Joan Baez: musa folk volta ao Brasil / entrevista Silvio Essinger, O Globo, Rio de Janeiro 15 /02/ 2014


Joan Baez: musa folk volta ao Brasil / entrevista Silvio Essinger, O Globo, Rio de Janeiro 15 /02/ 2014

COM SHOWS MARCADOS PARA O MÊS QUE VEM EM RIO, SÃO PAULO E PORTO ALEGRE, A ENGAJADA CANTORA AMERICANA LEMBRA 1981, QUANDO PASSOU PELO PAÍS E FOI PROIBIDA DE CANTAR

RIO – Na primeira visita ao Brasil, em maio de 1981, a sina de “cantora de protesto” pegou a americana Joan Baezem cheio. Ditadura militar em vigência, as bombas do Riocentro ainda fumegantes, ela encontrou, ao chegar ao país, fortes restrições governamentais com relação a qualquer tipo de comentário político. E, sem muitas explicações, foi simplesmente proibida de cantar. Mas não ficou parada. Em São Paulo, almoçou com o então presidente do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio da Silva, o Lula. No Rio, durante o Conclave do Sol, no Aterro do Flamengo, subiu ao palco e dançou um baião. Quase 33 anos depois, é a vez de ir à forra: Joan se apresenta dia 19 de março em Porto Alegre (no Auditório Araújo Vianna), dia 21 no Rio (no Teatro Bradesco) e 23 em São Paulo (no Teatro Bradesco paulistano).


Em entrevista por telefone, a artista de 73 anos revela um episódio pouco conhecido de sua passagem pelo Brasil: quando foi levada pelo deputado estadual Eduardo Suplicy (espécie de mestre de cerimônias de sua abortada turnê brasileira) ao Teatro da Universidade Católica de São Paulo.

— Acontecia o show de algum cantor de quem não me lembro, e o Suplicy me conduziu até o meio do público, onde a polícia não podia ir. Lá, eu fiz o meu show, que foi bem silencioso, sem instrumentos, só com voz.

Mesmo distante há tanto tempo, a cantora não perdeu de vista a realidade social e política do Brasil.

— Fiquei sabendo dos protestos, das multidões que foram às ruas por diferentes causas. Não dá para comparar com o que aconteceu aí nos anos 1980, mas foi bom ver as pessoas se manifestando novamente. Para mim, se for de forma pacífica, está tudo bem — explica Joan, que volta ao país acompanhada de dois músicos: o percussionista Gabriel Harris (seu filho com o jornalista e ativista político David Harris) e o multi-instrumentista Dirk Powell.

Conhecida pela interpretação de canções do ex-namorado Bob Dylan (“Farewell, Angelina”, “Simple twist of fate”), da chilena Violeta Parra (“Gracias a la vida”) e de sua própria lavra (“Diamonds and rust”), Joan Baez não costuma lá ter problemas de repertório.

— Eu sei quais são as músicas que as pessoas querem ouvir, mas quero fazer com que elas ainda soem novas, frescas, não importando de que época sejam — diz ela, confirmando que deve incluir nos shows “uma ou outra” canção de seus discos mais recentes.

Mais célebre voz feminina da música folk surgida nos anos 1960, Joan diz ter sentido muito a morte, no último dia 27, do cantor e eminência da canção política Pete Seeger, ídolo dela, de Dylan, de Bruce Springsteen e de tantos artistas e ativistas americanos.

— Pete viveu 94 anos de uma vida extraordinária, foi uma bússola moral para todos nós. Sua morte nos atingiu como sociedade. Ele teve a coragem de enfrentar o que muito poucos ousariam — afirma ela, que já foi uma das grandes entusiastas do presidente Barack Obama. — Eu apoiei sua candidatura logo no começo, e eu nunca tinha apoiado nenhum outro candidato. Ele tinha conseguido criar uma comunidade internacional que há muito não existia mais. Depois, tornou-se impossível que ele mudasse algo, a direita fez de tudo para se livrar dele. Obama deveria ter conversado com uns cinco ou seis prêmios Nobel e só depois sair fazendo as suas mudanças.

Em dezembro passado, Joan participou de um show para celebrar a música de “Inside Llewin Davis: Balada de um homem comum”, filme dos irmãos Joel e Ethan Coen retratando a cena folk do Greenwich Village em 1961 — que ela, por sinal, conheceu bem.

— Eles queriam promover o filme, convidaram vários artistas jovens e um da época. Que calhou de ser eu. Achei muito bonito da parte deles e me diverti muito nos camarins — conta a cantora, que segue atenta às movimentações do folk nos EUA. — Com toda a situação política dos anos 1960, tivemos uma excelente plataforma, todos queriam ouvir as nossas músicas. Hoje, o clima é outro, e os novos artistas têm dificuldades de chegar ao grande público.

Tempo acabando… e o que mais perguntar à mulher que namorou Bob Dylan e Steve Jobs? Joan ri e comenta:

— Uma repórter me falou uma vez: “Quer dizer que você é a única mulher que já viu os dois pelados?” E eu: “Sim, mas não ao mesmo tempo!”
http://vivianamarcelairiart.blogspot.com.br/2014/02/joan-baez-musa-folk-volta-ao-brasil.html

About A Politica e o Poder

%d blogueiros gostam disto: