Luiz Estevão: Entre o luxo e a prisão


Luiz Estevão: Entre o luxo e a prisão
“Se me deixassem, cumpriria a pena junto de meu marido”

Casada com o empresário Luiz Estevão, com quem compartilha uma fortuna de quase 33 bilhões de reais, Cleucy Meireles de Oliveira sabe aproveitar as benesses da vida. Mas, como o dinheiro não compra a paz, ela sofre com a possibilidade de detenção do marido.

Cleucy em traje de gala: coleções de bolsas, peles, joias e quadros (Foto: Arquivo Pessoal)

O episódio descrito a seguir se deu no fim de 2012. A socialite Cleucy Meireles de Oliveira e seu marido, o senador cassado e empresário Luiz Estevão, passeavam pela Park Avenue, em Nova York, quando ela viu, no anúncio de um leilão de acessórios raros, uma bolsa Birkin da Hermès feita do couro de crocodilo cayman. …

O pregão ocorreria em Dallas. Ela lamentou. Luiz Estevão agiu. Entrou em contato com Carlos Dale, da Almeida e Dale Galeria de Arte em São Paulo, e conseguiu um atalho para participar do leilão pela internet. Após vinte lances, ele arrematou a relíquia por algo em torno de 100 000 reais e a deu de presente à mulher. Cinco meses depois, desta vez em Paris, ela caiu de amores por uma saia exposta na vitrine da Christian Dior, mas surgiu outro empecilho: era uma peça-conceito, não estava à venda. A brasileira entrou assim mesmo na loja, experimentou o modelo e venceu mais uma vez a batalha. Para conseguir que a peça fosse negociada, desembolsou 22 500 reais. De fato não há limites geográficos, logísticos e muito menos financeiros para a realização dos sonhos de consumo de Cleucy. O condão que facilita tudo é uma fortuna estimada pelo próprio casal em 32,8 bilhões de reais. Há o outro lado da moeda, porém, e todo o dinheiro do mundo tem sido inútil para superar um obstáculo que vem tirando o sono dos dois. Na quarta passada (9), o Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a sentença de 31 anos de cadeia para o empresário, condenado por desvio de recursos públicos. Ele vai recorrer ao Supremo Tribunal Federal, mas paira sobre a família a ameaça de prisão. “Se me deixassem, cumpriria a pena junto de meu marido”, diz a bilionária, que deu entrevista a VEJA BRASÍLIA por e-mail.

Por ora, e até que se esgotem todos os recursos na Justiça, a realidade do casal é seu terreno de 10 800 metros quadrados na QI 5 do Lago Sul, onde fica a mansão de 1 800 de área construída, com três pavimentos, oito suítes, elevador e um batalhão de funcionários que inclui empregada doméstica, cozinheira, duas secretárias, dois motoristas, três jardineiros e três seguranças 24 horas. Mais imponente ainda são as 180 obras de arte, pelo menos, que o local abriga. Há um quadro de Tarsila do Amaral, vinte de Alfredo Volpi, seis de Di Cavalcanti, três de Candido Portinari, além de telas de Antônio Bandeira, Iberê Camargo e Milton Dacosta. Faz parte do acervo Futebol, de Portinari, avaliado em 30 milhões de reais. A tela está pendurada na mesma parede que exibe Mulher com Ramo de Flores, um dos mais festejados quadros de Ismael Neri, o preferido da proprietária. Na garagem fica outra coleção valiosa da família. Duas Ferraris, duas Mercedes-Benz, um Porsche e uma Maserati Quattroporte. Aos 55 anos, Cleucy está há seis meses em uma autoescola para tirar carteira de motorista. Em vez dos veículos suntuosos do patrimônio familiar, diz que pretende dirigir um carro mais compacto.

O empresário Luiz Estevão ao volante de uma de suas Ferraris: coleção de carros de luxo na garagem e de obras de arte espalhadas pela mansão no Lago Sul (Foto: Roberto Castro)

Aos 3 anos, em Cuiabá, onde nasceu. Pingente, pulseiras e anéis nas duas mãos (Foto: Arquivo pessoal)

A primeira comunhão, com a mãe, Elcy, e o pai, Cleto (Foto: Arquivo pessoal)

Natal de 2013 em família. Da esq. para a dir., Cleuci (filha), Fernanda com os filhos Giovana e Fernando, Ilca com os filhos Luiz Eduardo e Marita, Luiz Estevão, Luiz Estevão (filho), Luíza e Luiz Eduardo (Foto: Arquivo pessoal)

No casamento com Luiz Estevão na Dom Bosco. Ela tinha 17 anos, ele, 26. Usava um Guilherme Guimarães (Foto: Arquivo pessoal)

Grávida de seis meses do filho que perdeu horas depois do nascimento, com problemas cardíacos (Foto: Arquivo pessoal)

Com o pai no casamento da filha Fernanda. Usava um vestido da sogra, Marita, sua referênciade estilo (Foto: Arquivo pessoal)

No dia a dia da ricaça, cabem algumas trivialidades. Dona de casa, formada em psicologia e pedagogia, ela ajuda a administrar a rotina do marido, dos seis filhos e quatro netos. A cada quinze dias vai a um salão no Lago Sul para fazer as unhas e retocar a coloração do cabelo. Além de distribuir simpatia, deixa 50 reais de gorjeta para cada manicure, quase o mesmo preço de tabela do serviço. De segunda a sábado, das 8 às 10 horas da manhã, frequenta a academia Body Tech do Setor de Clubes Sul, onde faz ginástica localizada, dança e musculação. Na malhação, formou um grupo de amigas, que confraternizam no cafezinho após os treinos e em animados almoços. Mas, em se tratando da personagem e seu poder de fogo, é natural que qualquer encontro prosaico vire um acontecimento. Na última reunião, Cleucy contratou o grupo de samba do bar Calaf para animar o encontro na varanda, com champanhe Veuve Clicquot à vontade. Numa outra roda de amigas, em torno da literatura, a tertúlia sobre O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, teve trajes e cardápio temáticos. Anfitriã e convidadas vestiram roupas dos anos 1920, e saborearam à mesa robalo à daisy buchanan com crosta de pistache ou filé à james gatz.

As festas fazem parte da agenda. No ano passado, Cleucy e sua fiel amiga Cláudia Salomão causaram com um intercâmbio de banquetes-surpresa no aniversário de cada uma delas. Rosas vermelhas, champanhe Perrier Jouet, dançarinos de flamenco e uma paella servida pelo chef espanhol Jaime Cuadros estavam no pacote de presente de Cláudia para a amiga. Na retribuição, o combo incluía cantora, saxofonista, dois DJs, louça nova pintada a mão e Veuve Clicquot jorrando caudalosa. O custo da lembrancinha? Por volta de 50 000 reais. “Cleucy gosta do que é bom, mas tem o hábito de pedir desconto”, revela a promoter Tatiana Vartuli. Foi assim, pechinchando adoidado, que a socialite conseguiu um abatimento na comemoração dos 16 anos da caçula, Luíza, em fevereiro do ano passado. A conta fechou em 1,8 milhão de reais. Só a logística para trazer o badalado DJ sueco Avicii consumiu quase um terço do valor total, entre cachê, produção e aluguel de jatinho. Toda a superfesta foi providenciada por Tatiana, que, em seu último aniversário, provou da gratidão da cliente: ganhou um relógio Rolex de 7 500 dólares. “Não é um bom exemplo dever à Justiça e viver na ostentação. Para alguns, parece que o crime compensa”, critica o deputado distrital Chico Leite, egresso do Ministério Público.

Cleucy é endinheirada desde que nasceu, em 18 de setembro de 1958, na cidade de Cuiabá. Seu pai, Cleto Meireles, tinha uma firma de incorporação imobiliária, uma torrefação de café e uma rede de cinemas. No fim da década de 60, a família chegou a Brasília. À frente da caderneta de poupança Colmeia, Cleto e a mulher, Elcy, aumentaram ainda mais a fortuna, que viria a ruir em meados dos anos 80, com a falência das empresas e um prejuízo para 1,6 milhão de clientes. Do ponto de vista financeiro, Cleucy nunca sentiu o golpe da derrocada do pai. Muito nova, iniciou a segunda etapa de sua próspera trajetória, ao lado do marido. Os dois se casaram um dia depois de a moça completar 17 anos. No mesmo período, Luiz Estevão começou a investir em terrenos rurais e aos poucos viu seu império crescer. Hoje, o casal é proprietário de sessenta terrenos, 3 500 imóveis e 12 000 hectares de fazenda (veja o quadro abaixo). Seis dos oito terrenos vazios na valorizadíssima Península dos Ministros pertencem a eles. Em seu ramo de negócios, o casal tem entre seus inquilinos o Ministério da Indústria e Comércio Exterior, a Fundação Nacional do Índio (Funai), o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), a Polícia Federal e a Secretaria de Fazenda do Distrito Federal. Ironia do destino, a PF já cumpriu dois mandados de prisão contra Luiz Estevão, e o Tesouro local o acusa de ser campeão de dívida fiscal.

A tormenta de agora remete a outros problemas graves que ela teve de encarar. Talvez o mais penoso deles tenha sido o sequestro de sua filha Cleuci, em 1997, na época com 12 anos, que ficou uma semana no cativeiro. “Ela comia só cenoura e iogurte em um lugar com ratos e baratas”, relembra, emocionada, a irmã mais velha, Fernanda Estevão. “Minha mãe nunca enfrentou de cama suas tristezas”, diz a primogênita. Uma delas foi a perda de um bebê poucas horas após o parto, causada por uma má-formação na veia aorta. Outra fonte de preocupação é o filho Luiz Estevão, que já se submeteu a quatro cirurgias cardíacas, todas em Boston (EUA). A primeira foi aos 28 dias de vida e a última em 2001, quando tinha 18 anos. Na ocasião, o pai estava com o passaporte retido devido a pendengas judiciais e não pôde ver de perto o procedimento. “Minha mãe poderia ter pedido a companhia de alguém, mas fomos só eu e ela”, conta o filho.

A atual dor de cabeça da dupla é com a Justiça. Há 41 processos que põem em xeque a fortuna construída pela família. O mais rumoroso deles é o que condenou Luiz Estevão e, solidariamente, Cleucy por improbidade administrativa. Eles são acusados do desvio de 169 milhões de reais na construção do Fórum Trabalhista de São Paulo, escândalo que em 2000 culminou com a cassação de Luiz Estevão do Senado. Em valores corrigidos, a quantia chegou a 468 milhões de reais. Desde 2012, ficou acertada a devo-lução em 96 parcelas. Mas todos os seus bens imóveis continuam bloqueados. Ou seja, eles podem faturar os aluguéis, mas estão impedidos de vender as propriedades. Também juntos foram condenados por desvio de dinheiro público e sonegação fiscal. Daí que o acervo de obras de arte, os carros de luxo e os dois jatos da família estão penhorados. A medida visa a garantir que o Grupo OK, do patriarca, retorne aos cofres públicos 152,6 milhões de reais devidos em tributos. Como agravante, a decisão recente do STJ trouxe a ameaça real de detenção de Luiz Estevão. “Quando uma pessoa adoece, a família cuida dela até o fim. Torce para que aconteça o melhor, mas está preparada para o pior”, diz ele. “Cleucy sofre com a perspectiva da minha prisão, mas é muito forte e saberá viver se esse for o desfecho.” Realmente, saber viver nunca foi um problema.

Colaborou Olívia Meireles

Fonte: Lilian Tahan Blog Grande Angular / revista Veja Brasília 

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