Estrutura que coloca a segurança em jogo


Patrícia Fernandes

Para um ensino de qualidade, um pilar importante é a estrutura física, diretamente associada ao bom desempenho escolar e imprescindível para garantir a segurança durante as aulas. Mas a precariedade acompanha a educação pública no Distrito Federal há muito tempo. Um exemplo preocupante disso ocorreu na última sexta-feira. Na Escola Classe 619 de Samambaia Norte, um aluno se feriu depois que uma tabela de basquete caiu sobre ele durante a aula de Educação Física. O acidente acendeu o debate sobre as condições das quadras esportivas da escolas públicas da capital federal. O Jornal de Brasília percorreu algumas unidades e encontrou um cenário desolador.

A infraestrutura da maioria das escolas está longe de ser considerada razoável. Segundo especialistas, esse fator pode comprometer diretamente o processo de aprendizagem. Muitas escolas apresentam quadras sem reforma, com equipamentos insuficientes ou extremamente defasados, que oferecem sérios riscos aos alunos.
Outras, no entanto, sequer têm quadras esportivas e muitos professores são obrigados a se desdobrar para ministrar a disciplina de Educação Física, obrigatória no currículo escolar.

Susto

Era para ser mais uma aula de Educação Física no Centro Educacional 619. Contudo, a falta de manutenção da quadra de esportes por pouco não provocou a morte do aluno Adriano Medeiros de Almeida, 17 anos. O jovem teve a boca, o olho esquerdo e parte do rosto atingidos pela tabela de basquete. Com o acidente, o jovem perdeu três dentes superiores. Os inferiores ficaram deformados.

Segundo Adriano, no momento em que a tabela caiu em suas costas, o medo da morte tomou conta de seus pensamentos. “Eu estava jogando futebol, aí eu segurei lá (na tabela), mas não imaginava que ia cair. Aí, na hora em que eu segurei, o negócio caiu em cima das minhas costas. Tive muito medo da morte. Só pensava nisso”, relembra o estudante, ainda impressionado com o que passou.

Sem amparo
Diante do ocorrido, a família alega não ter recebido amparo do governo. “Achei que ele estivesse em segurança dentro da escola, mas pelo visto estava errada”, afirma a avó do garoto, a auxiliar de serviços gerais Maria de Fátima Quirino, que completa: “Fiquei desesperada quando vi o estado em que ele se encontrava. Além disso, foi muito difícil arcar com todas as despesas. Não recebi auxílio para comprar remédios e muito menos para os exames”, denuncia.

Ponto de Vista

Para o pedagogo Cleber Alencar de Araújo, a falta de estrutura física adequada propicia o surgimento de ambientes violentos. “A escola com aspecto de abandono se transforma em terra de ninguém. Isso, sem dúvida, reforça as ações violentas e a inserção no universo da criminalidade”, pontua. Ele destaca que os espaços para educação física não recebem a atenção devida. “Percebo que essa matéria é, muitas vezes, negligenciada. Não existem muitos investimentos voltados a esse setor, que é tratado como atividade de entretenimento. Entretanto, essa visão é equivocada, pois o esporte desempenha papel fundamental na formação dos jovens”, avalia.

Denúncias sobre falta de manutenção

Além da falta de amparo após o acidente do aluno Adriano Medeiros, a avó dele, Maria de Fátima, relata que pode ter ocorrido omissão de socorro. “Pelo que me contaram, quem chamou a ambulância foram os outros estudantes. O Samu não queria vir, porque não era caso de ataque cardíaco. Então, quem levou o Adriano para o hospital foi o Corpo de Bombeiros”, disse.

Sem ajuda do governo, a avó do garoto declara que não sabe como dará continuidade ao tratamento do neto. “Sou responsável pelo sustento de mais seis netos e três filhos e ganho apenas R$ 800 por mês. Os remédios são caros, esse tipo de tratamento também. Não sei como vou fazer isso”, confessa.
De acordo com Maria de Fátima, Adriano retiraria, dentro de poucos meses, o aparelho ortodôntico que usa há dois anos. Segundo ela, graças aos amigos do garoto foi possível recuperar os dentes que caíram. “Os médicos conseguiram reimplantá-los”, conta.

A precariedade do local já era motivo de preocupação na escola. De acordo com o diretor Tomaz Edson, a instituição havia procurado a Secretaria de Educação diversas vezes. “A secretaria demora muito para responder e fazer algo. Eles chegam para fazer pequenos reparos e, há três semanas, vistoriaram as partes elétrica e hidráulica nas salas. Mas, na quadra, nunca fizeram nada”, relata o diretor.

Taguatinga

A realidade de outras escolas mostra que o caso da EC 619 não é isolado. No Centro Educacional 6 de Taguatinga, por exemplo, a quadra de esportes tem 20 anos de existência e nunca passou uma reforma completa.
“Tem um ano que assumi a direção e nunca fizeram sequer uma vistoria das condições da quadra. Nós tentamos mantê-la sempre em condições de uso, mas é preciso uma análise técnica”, afirma a vice-diretora da instituição, Janice Aparecida de Araújo.

Segundo ela, o acidente em Samambaia serve de alerta para todas as unidades de ensino. “A impressão que temos é de que só depois de um acontecimento como esse, as providências são tomadas. Isso parece ser da cultura do brasileiro”, lamenta.

Janice assegura que a partir de agora os cuidados serão ainda maiores. “Vamos reforçar ainda mais a atenção. Contudo, é essencial que exista uma vistoria periódica para verificar as condições dos equipamentos”, reforça.

Pense nisso

É, no mínimo, contraditório encontrar essa situação nas quadras das escolas públicas de uma cidade que vai sediar a Copa do Mundo. Isso porque o mesmo investimento bilionário destinado ao Estádio Mané Garrincha não é feito para atender os estudantes. Afinal, nas escolas, quem sabe, poderiam surgir grandes craques. Mais do que incentivar atletas, fornecer estrutura de qualidade motiva os alunos, proporciona bem-estar, qualidade de vida, saúde. Trata-se, simplesmente, do cumprimento dos direitos fundamentais do cidadão.

Diretores cobram atitude do GDF

Em outra escola pública, o Centro Educacional 5 de Taguatinga, a situação é semelhante. Com estrutura física extremamente precária e ausência de iluminação, a quadra de esportes está longe de atender a demanda de alunos.
“A nossa quadra nunca passou por uma grande reforma estrutural e muito menos conta com manutenção técnica. Depois do que aconteceu em Samambaia, nosso receio é ainda maior. Espero que tomem alguma atitude”, argumenta Verônica Antônia de Oliveira, diretora da escola.

Desgaste
A falta de manutenção, além de prejudicar o andamento das aulas de Educação Física, faz com que a prática esportiva represente risco aos estudantes. No Centro Educacional 5 de Taguatinga, a tabela de basquete conta com evidentes sinais de desgaste.

“Para garantir a segurança necessária, eu acredito que o ideal seria que a manutenção fosse feita no mínimo uma vez por ano. Como são serviços de certa durabilidade, suponho que esse intervalo de tempo seja suficiente”, acredita a professora de Educação Física do colégio, Carla de Oliveira.

Diante da falta de reparos nas quadras esportivas, o diretor do Centro de Ensino Fundamental 12 de Taguatinga, Moisés Lucas dos Santos, destaca o papel da direção para que as ações sejam desempenhadas com êxito. “Os gestores conhecem as necessidades e precisam lutar por mudanças. Não adianta ficar apenas sentado no posto reclamando. É preciso ir à luta e cobrar atitudes da Secretaria de Educação”, reconhece.

Contudo, o diretor frisa que as mudanças necessitam de muito esforço. “É complicado mexer na estrutura física. É preciso autorização do governo e uma grande reforma requer muitas vezes uma licitação”, expõe Moisés.

A redação do Jornal de Brasília entrou em contato com a GDF para falar sobre o estado das quadras esportivas e saber se a família do estudante envolvido no acidente receberá auxílio para arcar com as despesas do tratamento. Entretanto, até o fechamento da edição, não obteve resposta.

Fonte: Da redação do clicabrasilia.com.br

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