percebeu a ação, reagiu e prendeu um suspeito. O outro fugiu.

Romildo Nascimento, 34 anos, fez a foto de quando o homem estava sendo rendido pelo comerciante. O estilista trabalha na região e afirma que é comum a falta de policiamento. No dia do furto ele tentou ligar para o 190, mas não foi atendido. Por sorte passava um militar no local. Sozinho, o policial algemou o rapaz e o conduziu à 15ª DP (Ceilândia Centro). “O policiamento está escasso e a população já está descrente de que isso possa melhorar. Toda vez que a PM diz que o índice de crimes está reduzindo é porque a comunidade já não registra mais ocorrência, pois não acredita em uma intervenção”, avalia.

Medo

No centro de Brasília a situação não é diferente. Conceição Martins, 53 anos, mora no Plano Piloto há 15 anos e não bobeia na hora de entrar e sair do carro. A professora destaca que toma cuidado, observa onde está estacionando o veículo e prefere as vagas de estacionamento privado. “Não me sinto totalmente insegura, mas dá para perceber que não existe policiamento na rua. Quando a gente vê um militar por aqui é coisa raríssima. Só a polícia pode diminuir a violência de Brasília”, considera.

Segurança privada

O comércio também não escapa. Empresária há 11 anos, Eliane da Glória Silva tem três lojas, duas na Asa Sul e uma em Águas Claras. Ela já perdeu as contas de quantas vezes foi assaltada. O último roubo em uma das lojas do Plano Piloto foi no sábado. Os suspeitos só não deram mais prejuízo porque o alarme do estabelecimento disparou. “Por causa da violência os comerciantes precisam investir em segurança particular. Mesmo assim os assaltantes não respeitam mais nada”, conta.


Fonte: Jornal de Brasília – 21/01/2014

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