ESPECIAL: Pedro, um dos garis heróis, relata dia a dia a greve dos garis


Diversas análises sobre a greve que tomou as ruas do Rio de Janeiro, furando o bloqueio da mídia e derrotando o autoritarismo de Eduardo Paes e o imobilismo do sindicato, têm sido produzidas nos últimos dias. Mais do que falar sobre a greve dos garis, o Juntos! dá o espaço para que ela seja contada por quem foi de fato protagonista dessa história. Segue o relato de Pedro Wichan, um dos presentes na comissão de negociação, que conquistou com a sua garra as vitórias frente a tentativa da prefeitura criminalizar aqueles que lutam. Obrigado por lutar, garis!

Greve Histórica do Brasil: Greve dos Garis do Rio de Janeiro de 2014

por Pedro Hugo da Silva Botti Wichan – Integrante da Comissão de Greve dos Garis

Eu Pedro Hugo, Brasileiro, Carioca, conto aqui meu papel na História. Tudo começou pra mim no dia 01/03/2014 quando eu estava indo trabalhar e recebi a noticia que havia começado uma greve na empresa assinada pelo sindicato. Procurei saber o porquê e me disseram que era sobre o acordo coletivo. Os funcionários estavam insatisfeitos com o reajuste dado pela empresa, pois já se passaram anos de batalha da categoria lutando por melhores condições de trabalho e de salários.

Primeiro dia de Greve

A revolta não se deu apenas pelo acordo, mas sim pelas “falcatruas” feitas por baixo dos panos pelo sindicato, Comlurb e prefeitura.Trabalharmos debaixo do sol forte, nas chuvas fortes também e até em outros municípios que não nos competem, mas por uma questão de prestar solidariedade e de ajudar o próximo vamos sem reclamar, mesmo sem ganhar nada a mais por isso.

Assim que cheguei na gerência onde trabalho,eu conversei com os colegas sobre a greve. Eles estavam com medo, mas debateram comigo. Eles queriam trabalhar pois temiam sofrer alguma represália ou covardia de nossos chefes. Mas conversei com eles que não poderíamos ficar com medo de punição e deveríamos enfrentar o problema de frente. Depois de muita insistência de minha parte todos concordaram em aderir à greve, e então no reunimos e esperamos dentro da gerência. Às 10h soube por nota que esse acordo teria sido cancelado e que teríamos que ir ao sindicato para resolver os próximos passos da negociação. Fiquei mais revoltado ainda com a situação, pois como um Sindicato assina uma greve em um dia e a desfaz no dia seguinte? Que credibilidade esse Sindicato tem? E já não tinha nenhuma mesmo há mais de 30 anos…


Foto: Leonardo Lopes

Então chegou o assistente do gerente e informou que a greve não era válida mesmo com a comunicação do sindicato em mãos, ele disse que eu podia acreditar nele, pois o sindicato não estava nos apoiando e coagiu os colegas a voltarem a trabalhar.E eles com medo foram. Eu fui o único de minha gerência a aderir à greve. Na hora me recusei a acreditar e decidi ir ao sindicato com colegas de minha antiga gerência.Lá nos encontramos e aguardamos por mais de 2 horas alguém do sindicato aparecer para dar-nos uma explicação. E ninguém apareceu. Do sindicato seguimos em passeata pacífica até a prefeitura; nesse trajeto a polícia militar tentou nos impedir, mas conversávamos com eles sobre o que queríamos que fosse uma passeata sem brigas ou quebra-quebra, que era somente por nossos direitos. Com muita negociação avançávamos sem brigas ou palavrões; até que chegando à frente da prefeitura um policial se excedeu, pois queriam nos parar a qualquer custo. E como não estávamos brigando e sim negociando com eles ele percebeu que não havia outro jeito se não usar a força e ele a usou. Jogou uma granada e eu sem saber fiquei olhando pensando que era uma granada de gás, mas quando explodiu só deu tempo de eu fechar o olho antes de ser atingido exatamente no olho esquerdo, perto da sobrancelha e graças a Deus eu não perdi a vista, apenas fiquei com um hematoma; e também jogaram spray de pimenta na gente. E então quase perdemos a razão, pois um colega se revoltou e queria brigar com o policial que jogou a granada, “mas um enorme grupo de garis o conteve dizendo pra não fazer aquilo, pois era isso que eles queriam”. E mesmo com muita dor e inchaço na vista não parei, e continuei na manifestação. “Ninguém Vai pra Guerra Inocente.”

Foto: Carlos Latuff

O grupo seguiu gritando em alto som “COVARDE, COVARDE, COVARDE”. Depois disso o grupo seguiu se esquivando atrás dos carros alegóricos que estavam parados na Presidente Vargas até os policias pararem de nos atacar. Seguimos o protesto até a Uruguaiana e lá nos concentramos por 2 horas mais ou menos até irmos embora. No dia seguinte não fui à manifestação, pois estava com muita dor na vista. Fui ao hospital me consultar e comecei a me medicar, então a dor diminuiu e eu voltei ao terceiro dia.

Terceiro dia de Greve

No terceiro dia continuamos na luta e não fomos atendidos pelo sindicato, presidente da Comlurb ou prefeito… Continuamos a passeata sem sucesso, mas com um enorme crescimento de manifestantes a cada dia que passava, pois muitos não acreditavam na greve. Mas com o passar dos dias as pessoas passaram a acreditar e tomar coragem pra se unir na nossa luta, a população nos aplaudia, pois reconhecia a nossa passeata que era como um bloco de carnaval passando com marchinhas provocativas, mas sem palavrões ou insultos.Era uma passeata alegre, organizada, a mídia ou a imprensa anônima… Todos tiravam fotos e publicavam, sorriam pra gente… Foi uma coisa muito linda da população, foi um reconhecimento muito grande. Também foram aparecendo os parceiros que apoiaram a nossa causa como os grupos sindicais, mídias independentes, grupos de internet, advogados e estudantes universitários.

Quarto dia de Greve

No 4° dia fomos às praias de Ipanema e Leblon cantando marchinhas e brincando com o público, invadindo blocos e agradecendo a Deus.

Garis em ato na Praia do Leblon

Quinto dia de Greve

No 5°dia fomos para Sede da Comlurb onde nos deram um cansaço. Nesse dia foi formado a 1ª Comissão de Greve dos Garis.
A manifestação foi feita em frente à sede da Comlurb, e nós exigimos uma resposta da Comlurb, foi então marcada uma assembléia com os garis dentro do auditório da sede e foram escolhidos a dedo por um policial os integrantes da comissão. Eles entraram e foram chantageados com a seguinte proposta: 1° aumento de 9% no salário, R$16,00 no vale alimentação e plano odontológico e mais uns itens; e a readmissão de todos os 300 funcionários que foram demitidos. Isso foi anunciado por um dos integrantes da comissão de greve que preferiu aceitar a proposta, pois estava pensando na família dos companheiros que foram demitidos por celular e cartas.

Na hora eu gritei: a greve continua! Não vamos aceitar. E todos gritaram comigo a mesma coisa. Como pode a Comlurb demitir um monte de funcionários em mês de dissídio, em greve, por celular ou por cartas? Opressão? Chantagem emocional? “Então eu disse aos colegas: Danem-se as demissões, danem-se as faltas, cadê as provas das demissões, eu quero provas porque eles não podem demitir ninguém, eles querem que vocês pensem isso ai. Mesmo que eles façam a burrada de demitir vocês, eles terão que readmitir depois, porque ninguém passa despercebido pela lei. E não vamos fechar Acordo nenhum até que essas supostas demissões sejam retiradas; fiquem Seguros!”.E então depois de discussões a greve continuou.

Telegrama de demissão enviado pela Comlurb (Foto: Carlos Latuff)

Sexto dia de Greve

O 6° dia foi uma Grande Festa embaixo de chuva, o povo não parou e ninguém parou o Gari! Nem a chuva, nem o cansaço, todos estavam animados e os colaboradores também estavam ali sempre, todos os dias fielmente nos apoiando!
Começamos a passeata na Presidente Vargas e terminamos na Cinelândia. Compareceu o nosso Garoto Propaganda “Sorriso” que sambou e nos acompanhou até o fim da passeata desse dia. Depois demos entrevistas sobre o andamento da Greve em frente à Câmara dos Vereadores e ali cessou a passeata. Esse foi o dia com maior concentração em massa de Garis, foi muita gente e seguimos em passeata da Sede da Prefeitura até a Cinelândia. E depois seguimos para o Ministério Público do Trabalho onde aconteceram as denúncias da Greve e daí a coisa ficou feia pra eles…Ficamos da parte da tarde até a noite esperando tudo se resolver e então fomos pra casa.

Sétimo dia de Greve

E no dia seguinte chegou a notícia durante a manifestação que abririam uma exceção para nós… Abririam o Tribunal Regional do Trabalho no sábado somente para julgar e selar um Acordo! Chegando ao TRT foram chamados cinco da comissão de greve para entrar e negociar. E esses cinco foram escolhidos entre a gente. Feito isso todos os garis, colaboradores e mídias independentes aguardavam ansiosos do lado de fora.
Enquanto isso do lado de fora alguns colegas me perguntaram: “A gente pode confiar neles? O que eles vão decidir? Eles não vão fazer besteira não né?¨.
E então eu disse a eles: ¨Nós da comissão decidimos o seguinte: ninguém assina nada sem antes perguntar à Categoria o que eles acham.Se eles assinarem por pressão lá em cima e chegar aqui embaixo com uma proposta que não aceitamos a Greve vai continuar.E outra, eu confio em todos os que estão lá em cima. Eu estou despreocupado.Vamos esperar eles descerem…¨.

Ato em frente ao TRT – 8 de março

Eles desceram e foram anunciar o Acordo: eles ofereceram a gente R$ 1.050,00 de piso e R$ 20,00 por dia de vale alimentação mais benefícios. Em contraproposta a CATEGORIA decidiu em pedir o aumento de R$1.100.00, mais o vale e os benefícios. Então os Cinco da Comissão de Greve voltaram para o prédio com a contraproposta. A mesma foi aceita e foi uma Grande Vitória e uma Grande Festa para os Garis e todos os colaboradores que lá estavam na chuva Juntos!
De lá, todos os 10 da Comissão de Greve (Pedro, Célio, Willian, Jonas, Ângelo, Djavan, Bruno, Wladimir, André, Leonardo e mais duas testemunhas), todos os Garis, o Secretário Chefe da Casa Civil, Sr Pedro Paulo, o Presidente da Comlurb, Sr Vinícius Roriz, o Presidente, Sr Luciano David de Araujo e o Vice Presidente, Antônio Carlos da Silva do Sindicato dos Empregados de Empresas de Asseio e Conservação do Município do Rio de Janeiro, fomos nos encontrar com o Sr Eduardo Paes, Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro.
Chegando lá fomos muito bem recebidos pelo Prefeito e conversamos sobre o Acordo e a Greve. Foi uma ótima conversa bem dinâmica e proveitosa. Depois fomos pra casa com a Nossa Vitória e de Todo o Rio de Janeiro.

Trabalhadores quero dizer o seguinte a vocês:

1° Pra fazer Greve não precisa de Violência.
2° Organizem – se.
3° Procure Apoio e Parcerias.
4° Seja Solidário e Recíproco.
5° Não ceda e acredite na Lei. “você deve estar pensando… duvido heim, eu também penso assim”, mas se lembra lá no começo quando eu disse que a lei diz que todo trabalhador tem o direito de fazer greve independente de sindicato ou não? Quando eu disse que o funcionário não pode sofrer represália por estar reivindicando seus direitos ou por melhores condições de ganhos?
6° Interrompa qualquer Amigo que perder a cabeça. Ajude ele a se Controlar caso ele perca a cabeça.
7° Aceite Opiniões. Mas discuta-as e veja se é boa.
8° Não se deixe serem Oprimidos por Chefes, eles não vão aderir a Greve porque eles estão no lucro; por ele ter um cargo que ganha mais e por só pensar em si próprio. Pouquíssimos que tem um cargo maior vão aderir à Greve. E não deixem eles te convencerem com mentiras.
9° Não desanime porque Greve não se faz com um dia, se faz com vários dias, mesmo que for cansativo, que você não durma direito, que não dê atenção pra sua Família, LUTE por que vale a pena. Depois que a chuva passar… Vem aquele dia lindoonde você descansa da Luta. Peça o Apoio da Sua Mulher, peça pro seu Filho te compreender, peça pra sua Família te apoiar; Pois é Por ela que você está Lutando. Na Chuva fria ou No Sol quente.
10° Não vá Inocente.
11° Não acredite em todas as Mídias. Procure um Jornal ou uma Mídia Independente que seja transparente que diga a Verdade.
12° Procure negociar. Nem sempre você vai sair ganhando, procure um bom aumento, e bons benefícios. Mas dentro das possibilidades do orçamento da Empresa.
13° Deixe a Categoria Decidir. Todos têm que estar de Acordo. Não pense que você pode decidir por todos. Para que isso não aconteça monte um Grupo ou uma Comissão de Greve que tenha uma boa sincronia.
14° Cada um tem Sua Função. O Negociador, O Porta Voz, O Organizador, O Mensageiro… E etc…
15° Procure a Justiça do Trabalho. Ela se apresenta em diversas formas. MPT, TRT…

Foto: Carlos Latuff

Ainda tem muitas pedras no caminho…
Nossas Gerencias não tem bons banheiros, são muito insalubres, o Nosso Pão de Cada Dia é um Lixo! Parece que ficou guardado há dois dias antes de servi-los pra gente… E um chocolate que só nos dá dor de barriga. Tem a questão do perigo de cada função, tem coisas que podem ser melhoradas. Mas isso o Presidente Vinicius Roriz já está à parte, pois cobramos isso a ele e espero que ele cumpra!

Bom. Trabalhadores e População. Trabalhamos em um bem comum. O Bem de Cada um.
Escrevo essa Carta a cada um desse Brasil que tem uma Grande Força ainda desconhecida.
Um Abraço a Todos.

Rio de Janeiro, Domingo, 10 de Março de 2014.

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