Facebook é “monstro de vigilância”, diz guru do software livre



Richard Stalman se coloca contra quase todo o tipo de entrega de dados pessoais a instituiçõesFoto: Tárlis Scheider / Divulgação

Déborah SalvesDireto de Porto Alegre

Richard Stallman, criador do GNU e da Fundação Software Livre (FSF), defende uma internet sem vigilância, e repete o argumento à exaustão. Um dos palestrantes desta sexta-feira do Fórum Internacional Software Livre (fisl), maior evento do setor na América Latina que vai até este sábado em Porto Alegre, ele insiste que a web só é útil se for livre.

O Facebook, para Stallman, é um monstro de vigilância pelos dados que armazena dos usuários. “E por isso eu sugiro fortemente que vocês não o usem”, completa o criador da FSF.

“Mas como um sistema de vigilância, a web é muito perigosa”, diz. Stallman se coloca contra quase todo o tipo de entrega de dados pessoais a instituições, e menciona o escândalo da vigilância de massa da NSA e do governo americano como prova de que as pessoas não devem confiar seus dados a empresas.

“Não entro na internet do meu computador, uso o computador de outra pessoa para navegar. Assim, não permito que associem nada a mim. Do meu computador só acesso sites que são realmente associados comigo”, conta. Cartão de crédito, ele continua, só para comprar passagens aéreas – “porque as companhias vão querer saber meu nome, de qualquer modo”.

Celular, o guru do software livre também não tem. “Porque o celular rastreia você o tempo todo. Afinal, a operadora precisa saber onde você está para lhe direcionar a ligação”, explica. O defensor da liberdade digital relata que chegou a pensar em uma forma de fazer essa conexão sem precisar ser rastreado. “Pensei em carregar uma antena parabólica, me conectava a uma torre distante e fazia a ligação. Mas também se houvesse duas torres próximas seria possível triangular minha posição, ia ficar difícil saber se a torre à qual eu estava conectando era isolada ou fiava próxima de outra”, diz.

Para Stallman, a luta por uma web livre passa pela exigência de que dados pessoais não sejam exigidos. “Se um conteúdo só é acessível a usuários cadastrados, não é acessível pra mim, porque não quero que saibam o que estou lendo. Não sou contra pagar por um conteúdo, mas deve haver uma forma de esse pagamento ser anônimo”, defende.

Stalman posa para foto ao lado dos mascotes do software livreFoto: Guilherme Dias / Divulgação

O criador do GNU, sistema operacional tipo Unix que deu origem ao Linux, acredita que a vigilância digital é uma estratégia do governo para que os cidadãos parem de vigiar as instituições públicas. “Ficamos sabendo o que o governo faz quando alguém denuncia. Se o governo consegue rastrear digitalmente qualquer pessoa, quem vai (ter coragem de)denunciar?”, detalha. “Os Estados Unidos não medem esforços para fabricar evidencias”, exemplifica.
“Softwares que controlam os usuários são uma ameaça, mas há outras, como a vigilância em massa”, alerta. O argumento é o mesmo que usa para questionar a ideia da internet como um ambiente democrático. “É ambíguo. Por um lado, você pode dizer algo e as pessoas podem prestar atenção mesmo que você não seja famoso. Por outro, você tem empresas coletando muitos dados, e isso não é democrático”, detalha.

A inclusão social passa pela mesma questão. “Se você tem um mundo digital livre, é ótimo participar dele. Mas se não é livre – e isso é o que a NSA e os softwares proprietários dão a você -, então em vez de inclusão é melhor procurar uma fuga digital”, compara.

É por isso que Stallman defende que a luta vá além do software livre, em direção a uma sociedade digital livre. O guru reclama que a maioria dos softwares são maliciosos. “Há três formas de ser malicioso: coletar dados, abrir uma porta dos fundos (backdoor) e impôr restrições. Todos o programas da Microsoft fazem as três coisas. A Amazon faz as três coisas. O Angry Birds coleta seus dados de localização. A maioria dos dispositivos móveis tem uma backdoor, e acaba virando um aparelho de escuta”, enumera.

Questionado sobre o potencial social que a rede poderia ter para agregar cidadãos, como nos recentes protestos no Brasil, Stallmann é taxativo: “precisamos ter um limite. Não podemos concordar em ser tratados enganosamente só para tentar atingir um objetivo”

O programador ainda se coloca contra os anúncios digitais. “No jornal, é uma escolha sua ler ou não ler. Mas online é baseado em vigilância e é usado para isso”, argumenta.

“Precisamos pensar em como poderíamos ter uma internet sem precisar entregar tantos dados pessoais”, reforça Stallmann, finalizado.


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