Pequenas corrupções: motoristas trafegam na contramão do respeito


Pequenas corrupções: motoristas trafegam na contramão do respeito

Parar na faixa de pedestre é atitude que tem perdido a força em Brasília, cidade que já foi exemplo

Para ilustrar a capa de um álbum, os Beatles caminharam sobre a faixa de pedestres, em Londres, em 1969. Já no DF, antes de 1996 – ano da criação da faixa por aqui –, se os Raimundos ou Capital Inicial tentassem fazer o mesmo, talvez não escapariam ilesos. Dezessete anos depois, o cenário está cada vez mais longe do ideal. Pedestres e os próprios motoristas admitem: o respeito, aos poucos, está perdendo a vez. Não parar na faixa nada mais é do que uma pequena corrupção. Ontem, o JBr. mostrou outras atitudes corruptivas cometidas no dia a dia do brasiliense.

Segundo o Departamento de Trânsito (Detran-DF), a capital possui cerca de cinco mil faixas. Apesar da efetividade inicial da campanha de conscientização, os pedestres ainda encontram dificuldades. “Moro em Brasília há 30 anos e me lembro da campanha no fim dos anos 1990”, recorda-se o aposentado Guilherme Braz Tomé, 59 anos. Ele reside em Águas Claras e faz várias travessias ao dia para resolver diferentes assuntos.

Antes de ser abordado pela reportagem, ele foi ignorado por dois carros, apesar de estar com o braço esticado. Para o aposentado, as pessoas ao volante devem ser sempre lembradas para não avançar a faixa e os pedestres devem ser orientados a dar sinal. “Tinha que ter campanhas como aquelas sempre”, acredita.

O professor de engenharia de tráfego da Universidade de Brasília (UnB), Paulo César Marques, também crê em novas campanhas como medida para assegurar a efetividade das faixas. “Houve mudança de valores comportamentais. Só que isso se perde. O que aconteceu nos anos 1990 transformou mais quem estava dirigindo naquela época”, argumenta.

“Sinal da vida”

Um dos pontos ainda polêmicos citados pelo especialista é o chamado “sinal da vida”. Segundo a campanha, o pedestre deve esticar o braço para indicar sua intenção de atravessar a faixa ao motorista. “É uma medida importantíssima para assegurar que as pessoas tenham certeza de que estão sendo vistas”, garante. “Mas muitas vezes isso é interpretado como: se o pedestre não deu o sinal, o motorista não deve parar. Isso é errado”, contrapõe.

Quem está a pé deve fazer a sua parte

Outro ponto a ser trabalhado é conscientizar os próprios transeuntes a procurar as faixas de pedestre e não atravessar no meio da rua, diz o especialista Paulo César Marques. Ao visitar algumas localidades da capital, a reportagem do Jornal de Brasília flagrou diversos pedestres passando no meio da rua, algumas vezes a poucos metros da sinalização, apenas para “poupar tempo” ou por “preguiça”, argumentaram. “Também não é recomendável que as pessoas atravessem falando ao celular”, acrescenta Paulo César.

O aposentado José Márcio Gonçalves, de 64 anos, morador de longa data do Núcleo Bandeirante, atesta que houve progresso em relação à conduta do motorista, com ressalvas. “Os motoristas me parecem realmente melhores. Mas é importante pintar as faixas. Às vezes, o condutor não para e o pedestre se joga na frente sem ver. Tem que orientar melhor essas pessoas”, diz. Em frente a uma faixa na avenida Central, ele aguardou por aproximadamente dois minutos até que os carros notassem sua presença e permitissem sua passagem com segurança.

Para José Márcio, o mais importante é que todos tenham respeito por quem atravessa a faixa de pedestre, pois “tratam-se de vidas em jogo”.

Infrações

– Estacionar sobre faixa de pedestres é infração grave, com multa de R$ 127,69.
– Dirigir ameaçando pedestres em via pública é infração gravíssima, com multa de R$ 191,54.
– Não dar preferência a pedestres na faixa é infração gravíssima, com multa de R$ 191,54.

Gentileza, na verdade, é regra

A professora Ariana Fontes, 36 anos, mãe de Pedro Henrique, de oito anos, se previne para conservar a integridade de sua família. “Muitas vezes tenho medo, pois os carros não param de jeito nenhum. Fico esperando bastante, com a mão levantada”, admite, e completa: “Entendo que muitas vezes as pessoas têm pressa, então não julgo quem faz isso. Mas não vejo tantos motoristas educados quanto gostaria”.

Para tentar motivar os condutores, ela e o filho decidiram um caminho diferente de vários pedestres desrespeitados: a gentileza. “Como ando muito com criança, a tendência é que me respeitem mais. Mas mesmo assim, toda vez que atravesso, agradeço”, conta a professora. “Isso pode fazer o motorista se sentir motivado a ser legal mais vezes. Acho importante passar esse tipo de ensinamento para o meu filho também”, acrescenta.

Decepção

O analista de trânsito Luís Miúra afirma que esse tipo de atitude de cidadania era justamente um dos propósitos da campanha dos anos 1990, que se perdeu. “O slogan não deveria ser ‘respeite a faixa’, deveria ser ‘respeite o pedestre’”, defende. O especialista foi diretor do Detran-DF na época da implementação e admite certa decepção com a realidade atual.

“O benefício inicialmente pensado era o motorista passar a respeitar o ser humano, e isso poderia passar para situações em que não há faixa”, explica. “Se uma idosa tentasse atravessar uma esquina, o motorista pararia e protegeria a pedestre até concluir a travessia. Esse era o propósito. Deveria ter havido uma evolução”, queixa-se.

Miúra credita a falta de atenção à continuidade das campanhas educativas como o principal fator para os objetivos não terem sido alcançados. “Brasília podia estar muito melhor na relação motorista-pedestre se as campanhas tivessem evoluído inteligentemente. Falta fiscalização das faixas e também aplicação de multas”, acredita.

Mais mortes fora da faixa

De acordo com o informativo elaborado pelo Detran-DF, em 2013 quase um terço dos acidentes fatais resultaram em pedestres atropelados. Destes, apenas dois aconteceram em faixas de pedestres. Foram 382 mortes de pedestres no total. É o menor índice de mortalidade desde a criação da campanha, quando as faixas passaram a ser sinalizadas.

O informativo do órgão intitulado “Respeito à Faixa de Pedestre”, de 2010, aponta que quase dois terços dos brasilienses utilizam frequentemente o sinal de vida para atravessar a faixa, sendo as mulheres as que mais se valem desse recurso. Mais de 60% das pedestres do sexo feminino declaram sempre esticar a mão ao atravessar.

Desde 1997, a faixa foi palco da morte de 92 pessoas, sendo 83 pedestres, enquanto as outras morreram em circunstâncias diversas. Um exemplo foi a morte de um motociclista em 31 de janeiro deste ano. O condutor de 60 anos atingiu uma pessoa e, arremessado do veículo, morreu no local.
Saiba mais

Em 2013, a única morte por atropelamento em faixa de pedestre ocorreu em Taguatinga Norte, na Avenida Samdu. Fora da faixa de pedestres, Taguatinga foi a cidade que mais apresentou mortes dessa maneira, com 15 casos em 2013.

Versão oficial

Segundo o Detran-DF, para aumentar a conscientização acerca da faixa, foi lançado, em 8 de abril, foi o Projeto Faixa Cidadã, “com objeito de resgatar o orgulho de respeitar o pedestre na faixa”. “O projeto começou em Ceilândia, percorrerá todas as cidades do DF e será dividido em duas etapas: na primeira, equipes de educação atuarão em cada região administrativa durante uma semana e, na segunda, será a vez de as equipes de fiscalização autuarem os condutores infratores”, informou o órgão.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília

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