Falta de energia: Sinônimo de prejuízo no campo

Rayane Fernandes

Especial para o Jornal de Brasília

No Distrito Federal, o período chuvoso é sinônimo de uma preocupação: o risco de faltar energia. Os apagões durante e depois das chuvas são comuns na capital. E, como consequência, vem a insatisfação do consumidor. Esse descontentamento foi percebido em pesquisa da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel): a Companhia Energética de Brasília (CEB) recebeu a pior avaliação desde 2005, com 58,93 pontos. A CEB está em 22º lugar entre 63 empresas.

Foram ouvidos 320 moradores de Taguatinga, Sobradinho, Riacho Fundo, São Sebastião, Lago Sul, Brazlândia e Plano Piloto. E o problema não se restringe às áreas urbanas. A zona rural – 70% do território brasiliense – sofre, e muito, com os apagões.

Produtores rurais têm grandes prejuízos por não conseguirem manter a qualidade dos produtos. Por vezes, perdem tudo. Pequenos produtores são os mais afetados, pois não têm condições de comprar geradores, e assim evitar perdas.

Ao todo, 87.950 pessoas moram em área rural. Destas, 6,7 mil são empreendedores familiares, 9,7 mil empreendedores patronais e 13,5 mil trabalhadores rurais. Em consequência da queda de luz, também há falta de água. Isso porque os poços artesianos necessitam de energia para ligar a bomba e fazer a distribuição da água.

Vulnerabilidade
A falta de luz é recorrente porque, segundo a CEB, as redes aéreas que alimentam todo o DF e as regiões rurais são mais vulneráveis à ação das chuvas, principalmente quando acompanhadas de ventos fortes e descargas elétricas. As áreas rurais são ainda mais suscetíveis a falhas, por conta da arborização. Com isso, as redes elétricas tendem a ser atingidas mais facilmente por galhos de árvore, causando curto-circuito.

O tempo de atendimento a essas regiões varia. Segundo a CEB, tudo depende do tipo de defeito e da dificuldade de acesso ao local. Na zona rural, as redes são mais extensas e as unidades consumidoras, mais distantes umas das outras. Muitas passam dentro de fazendas.

A instabilidade da rede


Um dos moradores prejudicados é o produtor rural Avay Miranda Junior, que já perdeu cerca de mil pés de alface, 300 pés de manjericão e cem pés de tomate cereja, por causa da falta de energia. Segundo o morador do Altiplano Leste, perto do Lago Sul, nem sempre o problema é causado por quedas de árvores na rede. “É só chover ou trovejar que a energia cai. A instabilidade do fornecimento é grande”, contou.
Há quatro anos morando na região, Avay produz cerca de cinco mil pés de alface por mês e precisa da energia elétrica para que as plantas tenham um bom desenvolvimento. Isso porque ele utiliza a técnica hidropônica, pela qual as plantas são cultivadas sem solo e as raízes recebem uma solução balanceada que contém água e nutrientes essenciais ao desenvolvimento da planta. “Tenho bomba d’água que circula no pé das plantas. Para isso, tem que ter energia”, esclarece.

Por causa da falta de luz constante, o produtor comprou um gerador, na tentativa de evitar grandes perdas. “Mesmo com gerador, eu ainda perco cerca de 30% da minha produção. Se eu não tivesse gerador, eu teria perda total”, disse.
“Usar gerador por um dia, até consigo. Mas sete dias?”, indagou. Para ele, a decisão de descartar as plantas que morrem por conta desse problema é muito difícil, mas é uma decisão necessária. A principal produção de Avay é de alface, mas ele também cultiva cheiro verde, manjericão, cebolinha e agrião.

Quando não existem alternativas


Para o engenheiro eletricista da CEB Marcus Fontana, se existem produtores que necessitam de energia elétrica para produção ou criação, eles devem adotar outros meios além da energia oferecida pela companhia. “Dependendo da carga que ele precisa, tem que ter gerador ou um no break, equipamento que opera durante a falta de energia”, argumenta.
Mas muitos empreendedores alegam que não têm condições de comprar um gerador. É o caso do produtor de leite do Núcleo Rural Chapada, em São Sebastião, Rivaldo José Gonçalves. “Eu tive que comprar uma ordenhadeira para me ajudar, porque não estava dando conta sozinho. Comprar um gerador agora está bem complicado”, contou. No meio do ano, Rivaldo perdeu 400 litros de leite por conta do problema e teve um prejuízo de R$ 350.
transtorno
Se ficar sem energia, o produtor enfrentará vários transtornos. O pior deles é a falta de refrigeração adequada. “O leite sai da vaca a uma temperatura de 32 ºC. O que guardo no freezer fica em uma temperatura de 3 ºC. Se eu não consigo deixar o leite com essa temperatura, ele perde a qualidade e eu ganho menos dinheiro”, explicou. Rivaldo depende exclusivamente da renda da produção para sobreviver.

Além disso, a energia mantém a cerca elétrica, que tem papel importante para a produção. “A cerca não permite que as vacas saiam arrebentando tudo”, explicou. Sem energia, o produtor também fica sem água, e não tem como hidratar os animais.
Com todo esse problema, o medo de perder tudo prevalece. “Quando há greve na CEB, ficamos com o coração na mão, porque se acabar a energia, não sei como vou fazer para manter minha produção”, ressaltou. “Enquanto não dá para comprar um gerador, só torço para que a luz não acabe”, disse.

A edição digital traz a reportagem completa, acesse www.jornaldebrasilia.com.br/edicaodigital.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília

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