Na falta de vagas, qualquer lugar é lugar


Eric Zambon

Especial para o Jornal de Brasília


Para passar no teste de direção e obter carteira de habilitação no Distrito Federal não é preciso (nem recomendável) saber estacionar em cima de calçada, manobrar em ponto de ônibus ou fazer baliza. Na prática, porém, esses são requisitos mínimos para achar um lugar para acomodar o carro na zona central da cidade, especialmente no horário comercial, entre 6h e 18h.


Os exemplos de irregularidades são vários, e, mesmo com o “jeitinho” dos motoristas, o que mais chama atenção é a falta de vagas. “Eu venho ao Setor Comercial Sul umas duas vezes por semana, no horário do almoço, e nunca consigo parar em algum lugar”, se queixa o funcionário público Ernesto Pinto, 59 anos. “Sempre tenho que ficar em fila dupla ou depender de flanelinha”, completa.

Segundo o Departamento de Trânsito (Detran-DF), pelo menos quatro equipes de Policiamento e Fiscalização de Trânsito atuam diariamente na zona central de Brasília, fazendo operações focadas em estacionamento irregular. Como as autuações seriam feitas somente com base no Código Brasileiro de Trânsito (CTB), não é possível discriminar quantas multas são distribuídas em cada localidade, segundo o órgão.

Vagas pagas

Ainda de acordo com o Detran, em toda a região central, que engloba os Setores de Autarquia Sul e Norte, Bancário Sul e Norte, Comerciais e a Esplanada dos Ministérios, a estimativa é que haja 15 mil lugares para acomodar carros e motocicletas. Esse número, no entanto, é o que seria necessário para atender somente o Setor Comercial Sul, que atualmente dispõe de duas mil vagas aproximadamente.

“O espaço é reduzido e a demanda é crescente”, sentencia o professor de Engenharia Civil na Universidade de Brasília (UnB) e mestre em Transportes Urbanos, Willy Gonzales. “Vejo a necessidade de privatizar algumas áreas. Ninguém quer pagar pelo valor desse espaço”, sugere. Para o especialista, o simples ato de cobrar para estacionar em áreas públicas, a exemplo do que é feito em grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, já reduziria o amontoado de carros no centro da capital.

Fiscalização

O administrador de uma escola de idiomas na 910 Sul, Marcus Vinicius, 45 anos, concorda com a proposta e usa exemplos aplicados em grandes cidades do mundo para defender a solução. “No centro de Paris tem muito carro, mas a rotatividade das vagas é grande. Se você passa do horário eles te cobram a mais e podem até guinchar seu carro. Se fosse aplicado em Brasília, teria que ser bem fiscalizado”, pontua. Ele diz que evita ir a lugares como o Setor de Autarquias Sul por causa da falta de vagas.

Projeto em análise

Em 2011, uma proposta começou a ser discutida pelo GDF para criar um estacionamento subterrâneo na Esplanada dos Ministérios, mas apenas em 31 de janeiro desse ano ela foi apresentada no Congresso Nacional. Ainda não há previsão para que o plano seja aplicado, apesar da estimativa inicial de três meses para a licitação e de três anos para a conclusão das obras.

A ideia era fazer uma construção por meio de Parceria Público-Privada (PPP) e ocupar uma área de 340 mil m², com 10 mil novas vagas na Esplanada dos Ministérios.

Um estudo de viabilidade do projeto, sob responsabilidade da Companhia Paulista de Desenvolvimento, ainda está para ser entregue. Somente após esse documento ser emitido é que o governo saberá se é melhor levar a ideia adiante ou não. A aplicação do plano esbarra no alto custo e na complexidade da logística, que envolveria até remanejo de linhas de ônibus e a criação de algumas linhas.

Ônibus pode ser solução

Mesmo que dificilmente seja feito nos próximos anos, o estacionamento subterrâneo proposto no Congresso Nacional gera desaprovação de especialistas. “É um absurdo essa ideia. Isso vai criar mais veículos entrando na Zona Central e vai ter consequências negativas para as vias de acesso ao Plano Piloto”, afirma o mestre em Transportes Urbanos Willy Gonzalez.

“Temos que recuperar o espaço urbano, trazendo segurança ao pedestre e ciclista também. Aqui em Brasília estão implementando aquele ônibus executivo que vem do Sudoeste, por exemplo, e é uma alternativa interessante para chegar à Esplanada dos Ministérios. É preciso que seja aplicado em mais lugares”, conclui Willy.

VLT

Alguns motoristas do Distrito Federal, no entanto, entendem a medida como algo bom. “Falta investimento, porque tem muito espaço para fazer estacionamentos subterrâneos. É muito carro que precisa ter onde parar”, diz o pedreiro José Costa, 40 anos.

A ideia do Governo do DF é que, quando finalizado, o Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT) também sirva como esse transporte citado por Willy, atendendo a quem precisa se deslocar diariamente para a Zona Central de Brasília. A obra de mobilidade urbana, no entanto, ainda não tem data certa para ser entregue.

Pense Nisso

A falta de estacionamento em Brasília é apenas mais um dos problemas causados pelo excesso de veículos no DF. A linha de ação talvez não seja criar mais vagas, mas sim, novos meios de se chegar a área central da cidade, onde está concentrada a maior parte das vagas de emprego. Investimento em transporte público e incentivo ao uso de bicicletas pode ser o caminho.

Frota é cada vez maior

Outro agravante para a falta de espaço nos estacionamentos do DF é o crescimento da frota. Segundo dados do Detran, até setembro desse ano já eram quase 1,5 milhão de veículos registrados no DF, cerca de 6% a mais que no mesmo período de 2012. Desse total, mais de um milhão são apenas de automóveis, tipo de transporte que mais ocupa as vagas dos setores e Esplanada dos Ministérios. Do total de veículos circulando na capital hoje em dia, menos de 30% não são carros.

Deficit


Segundo levantamento da Secretaria de Governo, feito para a criação do projeto do estacionamento subterrâneo, a Esplanada atualmente tem deficit de 7,5 mil vagas. O Detran, por sua vez, estima que essa defasagem chegue a 13 mil no Setor Comercial Sul. Os dados dos Setores Bancário e Autarquia não foram disponibilizados.

Soluções propostas

Especialistas citam três opções para melhorar não apenas o problema da falta de vagas na zona central do DF como também a circulação de veículos nessa região.

Pedágio Urbano: Isso faria com que as pessoas se sentissem mais propensas a deixar o carro em casa para não serem tarifadas.

Sistema de transporte público mais confortável e ágil: Além de atrair mais gente a usar o sistema público, é necessário que esse serviço atenda a pelo menos grande parte da população. No DF, obras como o VLT e VLP são soluções bem-vindas, mas ainda devem demorar para serem utilizadas plenamente

Carona solidária: O especialista Willy Gonzalesaponta que “o brasileiro parece não gostar de compartilhar o espaço de seu carro. É uma questão cultural.” Isso, porém, ajudaria a reduzir a quantidade de carros nas ruas e nos estacionamentos, especialmente nos horários de pico.

Fonte: Da redação do clicabrasilia.com.br

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