Para vítimas, Brasil é o melhor país do mundo


Isa Stacciarini

Nada de português e um pouco de inglês. É assim que grande parte dos estrangeiros naturais de Bangladesh tenta se comunicar desde que eles vieram para o Brasil, vítimas do tráfico de pessoas. Em uma pequena quitinete da QR 115 de Samambaia vivem 12 bengaleses atraídos por uma promessa de boa remuneração, além da ausência de conflitos políticos. Longe de casa, da família, dos amigos e do país de origem, todos compartilham do mesmo anseio: retomar uma vida digna, sem medo da perseguição policial, no país que eles mesmos retratam como “o melhor do mundo”, o Brasil. 

Ontem, o Jornal de Brasília mostrou que a Operação Liberdade, da Polícia Federal, busca os responsáveis pelo tráfico internacional de pessoas que fez pelo menos 80 vítimas do país asiático.

Desde que chegaram ao Brasil, os bengaleses iniciaram uma árdua tarefa para se legalizar. Sem documentos que garantem a estada, os homens tentam conquistar um emprego com salário maior do que ganhavam na terra natal.

Enquanto nada se define, a rotina se resume aos humildes pertences. São poucas roupas estendidas em quartos escuros, algumas Bíblias, um simples local para dormir e comida regrada em razão da falta de dinheiro.

Tudo se torna novidade e ameaça aos recém-chegados ao Brasil, que evitam falar sobre como entraram no País e sobre as pessoas que teriam oferecido a oportunidade. Em razão das precárias condições de vida em Bangladesh, os estrangeiros vieram parao Brasil supostamente atraídos por pelo menos quatro “coiotes”, que teriam prometido emprego.

No entanto, os bengaleses preferem não comentar sobre como teria surgido a ideia de vir para o Brasil. Eles apenas mencionam, sem detalhes, que tiveram de desembolsar cerca de R$ 2 mil dólares pela viagem ao Brasil, valor que não chega nem perto daquele que está sendo apurado pela PF. Conforme as investigações, os “coiotes” teriam cobrado de dez a 12 dólares.

O medo de contar toda a história tem relação com conflitos políticos no país asiático. Os 12 homens explicam que são filiados ao Partido Nacional de Bangladesh, de oposição ao governo, e por isso sofrem ameaças de morte. “Lá não tem eleição, tudo acontece de forma ditatorial. Quem não é do mesmo partido ou morre ou vai embora. Por isso a gente veio. É um país muito pobre”, diz Saleh Ahmed, 35 anos.

A rota para o desembarque no Brasil passou de Bangladesh para Dubai chegando à Bolívia. Por último foi necessário ir para a Argentina e chegar ao Brasil. A viagem durou cinco dias, segundo Saleh Ahmed. Ele diz que todos os outros chegaram há quatro dias e que só Karim Abdul, que tem declaração de refugiado de seis meses pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), está aqui há 30 dias.

“Já demos entrada ao protocolo de carteira de trabalho para estrangeiro e só depois que terminar o processo vamos procurar emprego. Todos lá tinham especialidade na construção civil e eu era cozinheiro de um restaurante italiano”, aponta Ahmed. Segundo ele, em Bangladesh um dólar equivale a 70 taka e um real corresponde a 35 taka.

Intermediários

O presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito do Tráfico de Pessoas, deputado Arnaldo Jordy (PPS-PA), diz que foi instaurado requerimento para ouvir possíveis intermediários pela viagem dos bengaleses, além de representantes da Polícia Federal (PF). “Vamos convocá-los. É inédito o fato do Brasil receber mão de obra de um país tão distante. Pode ter mais coisa envolvida”, aponta.

A reportagem do Jornal de Brasília procurou a sede da Polícia Federal e a Superintendência Regional da corporação para esclarecimentos sobre o andamento das investigações do tráfico de pessoas, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

ENTENDA O CASO

A Polícia Federal procura os responsáveis pelos crimes de imigração ilegal e tráfico de pessoas. Cerca de 80 homens vindos de Bangladesh teriam sido trazidos ilegalmente ao País, atraídos por promessas de emprego.

A investigação concluiu que há pelo menos quatro “coiotes”, naturais do país asiático, que intermediam a entrada dos trabalhadores no Brasil.

Para chegar ao Brasil, eles percoriam 16 mil quilômetros. Passavam por uma rota que saía de Daka através de Dubai e chegava ao País por três caminhos diferentes: via Peru, entrando no Acre pelas cidades de Epitaciolândia e Assis Brasil; pela Bolívia, ingressando no Brasil via Corumbá (MS) e, da Guiana, via Boa Vista (RR), o que revela uma nova rota usadas por coiotes que ainda não estava no radar das autoridades brasileiras. Nessas fronteiras, eram instruídos a pedir o status de refugiado.

Fonte: Da redação do clicabrasilia.com.br

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