Jérôme Champagne lamenta não participar da organização do Mundial no Brasil


Jérôme Champagne lamenta não participar da organização do Mundial no Brasil
Candidato à presidência da Fifa nas eleições do ano que vem, francês ex-conselheiro de Blatter acredita que, com ele no comando, problemas teriam sido menores: “Conheço o país”

Em comum, eles só têm o nome, nacionalidade e um vínculo empregatício — que fique bem claro. Jérôme Champagne tem lá suas ressalvas ao xará que desde 2007 discursa em tom crítico como secretário-geral da Fifa, responsável por fiscalizar de perto as obras da Copa do Mundo. Mais comedido e político que Jérôme Valcke, o francês de 55 anos é só elogios ao país que o acolheu de 1995 a 1997, quando ele trabalhou na embaixada da França no Brasil. Tanto que lembra, com detalhes, do supermercado que frequentava próximo a casa onde morava, no Lago Sul — “uma qualidade de vida que não se encontra no resto do país” —, e diz, em entrevista ao Correio, que a organização da Copa do Mundo poderia ter sido diferente caso ele estivesse ajudando.

Integrante do Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 1998 e ex-conselheiro de Joseph Blatter na Fifa — onde permaneceu por 11 anos —, Champagne vê o evento brasileiro como uma “decepção” por não ter sido convidado para participar da administração da entidade. Afinal, ele já conhecia o país, havia estudado o povo brasileiro e “ainda fala português” (um pouco arrastado, convenhamos). Mas logo deixa as diferenças de lado para se empolgar com a “Copa mais disputada” de todos os tempos. Ele vem ao país no início de junho para assistir à abertura do evento no Itaquerão e “sentir a emoção do povo brasileiro”, sem deixar, claro, de fazer um pouco de política.

Champagne é candidato à presidência da Fifa nas eleições do ano que vem e já iniciou a campanha (com o apoio do amigo Pelé), mesmo com muita gente dizendo que ele não será capaz de “trair” o concorrente Blatter. Enquanto a corrida eleitoral pelo comando do futebol no mundo não começa, o executivo se orgulha de pequenos passos no Chipre, de onde conversou com o “jornal que lia todos os dias enquanto esteve em Brasília”: conciliador e com a lábia afiada em vários idiomas, Champagne fez as duas confederações de futebol da ilha (uma grega e uma turca) dialogarem sobre uma possível união depois de 58 anos de separação. Só um passo. Mas que o prepara para, depois, seguir em direção a outros.

Pelé e Jérôme Champgne: amigos próximos desde o tempo em que ambos trabalhavam em Brasília
A mídia internacional diz que o senhor não terá coragem de enfrentar o presidente Joseph Blatter. Qual a relação entre vocês?
Trabalhei por 11 anos com o senhor Joseph Blatter. Não falo da nossa relação pessoal, mas depois de tanto tempo juntos, ele tem o meu respeito.

Mas por que o senhor deixou a Fifa?


Saí da Fifa porque dois presidentes de confederações continentais me atacaram por não gostarem das minhas atividades. Especialmente o da Ásia, que queria controlar federações nacionais e impor amigos nas presidências. Teve também o da Europa, que ajudava o presidente da Fifa em temas sobre o esporte. Mas isso é do passado e não tem importância hoje.

Mesmo assim, quer voltarà entidade como presidente…
Quando me candidatei, em 20 de janeiro, eu já defendia uma posição muito clara sobre o que fazer em 2015. Hoje, a concentração do futebol está em 15 clubes ricos da Europa, se transformando em uma NBA do futebol. Precisamos de um futebol para todos. Há uma desigualdade entre os países, mas isso não pode existir em um mundo globalizado. O futebol americano e africano, por exemplo, servem de matéria prima futebolística para a Europa. A Fifa precisa ter uma posição mais forte e trabalhar muito contra isso. Países como o Brasil têm de ter mais representação. O futebol é universal e a Fifa precisa se adaptar às novas realidades do mundo.

O senhor trabalhou na organização do Mundial de 1998 e já conhecia o Brasil. Imaginava estar trabalhando na Copa de 2014?


Imagina uma grande empresa europeia com um funcionário que sabe falar português, fazendo um grande trabalho para entender a vida, a política e como funciona o Brasil. Em uma empresa normal, esse funcionário seria usado. Eu pensei que, com a experiência que eu tinha, seria convidado para trabalhar na Copa do Brasil. Mas nunca me procuraram. Foi uma decepção porque, com a minha experiência, eu poderia fazer com que a relação com o país fosse melhor. Mas algumas pessoas não acharam necessário.

O secretário-geral Jérôme Valcke?


Ninguém me pediu nada. Não tenho nenhum sentimento de revanche, mas acho que um pouco de visão política do Brasil teria sido importante. Eu conheço o país.

Uma visão que impediria os protestos e a confusão que a Copa têm causado?
Os protestos têm sua razão e é bom os outros saberem que o Brasil é uma democracia, um lugar onde as pessoas podem pensar diferente. Mas estou convencido de que o povo brasileiro não é contra a Copa do Mundo, mas contra a maneira como foi feita a Copa. Só que chegamos a um ponto em que é a oportunidade do país de mostrar a cara, a imagem. Depois do Mundial teremos de analisar o que foi feito.

O senhor vem para a abertura. Como acha que encontrará o país?


O objetivo de agora é fazer de tudo para mostrar a boa imagem do Brasil. Estou convencido de que, dentro dos estádios, vai ser fantástico. Teremos as melhores equipes do mundo, todos os campeões mundiais, e com uma disputa muito aberta. Não estou no Brasil para saber como será do lado de fora, mas espero e acredito que não haja violência.

A sua passagem pelo país também deve ter um teor político…
Claro, quero reencontrar pessoas. Desde janeiro, eu envio uma carta mensal a todas as confederações. E essa carta também fica no meu site porque quero fazer uma campanha totalmente aberta, democrática, porque o futebol pertence ao povo.

O senhor realmente acha que pode derrotar o Blatter?


Não sou arrogante, mas não teria decidido me candidatar se soubesse que não teria chances. Não vou dizer que sou o mais forte porque é um processo democrático. Não tenho certeza do que vai acontecer, mas os contatos que tenho recebido foram muito positivos.

Incluindo o apoio do Pelé…
Sim, tenho esse privilégio. Quando tinha 12 anos, pude ver o Pelé e o Rivelino jogarem a Copa do Mundo de 1970 e isso me marcou. Depois, quando trabalhei em Brasília, o Pelé foi ministro extraordinário do Esporte e tivemos um trabalho em comum, em que traçamos uma amizade. Também trabalhamos juntos quando eu estava na Fifa. Um dia, ele disse que, se eu me candidatasse, ele iria me apoiar. É uma honra e um peso porque não posso decepcionar o rei do futebol.

Isso quer dizer que o senhor torce um pouquinho para o Brasil?
Eu torço para o St. Etienne desde criança, mas quando tinha 14 anos fui a Barcelona e uns amigos me levaram para ver um jogo no Camp Nou. Foi como entrar em uma catedral, inesquecível. Desde então me divido entre as duas paixões.

E gosta de Neymar?


Não gosto de comentar porque estou me candidatando a um cargo sério (risos). Mas, como torcedor, como amador do futebol, acho o Neymar um jogador fantástico, com uma qualidade de drible que ninguém tem. E, o melhor, ele tem uma cabeça boa.

Ele pode ser o cara da Copa?


Vai ser uma Copa do Mundo aberta, não tenho a menor ideia do que vai acontecer. Mas vou dar uma de comentarista. A Alemanha vem muito forte, mas os jogadores do Bayern de Munique foram eliminados pelo Real Madrid e precisamos ver qual o emocional do time. A Espanha está envelhecida e temos também cinco equipes da África que ganharam experiência. A Argentina vem forte com o Messi, mas o Brasil está em casa. A França, o meu país, não é favorito, mas sempre vou acreditar.

Recentemente, vários jogadores foram vítimas de racismo. É mais um problema para se preocupar durante a Copa?


É inaceitável. Morei nesse país que tem toda a miscigenação. Só existe uma raça humana, e a cor da pele não tem importância. O racismo é um exemplo da estupidez, e o futebol, como maior atividade humana, tem de combater tudo. O nosso mundo é cada dia menor, mais próximo, mas essa discriminação continua. O que posso dizer é que, no vestiário, não há cor ou religião que diferencie. Só a qualidade com a bola.


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