Insatisfação com Mundial incendeia discussão política entre candidatos

Insatisfação com Mundial incendeia discussão política entre candidatos Se, por um lado, Felipão diz que os jogadores “não estão nem aí” para manifestações contra o torneio, por outro, presidenciáveis e lideranças partidárias discutem os gastos em torno do evento. Grupo cerca ônibus da Seleção no Rio

Policiais tentam dissipar protesto de professores em greve, no Rio, durante a apresentação da Seleção Brasileira em um hotel nas proximidades do Aeroporto do Galeão
Conhecido como o país do futebol, o Brasil recebeu nessa segunda-feira (26/5) a seleção que brigará pelo sexto título da Copa do Mundo com vaias e protestos contra os investimentos do poder público no evento. O desinteresse de parcela dos brasileiros no evento, as manifestações e a declaração do ex-jogador Ronaldo Nazário — de que se sente envergonhado com atrasos e fracassos de obras para o Mundial — colocaram fogo na disputa política em torno do evento e levaram a Copa ao centro das eleições de 2014. Enquanto a presidente Dilma Rousseff minimizou a declaração do ex-atacante e o técnico Luiz Felipe Scolari disse que os jogadores “não estão nem aí” para os protestos, o pré-candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, pegou carona nas críticas de Ronaldo e alfinetou o governo.

Depois de dizer que não vê motivos para os brasileiros se envergonharem da Copa, em resposta a Ronaldo no domingo (25/5), Dilma disse ontem que não ficou chateada com as lamentações do ex-jogador. Deixou os ataques para o PT. O secretário de comunicação do partido, José Américo, disse que, ao desgastar o governo federal com a declaração, Ronaldo tem a intenção de ajudar a campanha do pré-candidato do PSDB à Presidência, senador Aécio Neves (MG), de quem é amigo há 15 anos. “É ruim preparar o terreno dessa forma. É como alguém que tenta se dissociar na reta final para evitar qualquer tipo de desgaste”, afirmou.

José Américo se refere ao fato de Ronaldo também fazer parte da equipe de preparação do país para a Copa, como integrante do Comitê Organizador Local (COL), ligado à Fifa. Em 2011, o ex-atacante também causou polêmica ao dizer que “Copa não se faz com hospitais”, em resposta às críticas aos atrasos em obras para saúde e outras áreas. O vídeo com a declaração foi divulgado em meio às manifestações de junho do ano passado, o que desgastou o ex-jogador. Ontem, Ronaldo também virou alvo do ex-atacante Romário. “Todo mundo sabe minhas bandeiras e minhas colocações. Não mudo meu lado dependendo de como está o jogo”, ironizou, ao ser questionado sobre a declaração do colega.

Enquanto desagradou aos petistas, Ronaldo deu combustível aos tucanos. Ontem, Aécio disse que o ex-atacante da seleção brasileira “não fala sozinho” ao reclamar dos atrasos, mas negou conotação política na declaração do ex-jogador. “O Ronaldo, na verdade, externou um sentimento com sinceridade, dele, pessoal, não político, fez isso de forma muito clara, como cidadão. E eu acho que ele não fala sozinho“, declarou.

“Nas urnas”
Na esteira dos movimentos grevistas e protestos contra a Copa, cerca de 200 pessoas aproveitaram a apresentação da Seleção para protestar. A manifestação começou em frente ao hotel onde os jogadores se encontraram, próximo ao Aeroporto Internacional Tom Jobim, para seguir a Teresópolis. Uma faixa, com a mensagem “S.O.S. Educação. Negociação já!”, foi estendida. No ônibus, que levou a equipe da capital à Granja Comary, foram colados adesivos, com a frase “Não vai ter Copa”.

O grupo dificultou a saída da Seleção ao rodear o ônibus, que precisou buscar um atalho na estrada para subir a serra e se apresentar, com um pequeno atraso, ao técnico Luiz Felipe Scolari. Na chegada à Granja Comary, além de mais professores, outras pessoas também protestaram, pedindo moradias para desabrigados de enchentes. Mas, na cidade, também houve quem recebesse os jogadores com festa.

Os professores das redes estadual e municipal do Rio estão em greve desde 12 de maio. Eles pedem 20% de aumento salarial, um terço do tempo para planejamento de aulas, concursos para a categoria e redução da carga horária para 30 horas para os funcionários.

Ao jornal O Estado de S.Paulo, o técnico Felipão disse que os protestos “não respingam nada na Seleção”. “Nada mesmo. Os jogadores não estão nem aí para isso, embora tenham se manifestado pelas redes sociais na Copa das Confederações, no ano passado. Eles vão ali para jogar bola”, disse, acrescentando que quem tem de cuidar das manifestações são “a polícia e o governo”.

O treinador da Seleção Brasileira disse que é precipitado protestar antes da Copa. “Você vai me dizer: ‘Ah, Felipão! Você não é um cidadão?’. Sou um cidadão sim, só que tenho de pensar que, se eu posso me manifestar, será depois da Copa. Quando eu sair da Copa, encerrar meus compromissos, eu posso dizer: gostei ou não gostei. E no dia 5 de outubro (dia das eleições), expressar isso nas urnas.”

O coordenador técnico da seleção, Carlos Alberto Parreira, minimizou o cerco ao ônibus da equipe ontem. “Cada um interpreta da maneira que lhe interessar. Houve um contratempo lá no início, com 200 pessoas, no máximo. Mas tenho certeza absoluta de que a seleção é um patrimônio cultural e esportivo do povo brasileiro e será apoiada. Ninguém está contra a seleção. A prova foi dada de maneira inequívoca. O coronel nos disse que o povo apoiou o tempo todo. Não houve manifestação, vandalismo, nenhum tipo de problema”, disse.

Apoio declarado
Depois de dizer que sente vergonha da preparação do Brasil para a Copa, o ex-jogador Ronaldo Nazário declarou apoio ao pré-candidato do PSDB à Presidência, senador Aécio Neves (MG). “Sou amigo do Aécio. Conheci a presidente Dilma, tenho uma ótima relação com ela. Mas minha amizade com o Aécio tem 15 anos. Ele foi o único cara que eu apoiei publicamente. Apoiei para governador de Minas e aí ele fez um excelente trabalho. Sempre tivemos uma forte amizade e agora vou apoiá-lo. É meu amigo, confio nele e acho que é uma ótima opção para mudar o país”, disse ao jornal Valor Econômico, em entrevista publicada ontem.

Memória
Lado a lado com a política

Copa do Mundo e política sempre andaram juntas no Brasil. Desde a redemocratização, todos os Mundiais (que ocorrem a cada quatro anos) coincidiram com às eleições presidenciais, com exceção do pleito de 1989, quando Fernando Collor foi eleito. No país, coube à política eternizar momentos da Seleção Brasileira. Entre as imagens marcantes estão a cambalhota do meio-campista Vampeta na rampa do Palácio do Planalto, a polêmica distribuição de fuscas aos campeões de 1970 e a demissão do técnico João Saldanha, considerado comunista pelo governo militar.

Em 1958, Juscelino Kubitschek aproveitou a conquista da primeira Copa do Mundo pelo Brasil para potencializar o chamado “notável desenvolvimento econômico”. Quatro anos depois, a Seleção Brasileira conquistou o bicampeonato, em meio a uma instabilidade política. Presidente na ocasião do título de 1962, João Goulart acabara deposto em 1964, no golpe militar.

Na Copa de 1970, o Brasil ergueu o tricampeonato sem o treinador João Saldanha, demitido pouco antes do Mundial por ser “simpatizante” do comunismo. Há quem diga que a queda dele tenha relação com o fato de que não teria atendido pedido do presidente Médici para escalar o jogador Dadá. Em 1994, Itamar Franco era o presidente. O Brasil foi tetra e, embalado pela criação do Plano Real, ele conseguiu eleger o sucessor Fernando Henrique Cardoso. Em 2002, a Seleção faturou penta, mas o então presidente FHC não conseguiu eleger o aliado José Serra.


Correios Brasiliense 27/05/2014

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