Juiz federal: Estado fecha os olhos à corrupção para sediar a Copa


Juiz federal: Estado fecha os olhos à corrupção para sediar a Copa

O juiz Fausto De Sanctis, 49 anos. FotoAvener Prado/Folhapress .

A Copa é uma oportunidade para a ação do crime organizado, afirma o juiz federal Fausto De Sanctis, que acaba de lançar um livro sobre fraudes e crimes no esporte.
Publicado nos EUA pela Springer, “Football, Gambling and Money Laudering” (Futebol, jogos de azar e lavagem de dinheiro) alerta sobre a tolerância das autoridades aos crimes praticados “em nome do esporte”. E aponta medidas para combatê-los. Leia trechos da entrevista com o juiz…

Folha – O sr. pergunta no livro se o futebol é sonho ou pesadelo. Qual sua resposta?

Fausto De Sanctis – É sonho em termos de orgulho nacional. Reflete o Brasil que deu certo. Mas, atrás desse sonho, tem um grande pesadelo. Acho que o futebol hoje representa muito mais a corrupção do que a beleza. No sonho veio o interesse comercial e criminoso de muita gente.

Onde há corrupção no futebol?

Vem desde um nível puro do futebol, que são os seus grandes atores, até o nível do Estado que tem interesse em sediar uma Copa, não só para receber a festa do futebol mas para promover e alimentar o crime organizado, que, por vezes, alimenta o próprio Estado. Por conta desse sonho, muita gente deixa de observar o futebol do jeito que precisa.

Muita gente quem?

A população, em primeiro lugar, pois é a que menos cobra –pelo menos, até um tempo atrás–, e as autoridades, que, em razão desse sonho, cedem a coisas que jamais poderiam acontecer. A soberania nacional é deixada de lado por causa de uma entidade com interesse privado. O Estado simplesmente fecha os olhos para sediar a Copa.

O senhor pode especificar casos em que o Brasil tenha abdicado de sua soberania?

Para que o Brasil sediasse o evento, uma entidade privada impôs uma série de medidas absurdas.

Poderia citar essas medidas?

Primeiro: permissão de visto a todo aquele que seja classificado pela Fifa como parceiro comercial. É uma carta branca. Isenção de tributo para todo aquele que for considerado pela Fifa parceiro comercial. Prisão administrativa para quem violar as restrições comerciais que a Fifa impôs. Responsabilidade pura e simples da União para todo e qualquer dano no evento.

A Copa é uma oportunidade para crimes financeiros?

Quando o Brasil foi eleito, me disseram: “Agora o Brasil tem de se preocupar com o crime organizado. Vários grupos vão se unir para fraudarem as licitações”. Dito e feito. Há relatos da Controladoria-Geral da União e do Tribunal de Contas da União de superfaturamentos das obras.

Poderia citar alguns crimes?

Fraude em licitações, crime de evasão de divisas, pelo dinheiro que passa não contabilizado, dinheiro enviado de alguma forma ao exterior.

O que pode ser feito?

Estabelecer o limite de cada um. O Estado não pode se sujeitar à Fifa, e sim a Fifa se sujeitar ao Estado. Juízes, presidentes de clubes, federações e o presidente da CBF deveriam ser considerados pessoas politicamente expostas e acompanhados diretamente pelas autoridades financeiras.

Football, Gambling and Money Laudering

autor Fausto De Sanctis

editora Springer

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Fonte: RODOLFO LUCENA – Folha na Copa

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