Mataram um repórter! Mataram um trabalhador! Justiça!


Mário Magalhães

Santiago Andrade, repórter cinematográfico assassinado – Fotos BOL / Kátia Carvalho / Parceira / Agência O Globo

O repórter cinematográfico Santiago Andrade está morto. A Secretaria Municipal de Saúde do Rio anunciou que ele teve morte cerebral.

Mais precisamente: Santiago não está morto; ele foi morto.

Assassinado.
Mataram-no quando ele cobria um protesto contra o aumento das passagens de ônibus e o confronto entre a Polícia Militar e alguns ditos manifestantes.

Assim como o conjunto dos PMs não pode ser equiparado aos colegas primitivos que executaram na tortura o pedreiro Amarildo, os alegados manifestantes que atiraram o fogo de artifício que trucidou Santiago não representam os milhões de brasileiros que desde junho de 2013 saem às ruas para protestar.

Está claro que foram autoproclamados manifestantes que dispararam o rojão. Cabe às autoridades identificá-los com rigor e escrúpulos.

E à Justiça puni-los, na forma da lei _assim como devem ser condenados agentes públicos que ferem e matam ilegalmente.

Multidões de autênticos manifestantes devem aos repórteres de texto e imagem que cobriram os atos nos últimos meses a inibição da parcela de trogloditas da PM que preferiria barbarizar. As imagens dos abusos criminosos contribuíram para minimizar o surto policial repressivo à margem da lei.

Por dever de ofício e vocação para buscar a verdade, os jornalistas se arriscaram e se arriscam. Foi um deles que assassinaram.

Muitas e muitas vidas foram sacrificadas na história do nosso país, século após século, para que trabalhadores não fossem mortos no exercício do seu trabalho honesto, inclusive jornalistas.

As pessoas que vão às ruas para fustigar com armas a PM, além de cometer crimes, servem ao que há de mais reacionário e covarde na sociedade. Dão-lhes argumentos e lhe conferem ares _falsos_ de legitimidade.

Não há legitimidade nos ataques armados aos policiais. O Brasil não vive uma ditadura. É legítimo recorrer às armas contra tiranias, como reconhecem teólogos relevantes. Por mais injusto que o país seja, a ditadura acabou na década de 1980. Jornalistas, como Vladimir Herzog, foram mortos na luta pela democracia.

No caso da morte de Santiago, atingido nas cercanias da Central do Brasil, mataram um assalariado. E ainda há mentecaptos, supostamente esquerdistas, que ameaçam repórteres _e não patrões ou empresas.

Até onde aprendi nos livros de história, ser de esquerda implica opção de classe. Mas não para gente como os matadores de Santiago. Como dizia João Saldanha, a estupidez humana não tem limites.

Os sindicatos dos jornalistas não podem contemporizar com bandos de alma fascista, embora estes possam se dizer, liricamente, anarquistas _os velhos e verdadeiros anarquistas, ao contrário dos tais black-blocs, também faziam opção pelos assalariados.

Santiago tinha 49 anos (como eu, não consigo esquecer).

Para sempre, inspirará aqueles que batalham pela liberdade de informar e contar histórias.

Valeu, companheiro!


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