Leia depois se for brasileiro


Leia depois se for brasileiro

Descubra em cinco passos como se livrar desse hábito de empurrar as obrigações e procrastinar as tarefas 

Por Amanda Aron / Foto: Fotolia – AE – Arquivo Pessoal

 
 
Depois do almoço, depois da novela, depois de amanhã. Quando você se dá conta, quantas tarefas não estão acumuladas na sua vida por ter deixado tudo para “depois”? Se isso pareceu familiar, saiba que você não está sozinho e enfrenta um dos piores inimigos do ser humano de todos os tempos: a procrastinação.


Essa palavrinha feia, que ganhou ainda mais força na era virtual, pode ser a responsável pela bagunça no seu dia a dia. A janela que literalmente se abriu com o advento da internet proporcionou ao homem moderno a possibilidade de se entreter infinitamente. Duvida? Então acesse o YouTube e confira quantas visualizações já receberam os vídeos mais tolos compartilhados na rede. São milhões de internautas no mundo inteiro deixando aquele relatório que o chefe pediu para depois de assistir ao vídeo do “gatinho que toca piano” ou do “cãozinho arrependido depois de aprontar”.

Esse mal é tão comum que já existem até aplicativos que bloqueiam o acesso do usuário a sites que o levem a procrastinar no lugar de manter o foco. E, sem foco, como é que a pessoa consegue cumprir prazos? Deixar para estudar no último momento não é uma estratégia muito inteligente para passar no vestibular do tão sonhado curso superior. Desperdiçar o tempo com redes sociais não é aconselhável quando você trabalha com metas. Ou ficar jogando online não é a melhor opção quando você precisa colocar sua vida em ordem.

Aliás, por falar em jogos online, foi no famoso game de doces ultracoloridos Candy Crush que a administradora de empresas Aline Mara Alves de Andrade, de 26 anos, de Santos, litoral de São Paulo, descobriu que guloseimas também viciam no mundo virtual e podem ser tão prejudiciais como na vida real.

Ao baixar o aplicativo em seu celular, ela passava boa parte do dia conectada jogando. “Quando não estava fazendo nada, estava jogando. É um vício”, confessa ela, que está noiva e acabou de se formar. “Quando eu percebi que estava tomando muito do meu tempo, deletei o aplicativo do celular. Simplesmente não dava mais. Eu tinha questões do meu casamento para resolver que certamente eram mais urgentes”, conta.

 
Mas acalmem-se Aline e todos os outros viciados em joguinhos online. Esse problema provém de um mal recente e para o qual felizmente já existe diagnóstico. Alguns psicólogos de várias partes do mundo relacionam o vício no famoso jogo de doces a um distúrbio psicológico conhecido como “efeito Zeigarnik”, em homenagem ao psicólogo russo e pai desse estudo, Bluma Zeigarnik. Após analisar o comportamento de alguns garçons em sua atividade de trabalho, Zeigarnik concluiu que o cérebro deles memoriza os pedidos dos clientes até que tudo tenha sido entregue na mesa. A mente fica incomodada com a tarefa incompleta. Quando tudo está resolvido, o garçom apaga o pedido imediatamente da memória para se fixar em um novo cliente.


A procrastinação é tão comum no ser humano que já virou tema de estudo aqui e lá fora. No Brasil, o empreendedor Christian Barbosa é especialista em gerenciamento de tempo e produtividade pessoal e defende que navegar na internet é a principal causa de procrastinação das pessoas. Uma pesquisa feita por ele constatou que 71% das pessoas admitem que procrastinam e 86% confessam que preferem deixar para depois tarefas consideradas chatas.

Barbosa diz que é muito comum ouvir pessoas reclamar da falta de tempo, mas que o primeiro passo para resolver esse problema é justamente mudar essa visão. “Se você fica alardeando para todo mundo que está correndo ou que não tem tempo, então essa será sua realidade. Para ter mais tempo, mude primeiro a forma como você expressa isso em seu dia a dia”, orienta. “Você perceberá que tem tempo. Só não enxerga isso porque criou um bloqueio.”

Já de acordo com um dos principais pesquisadores de ciência da motivação e procrastinação do mundo, o canadense Piers Steel, autor do livro “A equação de deixar para depois”, os números são maiores. Com base em pesquisas em diferentes países, ele acredita que aproximadamente 95% das pessoas adiam tarefas. “O verdadeiro motivo pelo qual as pessoas procrastinam é parcialmente genético e pode ser rastreado em uma parte do cérebro, o que responde porque a procrastinação pode ser vista em praticamente todas as culturas e em todos os tempos, mas isso não significa que o ambiente em que a pessoa está inserida também não seja responsável. Não é ele quem cria a procrastinação, mas é ele quem define sua intensidade”, define em seu livro.

Agora, só depois da Copa…

 
 
Se o exemplo mais célebre de postergação de tarefas dos brasileiros é deixar tudo para depois do carnaval, este ano o País conta com outro tipo de circo. A Copa do Mundo que será sediada no Brasil promete roubar a atenção do povo apaixonado por futebol. Se é paixão, com certeza todas as outras atividades ficarão para segundo plano. Mas, se todos param para assistir às partidas, como é que o país anda?


Aliás, os atrasos nas obras da Copa do Mundo são a maior prova de que o brasileiro sabe como ninguém deixar tudo para a última hora. Estádios, hospitais e aeroportos que seriam fundamentais para o grande evento esportivo acontecer com harmonia ainda estão na metade da obra e provavelmente ficarão prontos nos 45 minutos do segundo tempo. Joseph Blatter, presidente da Fifa, não escondeu a ansiedade e o nervosismo para que o grande evento futebolístico saia como manda o protocolo. Em meio a declarações polêmicas, ele afirmou que “é a primeira vez que um país que teve sete anos para se organizar está atrasado”.

Se vamos vencer a Copa do Mundo ainda é um mistério. Mas ao menos já provamos ser os melhores do mundo na arte de enrolar. Enrolar o chefe no trabalho, a professora na escola, a namorada que quer casar. No entanto, será que o principal enrolado não seria justamente aquele que deixa tudo para depois? Afinal, quem enrola é o mesmo que perde tempo e deixa a própria vida para depois.

http://www.universal.org/noticia/2014/02/09/leia-depois-se-for-brasileiro-28690.html 

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