Nossos presídios estão produzindo monstros? Vídeo gravado dentro de cela no Maranhão choca ao mostrar detentos decapitados


Nossos presídios estão produzindo monstros?
Vídeo gravado dentro de cela no Maranhão choca ao mostrar detentos decapitados

Por Amanda Aron / Fotos: Folhapress – AE – Cedidas – AFP

O que acontece quando o homem é privado de sua humanidade? O resultado é um vídeo com cerca de 2 minutos e meio produzido pelos detentos do Complexo de Pedrinhas, em São Luís, no Maranhão. As cenas são fortes o suficiente para chocar até os fãs dos mais violentos filmes de terror, incluindo cabeças decepadas exibidas como troféus. Não dá para ver o rosto dos presos que participaram da filmagem, apenas se ouve o riso e o sarcasmo deles enquanto chutam e pisam nos corpos degolados.

Não é novidade para ninguém a degradante situação em que se encontram os presídios no Brasil. Com a quarta maior população carcerária do mundo, as celas estão superlotadas. Faltam camas, falta água, falta comida e, por fim, falta o mínimo para um ser humano sobreviver como gente. Quem está lá perdeu a liberdade porque não soube lidar com ela e precisa pagar pelo que fez. Contudo, erramos em privá-los também da dignidade, afinal, um dia essas pessoas retomarão o convívio social e, com certeza, sairão piores do que entraram. Dizer que o sistema prisional brasileiro é falho é lugar comum. Vai além. Viramos mestres na arte de produzir monstros.

Falta dignidade

Não é por acaso que o vídeo foi feito em Pedrinhas. O Maranhão carrega hoje um título que Estado nenhum deveria se orgulhar: o da miséria. Existem cidades que sequer têm creches públicas. O Estado concentra hoje o maior número de pobres do País. Há municípios em que a maior parte da população depende do Bolsa Família para sobreviver. A seca castiga. No final de 2013, 70 cidades ficaram em situação de emergência porque choveu metade do previsto naquele ano. Em pleno século 21 e com a tecnologia avançada na área da agricultura, é um sofrimento injustificável, ainda mais para um país que brinda a ascensão econômica.

Entenda o caso

No ano de 2013, os conflitos dentro de prisões resultaram em 60 mortes no Maranhão. Mas foi em janeiro deste ano que o problema ganhou atenção internacional, após o vídeo feito pelos presos exibindo as cabeças de três detentos ter sido divulgado na internet. A repercussão foi imediata, aqui e lá fora.

A escalada da violência fez o Conselho Nacional de Justiça elaborar um relatório onde revela que as celas “estão superlotadas e já não há mais condições de manter a integridade física dos presos, seus familiares e de quem mais frequenta os presídios de Pedrinhas”. Há também relatos de estupros de esposas de presos durante o período de visita.

A Organização dos Estados Americanos recomendou medidas ao Brasil, entre elas garantir a segurança em Pedrinhas, reduzir a superlotação prisional e investigar imediatamente os assassinatos. Do outro lado, a ONU também pressiona. O Comissariado de Direitos Humanos exigiu apuração “imediata e imparcial” do que aconteceu entre os muros de Pedrinhas.

Foram enviados aos presídios de São Luís homens da Força Nacional e do Batalhão de Choque da PM, o que teria irritado os líderes de facções lá presos. De dentro da prisão, eles comandaram ataques a ônibus, à Polícia Militar e também ao corpo de Bombeiros nas ruas da capital como resposta. Foram incendiados cinco ônibus. Em dois, não esperaram nem os passageiros descerem. Resultado: duas crianças foram atingidas pelas chamas e uma morreu com 95% do corpo queimado: Ana Clara Santos Sousa, de apenas 6 anos. Até o fechamento desta edição, a mãe dela e a irmã de apenas 1 ano estavam internadas em estado grave.

Em meio à barbárie na segurança pública de seu Estado, a governadora Roseana Sarney foi duramente criticada. Em matéria publicada na Folha de S. Paulo, Roseana rebateu as críticas. Ela admite que o sistema carcerário em seu Estado é falho, mas afirma que problemas desse tipo não são exclusividade do Maranhão e, sim, uma fraqueza de todo o País.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, declarou que o governo Roseana Sarney tem plena autonomia para resolver os problemas de segurança no Maranhão. Para ele, os casos de decapitação de presos são encarados como “medievais”, por isso, enxerga a urgência em uma solução imediata, embora não perceba vontade por parte da população para que isso aconteça. “Quando se fala em construir presídios ou tratar de presos, há pessoas que recriminam dizendo que bandido tem que ser maltratado”, declarou em entrevista.

Das celas no Maranhão para uma nova vida

Nossa equipe de reportagem entrou em contato com dois ex-presidiários de São Luís. Diones Sales Pires, de 30 anos, trabalha como carpinteiro e conta que chegou a ficar preso em Pedrinhas enquanto aguardava remoção para outro presídio. “A pessoa fica lá jogada, ninguém liga, o Estado não dá atenção. É muito triste, prefiro nem lembrar”, conta o jovem, que foi preso em 2005 por assalto. “A comida é muito ruim, não é preparada para um ser humano. A carne vinha crua, o arroz é azedo, duro, sem gosto. Ficar ali 24 horas enlouquece qualquer um. É um verdadeiro inferno, não é um lugar para ser humano não”, relata.

Douglas Delfort Carvalho, de 30 anos, trabalha como vulcanizador em uma grande mineradora e passou 1 ano atrás das grades. “Logo que entrei fui ameaçado pelos presos. Por isso, tive que conquistar meu espaço lá dentro usando a intuição. Às vezes, arrumam briga com você simplesmente por não ir com a sua cara”, lembra ele.

Ambos concordam que o sistema contribui para devolver à sociedade pessoas traumatizadas e violentas. “Cada dia lá me fazia sentir um ser humano pior, porque a gente fica em contato direto com quem sabe direitinho como fazer o mal. O sistema não te ajuda, só afunda mais”, explica Douglas. “Quando cheguei, as celas estavam lotadas. Tinham capacidade para oito e haviam 18 em cada uma. Eu nem cabia lá dentro e fiquei só no banho de sol. À noite, é claro, não tinha sol, passava frio”, relembra.

Diones sofria com a falta da família. “Não podia estar com eles por causa de uma besteira que cometi. Quando meus pais me visitavam, eu chorava muito. As pessoas que estão lá erraram, mas têm de ter direito a ter outra chance, e os governantes não ligam; apenas jogam lá dentro e se esquecem que somos seres humanos”, argumenta.

Diones saiu da prisão e foi direto para as drogas. “Mas um dia conheci dois voluntários da Universal. Fui apresentado a grupos que recuperam viciados. Pela primeira vez senti que fui apoiado, acreditado e ajudado verdadeiramente. Hoje sonho em ter uma família, mas o meu destino está nas mãos de Deus”, confessa.

O pastor Antonio Leibniz Conceição, de São Luís, conta que, mesmo com as rebeliões, a Universal continua realizando seu trabalho dentro do Complexo de Pedrinhas. “É um absurdo, apenas um muro divide as facções, por isso as rebeliões são constantes, mas fazemos um trabalho espiritual com os dois lados. Vamos lá dentro, cela por cela. Eu acredito neles, porque temos com a gente pessoas que saíram dos crimes. Jogamos futebol com eles, os tratamos como seres humanos”, explica.

Douglas acredita na omissão do Estado como fator propulsor para as rebeliões que vêm ocorrendo. “Parece que só querem criar mais presídio, mas não procuram consertar o mal pela raiz. Quem nasce no meio do lixo se contamina se não tiver alguém para tirá-lo daquele meio. No lugar de criar escola, constroem presídio. Eles já vêm com essa mentalidade que a criminalidade vai crescer”, defende.

Douglas ainda conta que saiu da cadeia muito pior. “Mas comecei a frequentar a Universal porque queria mudar. Fiz amizades aqui dentro com pessoas que vieram da mesma situação que eu e, se elas mudaram, eu também poderia”, conta ele, que hoje sonha em se formar engenheiro mecânico. “Sou uma nova pessoa, quem me vê percebe. E contra fatos não há argumentos”, finaliza.


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