Evangélicos dão demonstração de poder em inauguração de templo


Evangélicos dão demonstração de poder em inauguração de templo
Na presença de Dilma Rousseff, Igreja Universal inaugura nesta quinta na capital paulista o Templo de Salomão, que ocupa um quarteirão inteiro e custou R$ 680 milhões
por Juliana Bublitz

A imponência do Templo de Salomão também simboliza a influência política dos fiéisFoto: Miguel SCHINCARIO/AFP / AFP

Os evangélicos pentecostais darão nesta quinta-feira, em São Paulo, uma demonstração de força. Na presença de candidatos de olho nos votos de milhares de fiéis, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) inaugura uma obra faraônica no coração da capital paulista.

Com capacidade para 10 mil pessoas, o Templo de Salomão custou R$ 680 milhões, estende-se por uma quadra e tornou-se alvo de investigação do Ministério Público (MP) por suspeita de fraude. Para a construção, a IURD apresentou à prefeitura um pedido de reforma de um prédio antigo, e não de construção de uma nova edificação, o que, conforme o MP, pode resultar em ação demolitória. O local é considerado sagrado pelo bispo e empresário Edir Macedo, fundador da denominação que tem mais de 1,8 milhão de adeptos no país.

Não à toa, a inauguração promete ser um desfile de políticos e autoridades. Além de Dilma Rousseff, foram convidados governadores, deputados, senadores e até ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Integrantes do Partido Republicano Brasileiro (PRB), que reúne membros da Universal, também devem comparecer em massa.

O prestígio tem explicação. Nos últimos anos, a presença de evangélicos vem aumentando no Brasil – segundo o IBGE, representam cerca de 22% da população. Além disso, as igrejas pentecostais contam com um arsenal midiático que potencializa seu alcance.

Para o cientista político Antonio Lavareda, é natural a atenção crescente dos políticos à Universal.

– O interesse decorre não só do peso demográfico que esse eleitorado assume, mas do estilo de sua confissão religiosa, que se caracteriza por uma influência maior de seus pastores e bispos, se comparada aos católicos – diz Lavareda.

Embora o segmento tenha representantes em diferentes siglas, três delas concentram os líderes pentecostais: PRB, PR e PSC. Dilma garantiu o apoio dos dois primeiros. Já o PSC concorre em voo solo.

Dimensões faraônicas

O prédio: 11 pavimentos com espaços para escolas bíblicas capazes de acomodar 1,3 mil crianças, estúdios de rádio e TV, auditório e ala de hospedagem para pastores
Localização: Avenida Celso Garcia, 605, Brás, São Paulo
Capacidade: cerca de 10 mil pessoas sentadas
Estacionamento: 1,2 mil vagas
Área construída no complexo: cerca de 74 mil m²
Altura: 56 metros sobre a superfície e sete metros no subsolo
Volume de concreto: cerca de 28 mil m³
Quantidade de aço: cerca de 2 mil toneladas
Custo: R$ 680 milhões

Para comparar

Templo de Salomão: 56 metros de altura, 104 metros de largura e 126 metros de comprimento
Cristo Redentor (sem o pedestal): 30 metros
Catedral Metropolitana de Porto Alegre: 65 metros de altura (cúpula), 47 metros de largura e 80 metros de comprimento
Basílica de Aparecida: 80 metros de altura (cúpula), 173 metros de comprimento, 168 metros de largura e área coberta aproximada de 18 mil metros quadrados

Um rei sábio e justo

A obra em São Paulo é inspirada no Templo de Salomão, construído há 3 mil anos em Jerusalém. A construção original não existe mais.

O rei Salomão, que ergueu o templo para cerimônias judaicas, era filho do rei Davi e entrou para a história como governante justo.

Certa vez, duas mulheres diziam ser a mãe de um menino. O rei ordenou que ele fosse cortado ao meio e que cada mulher recebesse metade. Uma delas disse que preferia que o menino fosse dado à outra, para não vê-lo morrer. Salomão, então, disse que esta era a verdadeira mãe.

Crentes nas urnas

Partido Republicano Brasileiro (PRB)
Tem entre os filiados representantes da Igreja Universal. Conta com 10 deputados federais e um senador, além de um deputado estadual no RS.
Quem apoia
Para presidente: Dilma Rousseff (PT)
Para governador: Ana Amélia (PP)

Partido Social Cristão (PSC)
Ligado a pastores da Assembleia de Deus e de outras igrejas pentecostais, como a do Evangelho Quadrangular. Lançou o Pastor Everaldo como candidato a presidente. Tem 12 deputados, entre os quais Marco Feliciano (SP).
Quem apoia
Para presidente: Pastor Everaldo (PSC)
Para governador: Vieira da Cunha (PDT)

Partido da República (PR)
Ligado à Assembleia de Deus e às igrejas Batista e Presbiteriana. Inclui 32 deputados federais e quatro senadores. Entre os expoentes está o ex-governador do Rio, Anthony Garotinho.
Quem apoia
Para presidente: Dilma Rousseff (PT)
Para governador: Tarso Genro (PT)

Outros partidos
A influência evangélica não se restringe a PRB, PSC e PR. Há representantes em praticamente todas as siglas. Uma mostra disso é a eclética Frente Parlamentar Evangélica no Congresso.

No RS, siglas evangélicas são pequenas, mas apoio é disputado

A presença dos evangélicos na política é menor no Estado, se comparada ao fenômeno observado no cenário nacional – só na Câmara Federal, por exemplo, o segmento domina 15% das vagas. Dos três partidos que concentram pastores e bispos no país, apenas o PRB tem representante na Assembleia Legislativa gaúcha: o deputado estadual Carlos Gomes.

Isso não significa que o potencial dessas siglas seja desprezado.

– Não dá para subestimar o poder do neopentecostalismo, principalmente da Igreja Universal. Ela tem votos cativos, sabe exatamente qual é seu capital político e como mobilizá-lo, sobretudo em nível local e regional – diz o antropólogo Ari Pedro Oro, da UFRGS.

O apoio de PRB, PR e PSC foi alvo de disputa acirrada entre os candidatos ao governo do Estado. No fim, acabou dividido entre Ana Amélia Lemos (PP), que conseguiu a adesão do PRB, Tarso Genro (PT), apoiado pelo PR, e Vieira da Cunha (PDT), coligado ao PSC.

– A força dessas siglas não é desprezível. Primeiro, pelo que representam em tempo de rádio e TV. Segundo, pela ligação de algumas com meios de comunicação – afirma o cientista político Benedito Tadeu César.

“É uma força religiosa, midiática e política poderosa”, diz especialista

Professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Mariano considera crescente a influência das igrejas pentecostais no cenário eleitoral. Ele pesquisa o movimento pentecostal no Brasil e a atuação política dos evangélicos há décadas.

Na sua opinião, até que ponto a religião influencia o voto dos brasileiros?
Há pesquisas mostrando que as igrejas evangélicas, sobretudo as pentecostais, influenciam mais o voto dos fiéis do que a Igreja Católica. Uma das razões para isso é o fato de que a Igreja Católica não costuma orientar a escolha de um determinado candidato ou partido, ao contrário do que fazem várias igrejas pentecostais.

Quando começou o fenômeno?
Até o fim dos anos 1970, a maioria das igrejas pentecostais se opunha à participação política. Nos anos 1980, com a nova Constituição, isso mudou. A Assembleia de Deus disseminou o boato de que a Igreja Católica pretendia tornar o catolicismo religião oficial do país, o que resultaria em perseguições religiosas. Por isso, decidiu participar da escrita da nova Carta Magna, mobilizando o rebanho. Deu resultado. Em 1982, os pentecostais tinham dois deputados federais. Em 1986, elegeram 18. Foi o grande marco de ingresso deles na política.

Como isso evoluiu?


Desde então, a participação desse segmento só cresceu. Hoje, é quase 25% da população brasileira e domina 15% do Congresso. É uma força religiosa, midiática e política poderosa. A Igreja Universal tem até um partido, sem contar a presença de pentecostais em praticamente todas as legendas. Então, não interessa se Dilma, ou seja quem for, tem ojeriza a isso, por ser ateu ou agnóstico. É preciso lidar politicamente com esse segmento.

Existe possibilidade de os fieis serem influenciados pela igreja?
Em parte, sim. Comparando com outras religiões, eles dispõem de capacidade muito maior de transformar o rebanho em curral eleitoral.


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