Redes sociais: pioneiras se vão, mas fica um grande legado


Redes sociais: pioneiras se vão, mas fica um grande legado

Como herança, Orkut e outras introduziram muita gente ao mundo virtual
Eric Zambon

Depoimentos, página de recados, porcentagem de quão sexy o perfil é… O Orkut será desativado em setembro e levará consigo uma série de particularidades que o tornaram marcante. Este é o fim de uma rede social que entrou para a história, mas não a primeira, tampouco a última. Messenger, mIRC e Fotolog são parte da nostalgia inerente aos anos 2000, que, em breve, terá mais um integrante em seu cemitério virtual. Os brasilienses sempre marcaram presença nas diferentes plataformas e guardam boas lembranças do bom e velho Orkut.

Embora a migração para o atual Facebook tenha sido inevitável para muitos internautas, a antiga rede social já deixa saudades. A vendedora Líria Brito, moradora do Recanto das Emas de 23 anos, recorda-se de outras redes, mas admite que se concentrou mais no “Flogão” e no próprio Orkut, antes de migrar para o “Face”.

“Todos esses sites e os serviços de mensagens são bons para interagir. Fiz muitos amigos pela internet e me comuniquei muito com uns mais ‘viciadinhos”, relembra. Depois de se registrar no Orkut, há cinco anos, ela admite que entrava pelo menos quatro vezes por dia no site para checar seu perfil e se havia recados em sua página.

Depoimentos

“O legal do Orkut é que parecia que todo mundo gostava de você. Você acordava e via um depoimento, tinha umas mensagens bacanas. No Facebook, parece que ninguém te ama”, opina o estudante Matheus de Lima Dantas, 18 anos, morador da Candangolândia.

Ele aderiu à rede em 2006, devido aos amigos da lan house, e ainda tem perfil, mas confessa não acessá-lo há meses. “Gostava das comunidades sobre carros”, diz.

Apesar das boas lembranças, Matheus acredita não ser desastroso o fato de o Orkut acabar. “Não vai fazer falta, pois todo mundo agora só se fala por Facebook ou outros sites. Na verdade, vai ser até bom, pois vai descongestionar a rede”.

A aparente frieza de Matheus não é regra entre aqueles que ficarão “órfãos”. Após o anúncio oficial do Google (empresa que administra o Orkut), uma petição on-line foi publicada por meio do site avaaz.org. Um texto critica a tentativa de migrar os usuários para a Google + (outra rede social) e exalta as ferramentas de interação da rede.

“Solicitamos à empresa que ao menos preserve a principal característica que mantém essa rede social viva até hoje: o modelo de organização de fóruns em comunidades”, menciona o apelo.
Orkut “morre”, ICQ “ressuscita”

O ICQ, outra ferramenta popular entre os anos 1990 e 2000, caiu no esquecimento. Mas, assim como o Orkut, está dando o que falar, após o anúncio de que ele será “ressuscitado”. O software de troca de mensagens instantâneas voltará à ativa como aplicativo para celular – um concorrente do Whatsapp. Será possível enviar fotos e vídeos dentro do bate-papo, além de arquivos com extensão doc ou pdf. Sem contar o tempo gasto no celular, o brasileiro passa, em média, 3h41 por dia em frente ao computador, segundo dados da Presidência da República. São dez minutos a mais do que diante da TV.

“Cibercultura” se estabelece

Para o doutor em Informática e Educação e professor da Universidade de Brasília (UnB) Lúcio Teles, as redes sociais fizeram sucesso porque atingiram um público já preparado para transformações. “As redes como o ICQ, os BBS (Bulletin Board Systems) e os vários sistemas de chat foram “pioneiros”, abrindo o caminho para as que viriam depois como o Classmate, Orkut e muitos outros”, analisa.

“Quando o Orkut e posteriormente o Facebook surgiram, já havia uma massa de usuários procurando novas oportunidades para se comunicar, e assim o crescimento destas duas redes foi bastante rápida”, conclui. Ele credita também a popularidade desses meios à necessidade de comunicação das pessoas, de uma maneira geral. “Os relacionamentos on-line são expressão do que chamamos cibercultura. Ela aumenta nossa vida social-afetiva e facilita também nosso processo cognitivo com o compartilhamento de informações e conhecimento”, define.

Novos amores

O mercado tecnológico atual é acometido da chamada “obsolescência programada”, uma proposta criada ainda nos anos 1920 para obrigar os consumidores a trocar de carro com frequência. Basicamente, os aparelhos de telefone “precisam” ser frequentemente renovados e, com as redes sociais, acontece o mesmo. Muitas vêm e vão independentemente da vontade do usuário.

O especialista Lúcio Teles acredita que o sentimento de “saudade” das redes sociais ocorre devido à vivência com um determinado serviço do que a necessidade. “As comunidades virtuais são anteriores ao Orkut, por exemplo. Elas continuam existindo hoje numa variedade imensa de redes sociais e grupos que se comunicam on-line. Os usuários vão sentir sim uma “saudade do Orkut”, pois eles o utilizaram por bastante tempo”, resume.

A respeito dessa “saudade”, o diretor de Engenharia do Google, Paulo Golgher, pediu desculpas aos frequentadores da rede, mas celebrou os “dez anos inesquecíveis”. “Esperamos que vocês encontrem outras comunidades on-line para alimentar novas conversas e construir ainda mais conexões, na próxima década e muito além”, disse.

Milhões conectados

A popularidade do Orkut foi tanta, que o site só foi perder o posto de rede social com maior número de registrados em janeiro de 2012, oito anos após sua criação. De acordo com a ComScore, empresa que calcula audiência de websites, o Facebook alcançou a marca de 36,1 milhões de usuários, contra 34,4 milhões do concorrente.

A adolescente Rebeca Ellen Maciel, estudante de 16 anos, moradora do Riacho Fundo II, teve experiência curta, porém considerada ótima, na rede social. “Eu usava o Orkut para tudo. Participava de umas comunidades muito legais. O que eu mais achava bacana era poder receber depoimentos”, diz a moça.

Outro aspecto que Rebeca elogia é a interação promovida pelas comunidades. Entre nomes engraçados e sugestivos, elas são o principal ponto de saudade. “Na época que todo mundo participava era legal, depois foi morrendo e decidi sair, quando tinha uns 14 anos. Nem me incomodei em entrar para outro site. Hoje em dia até me chamam de antissocial por não ter perfil em lugar nenhum”, revela.
Após “superar” a perda do Orkut, ela conta que preferiu ligar mais para as pessoas e visitá-las em suas casas. “Sou arcaica”, brinca.

Pela jovialidade, o máximo que Rebeca Ellen admitiu conhecer antes do Facebook foi o Fotolog, rede para compartilhamento de fotos. Mas se na internet nem o céu é o limite, muitas outras redes surgirão.

Saiba mais

Em 2013, o estudioso Jack London, criador do BookNet.com (uma espécie de Buscapé ou Submarino) previu a “queda” do Facebook em “20 ou 30 anos”, em entrevista à Revista B+.
Ele previu que não apenas a rede social de Mark Zuckerberg como todas as mídias da chamada “era digital” entrarão em decadência neste mesmo período de tempo.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília

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