Qual é o verdadeiro preço da felicidade?


Eric Zambon

Uma frase atribuída a Dalai Lama Tenzin Gyatso diz que “felicidade é paz de espírito”. Dois estudos recentes de institutos norte-americanos, no entanto, monetizaram esse sentimento. O Marist Institute for Public Opinion constatou que trabalhadores com ganhos mensais na faixa dos R$ 8 mil se dizem mais felizes do que os outros, enquanto cientistas da Universidade de Princeton, que haviam feito a mesma pesquisa dois anos antes, chegaram a R$ 12 mil mensais.

Apesar de levantamentos não terem sido feitos no Distrito Federal, o economista Ronald Lins acredita que o “salário da felicidade” esteja de acordo com esses valores também na capital federal. “Na verdade, com R$ 6 mil acredito que já dê para viver com conforto por aqui. Mas a partir de R$ 8 mil pode ser o ideal realmente”, pondera.

Seguindo esse raciocínio, a renda domiciliar média da capital é “infeliz”. De acordo com a Companhia de Planejamento do Plano Piloto (Codeplan), esse valor não ultrapassa R$ 6 mil para todo o DF. Em regiões muito populosas, como Taguatinga e Ceilândia, a renda média por residência é de R$ 5,5 mil e R$ 3 mil respectivamente, bem abaixo dos R$ 8 mil idealizados. Apesar disso, pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgada este mês, o Centro-Oeste, onde o DF está inserido, foi a região mais positiva do Brasil em relação ao futuro, alcançando um índice de felicidade de 8,76 em 10 possíveis.

Aluguel e alimentação

O Conselho Regional de Economia (Corecon-DF) estima que para uma pessoa viver livre de dívidas e com acesso a lazer, ela precise ter uma renda de pelo menos R$ 4 mil. “Esse cálculo prevê que a pessoa more de aluguel e os maiores gastos seriam justamente com moradia e alimentação, que consumiriam quase metade da renda. Cerca de 15% iria para o lazer”, explica o membro do conselho, Angeilton Lima Faleio.

O que faz você feliz?

No livro “The How of Happiness”, de 2007 (O como da felicidade, em tradução literal), a pesquisadora de psicologia positiva Sonja Lyubomirsky descreve a felicidade como uma “experiência de satisfação, contentamento ou bem-estar, combinados a um senso de que sua vida é boa, significativa e vale a pena ser vivida”. Segundo o filósofo Agnaldo Cuócco, professor da Universidade de Brasília (UnB), do ponto de vista individual, “até que é um conceito interessante. Mas está muito centrado no eu. A felicidade, acredito, tem mais a ver com fazer coisas com e para os outros também”, defende.

É também assim que pensa o pai de família e economista Pedro Roberto Chaves, 58 anos. Ele mora com a esposa Geovana Carla e a filha Giullia Chaves, 22 anos, e admite que a renda familiar está um pouco acima da “faixa da felicidade”, mas esse não é o principal motivo de regozijo. “Sem demagogia, sinto imensa satisfação em ter condições de gastar e poupar ao mesmo tempo”, afirma Pedro Roberto. A esposa diz que é bom ter condições financeiras para fazer viagens e poder se dedicar ao lazer, mas que o contento proporcionado pelos bens geralmente vêm de atitudes altruístas.

O começo nem sempre é fácil

Em situação inversa a do economista Pedro Roberto está o casal Pedro Bedê Scheufler, publicitário de 26 anos, e Amanda Rodrigues Marinho, maquiadora de 23. Eles se casaram há seis meses, compraram imóvel próprio em Santa Maria e alugaram uma loja de dois andares na comercial da 102/103 Sul há quatro meses, onde mantêm, no mesmo espaço, o camarim de maquiagens e pinturas dela e a produtora de vídeos dele. “Agora que as coisas estão entrando no ritmo”, revela Pedro, que sonha trabalhar apenas com video-clipes para grupos musicais. “Ainda não conseguimos ter nossa lua-de-mel pois pegamos o dinheiro que seria para isso para investir no nosso apartamento”, conta.

Segundo a Corecon-DF, a renda mínima para um casal sem filhos ter estabilidade no DF seria de aproximadamente R$ 8 mil. Pedro e Amanda contam, no entanto, que já chegaram a tirar menos que a metade disso. “No primeiro mês da loja ainda estávamos começando e mal ganhamos R$ 4 mil. Depois melhoramos isso”, diz Pedro.

“Hoje em dia aceitamos todos os trabalhos e trabalhamos de domingo a domingo justamente para juntar uma grana”, afirma Amanda, que faz maquiagens especiais e sonha em lidar apenas com moda.

Sonhos

Mesmo no início da jornada, o jovem casal não esmorece. “Existe o medo de algo dar errado, como praticamente para todo mundo, mas há muito apoio de nossas famílias e acreditamos no que estamos fazendo”, afirma o publicitário. “E eu prefiro fazer o que gosto do que um serviço ‘chapa branca’, onde você trabalha suas seis horinhas e tchau. Assim me sinto mais realizado”, conclui.

O casal se diz contente, mas ainda não tem a estabilidade desejada. “A gente sempre quer mais, né. Ainda queremos viajar o mundo. Acho que o ideal será quando tivermos dinheiro o suficiente para fazermos nosso trabalho e ainda sobrar bastante para nos divertirmos”, diz Amanda.


Menos tempo para lazer

O Marist Institute e a Universidade Princeton avaliaram que quem ganha muito acima do que seria o “valor da felicidade” também não se diz tão feliz pois, geralmente, maiores salários acarretam em mais compromissos e menos tempo. “É aquela história, você pode ganhar milhões e milhões e ainda assim ser bem infeliz”, aponta o economista Newton Marques.

Ele diz que existe um gráfico, geralmente ascendente, que relaciona a quantidade de trabalho com a renda ganha. “Se você traçar um ponto ligando salário a quantidade de horas, a curva de oferta é crescente. Se você aumenta o ganho, também eleva a carga de trabalho. Mas num certo ponto há uma curva, pois você prefere trabalhar menos, mesmo que signifique ganhar menos, para ter mais tempo para lazer e essas coisas”, explica.

Fonte: Da redação do clicabrasilia.com.br

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