Jovens com histórico de drogas e abuso sexual precisam de apoio


Jovens com histórico de drogas e abuso sexual precisam de apoio

Eles só precisam de incentivo e oportunidade para darem a volta por cima
Eric Zambon

Mônica (nome fictício) prefere histórias românticas, mais melosas. “É um amor tão profundo, tão leve, tão gostoso de se ver”, diz sobre seu filme favorito, Crepúsculo. Aos 17 anos, ela ainda vai ingressar no Ensino Médio e faz cursos profissionalizantes no Sesi de Taguatinga. Pode parecer que está atrasada com os estudos, mas a verdade é que ela se adiantou muito.

A mãe morreu quando Mônica era criança e, de lar em lar, foi parar na casa da avó, viciada em crack e cujo marido molestou a menina. Isso a tornou uma garota agressiva com as palavras e arredia. Ela teve experiências com drogas na adolescência e, após morar por um tempo com outros parentes, terminou em um abrigo público de Samambaia. Uma história parecida com a da jovem de 13 anos, contada ontem pelo Jornal de Brasília.

A vida de Mônica mudou quando ela foi encaminhada pelo Conselho Tutelar ao programa ViraVida, vinculado ao Sesi, cuja intenção é capacitar jovens de 16 a 21 anos com problemas sociais para o mercado. “Trabalhamos com quatro eixos metodológicos: educação básica, psicossocial, qualidade de vida e empregabilidade”, explica a coordenadora do projeto, Maria Aparecida Lima.

Ela conta que jovens como Mônica geralmente passam por traumas familiares e pessoais que os afastam dos estudos e os aproximam de drogas e situações de exploração sexual. “O ViraVida é um trampolim para o jovem integrar o mercado profissional. Isso é essencial para que ele tenha uma perspectiva e modifique o comportamento destrutivo”, avalia.

Se fazer presente
O programa é embasado por consultores externos que auxiliam os pedagogos, psicólogos e demais profissionais em contato direto com os jovens selecionados. Um dos que ajudam é Alberto Carlos Gomes da Costa, que prega a abordagem dos rapazes e moças em duas frentes, a da existência e da convivência. “Isso ajuda a otimizar o trabalho com adolescentes”, acredita.

“O jovem que passou por um trauma precisa se preocupar com as competências pessoais e relacionais, ou seja, saber se aceitar e interagir”, explica Alberto. “Para os profissionais envolvidos, é preciso fazer-se presente na vida do educando”, conclui.

Sonhos de menina
A jovem Mônica se diz extremamente motivada para terminar o Ensino Médio e passar em um vestibular. “Quero fazer Comunicação Social na faculdade e me tornar jornalista, daquelas que apresentam, bem bonita, o programa de TV”, afirma, orgulhosa da escolha.

Sua primeira opção foi a psicologia, mas o jornalismo a fisgou após a moça ter ido a uma apresentação em uma universidade.

Motivação

“Já pensei em largar essa oportunidade e jogar para o alto, mas meus novos colegas me apoiaram”, diz a adolescente, cujas amizades foram todas construídas dentro da realidade do ViraVida. “Isso foi o ‘pivô’ para me manter motivada a continuar estudando”, revela.

Romantismo

A ambição da menina convive com a paixão por poesia – adora William Shakespeare – e o gosto pelas tais histórias melosas. A saga Crepúsculo – que trata de um romance entre uma humana e um vampiro – a conquistou, mas ela também se diz fã de boas comédias românticas.

Se reconhecer para planejar o futuro

Recentemente, Mônica se reaproximou do pai, o que, para o projeto ViraVida, foi uma das vitórias da moça. “Quando ela chegou ao projeto, reproduzia uma mágoa de anteriormente com os outros”, esclarece a psicóloga Lucyanna Miranda.

Segundo a profissional, o compartilhamento de experiência entre os jovens é fundamental. “Quem é novo geralmente fica um mês em acolhimento, fazendo terapia comunitária”, completa. Lucyanna ainda analisa que muitos destes jovens se envolvem com drogas para alcançar um torpor, supostamente reconfortante à realidade. “É uma forma de anestesiar a dor emocional”, completa.

Mudanças

Éder (nome fictício) fez 18 anos em novembro último. Até alcançar a maioridade, enfrentou problemas com a vulnerabilidade financeira de sua família e a falta de uma estrutura psicológica consistente para evitar problemas. Tendo de passar boa parte da infância nas ruas de São Sebastião, já que em casa havia pouca comida ou lazer, acabou vítima de exploração sexual.

“Ele chegou ao projeto com dificuldades cognitivas”, afirma a coordenadora do projeto ViraVida, Maria Aparecida. “Já havia repetido o 1º ano do Ensino Médio três vezes”, completa. Hoje, Éder está prestes a finalizar o 2º ano e prefere não lembrar de quando as perspectivas para seu futuro ainda eram nebulosas. “Quero virar auxiliar administrativo e comprar um carro para mim, um Golf”, conta, sorridente.

O rapaz, que na infância brincava com carrinhos de plástico, desenvolveu paixão por automóveis e, coerentemente, seu filme favorito é Velozes & Furiosos. “Quando eu tiver meu carro vou colocar umas ‘rodonas’, um ‘sonzão’ e sair por aí”, sonha. No “sonzão”, aliás, ele colocaria música pop e eletrônica para tocar. Ele diz que Demi Lovato é uma de suas artistas prediletas.

Identidade

Tais ideais podem parecer superficiais e pouco ambiciosos, mas o rapaz cresceu sem muitas condições financeiras. O fato de ele ter metas comprova que ele se aceita e planeja o futuro. “Os jovens precisam estruturar suas ideias em relação à própria identidade, para depois elaborar um projeto de vida”, explana Alberto Costa.

Base familiar é importante

Nas ruas, Éder foi vítima de abusos quando pré-adolescente: trocava favores sexuais por comida ou outros produtos. Sua família pouco podia prover-lhe, então esse era o caminho para obter certas coisas. Isso é outra motivação para persistir nos estudos. “Quero crescer na minha vida. Tenho um amigo de 19 anos como exemplo. Meus pais não tiveram as condições que agora tenho, quero ajudá-los”, diz.

Curiosamente, sua paixão é a adrenalina, o que explica em partes seu amor por carros. Ele revela ter bastante desejo de pular de paraquedas, saltar de bungee jump, parapente, enfim… qualquer coisa que faça seu sangue fervilhar. “O negócio é ter emoções fortes. Qualquer coisa vale”, conclui.

Segundo a psicóloga Lucyanna, uma boa base familiar é de extrema importância para os jovens. “Depois que a pessoa perde ou é abandonada pela família, a próxima instituição que tende a falhar é a escola”, completa.

Ajuda

Ontem o Jornal de Brasília mostrou a história de Marília (nome fictício), uma menina de 13 anos que está envolvida no mundo das drogas e causa desespero na mãe, que não sabe mais onde pedir ajuda. Após abandonar o lar, ela também largou a escola.

Situações que parecem perdidas têm reversão, ou ao menos é essa a lição que Mônica, Éder e, quem sabe um dia, Marília também tenha a dar aos jovens desgarrados do DF e do mundo. A perseverança é imprescindível, assim como a vontade de vencer, mas procurar ajuda e contar com apoio de profissionais e familiares também nunca é demais.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília

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