Entrevista/Vítor Paulo:Deputado troca de eleitorado


Entrevista/Vítor Paulo:Deputado troca de eleitorado

Eleito pelo Rio de Janeiro, mas antigo morador do DF, ele cumpre missão para diversificar e ampliar a bancada do PRB

Daniel Cardozo

O deputado federal Vítor Paulo, do PRB, é candidato à reeleição. Mas não pelo Rio de Janeiro, que hoje representa, e sim pelo Distrito Federal. Garante, porém, que não há nada de estranho nisso. Afinal, ele não chegou este ano à cidade. O parlamentar foi secretário de Meio Ambiente no governo Roriz. Transferiu o título agora para cumprir missão partidária, pois o PRB sonha com uma bancada maior no Congresso. “O diretório decidiu que o DF seria a unidade escolhida. Fizemos uma pesquisa e o meu nome apareceu como o mais bem avaliado para disputar a eleição em Brasília. O partido me perguntou se eu aceitava voltar para o DF. Meus filhos estudam e foram criados aqui, tenho laços políticos mais até com Brasília do que com o meu estado”, explicou. Apesar da histórica identificação dos candidatos do PRB com o eleitorado evangélico e o deputado pertença à Igreja Universal do Reino de Deus, Vítor Paulo pretende conduzir uma candidatura que contemple todos os setores. 

Por que transferir a filiação para o DF?

Cheguei a Brasília em 1998. Sou jornalista, radialista e fui contratado por uma TV para vir para ser um dos dirigentes da emissora. Já tinha no Rio de Janeiro um envolvimento político muito grande: fui presidente da agência pública de emprego na gestão do governador Marcelo Alencar e coordenador do programa de geração de renda do governo Fernando Henrique. Com essa proximidade ao governo FHC, encontrei aqui amigos do PSDB e fui convidado a disputar a eleição de 2002. Aceitei o desafio e me desliguei da emissora dois anos antes da eleição para construir um projeto político partidário. Disputei a eleição em chapa muito difícil e fiquei na primeira suplência com mais de 10 mil votos — enquanto outros se elegiam com 7 mil ou menos, por conta da proporcionalidade. Depois disso, fui convidado pelo governador Roriz para assumir a Secretaria de Meio Ambiente. Na minha gestão, fizemos todas as licenças da Ponte JK, da pista do Aeroporto, implantação de Itapoã e da Estrutural, duas cidades muito difíceis. Fiquei aqui até 2005 e fui para o projeto de criação do PRB, indicado pelo diretório nacional para assumir a presidência do partido. No ano passado, como meu partido precisa de deputados federais, traçou meta de dobrar o número de deputados em 2014. Então começamos a ver os estados onde isso seria possível. No Rio de Janeiro, com um senador com 3,3 milhões de votos, o PRB tem essa chance. O diretório decidiu que o DF seria a unidade escolhida. Fizemos uma pesquisa e o meu nome apareceu como o mais bem avaliado para disputar a eleição em Brasília. O partido me perguntou se eu aceitaria voltar para Brasília. Meus filhos estudam e foram criados aqui, tenho mais laços políticos como Brasília do que com o meu estado, por conta de todos os anos que eu passei aqui. Conversei com a minha família e entendi que meu partido precisava de mim para enfrentar esse desafio. Sou um soldado do PRB e me coloquei à disposição para voltar.

Foi, portanto, uma missão do seu partido?

Sim, estou nele desde que era o PMR, com um conceito de municipalismo. Foi do ex-vice presidente José Alencar a ideia de troca do nome. O PRB foi o primeiro depois da reformulação da lei. Em 2006, fui convidado para ser vice na chapa do PT do Distrito Federal, com Arlete Sampaio como candidata a governadora, por ser um sonho do presidente Lula de repetir a aliança federal. Mas, como eu era presidente nacional do PRB, tinha uma função de coordenação nacional, então não podia estar preso em uma chapa, apesar de estar muito honrado, mas não dava para fazer isso. Aí participei da eleição em 2010 e fui eleito pelo Rio de Janeiro com mais de 150 mil votos.

Os candidatos do PRB são identificados com a Igreja Universal do Reino de Deus e historicamente têm mantido uma média de 15 a 20 mil votos para deputado distrital e 30 a 35 mil para federal. Isso já garantiu suplências, mas parece não ser suficiente para a eleição. Como trata esses cálculos?

Em uma eleição, você coloca seu mandato e sua vida à disposição das pessoas. Nós não vamos discutir a questão do voto da igreja. As pessoas sempre associam a igreja ao nosso mandato, porque ela participa, direta ou indiretamente. Sou membro da igreja, estou nela há 25 anos como membro e tenho um filho pastor. Dissociar minha vida da igreja seria da minha parte uma irresponsabilidade, porque devo muito à igreja como pessoa. Mas a igreja nunca interferiu diretamente nas nossas decisões políticas. Uma coisa sou eu como membro da igreja. Outra é um projeto político-partidário. Ao voltar para Brasília, eestou discutindo com todas as pessoas, todos os segmentos. Não posso hoje dizer que os votos que eu preciso para ganhar a eleição virão de um segmento A, B ou C, porque isso é plural. Você conversa com todo mundo, sobre várias questões, como direitos do idoso, da criança e do adolescente, acessibilidade, segurança, que passa pela educação, meio ambiente.

O senhor é favorável à redução da maioridade penal?

Sou a favor dessa discussão. O que se passa no Congresso Nacional, uma casa de leis, onde se ganha no voto, é o ‘sim ou não’, o ‘contra ou a favor’. Mas a questão é muito maior do que isso. Para você discutir, tem que ir muito longe. Como dizem os antropólogos, você precisa voltar no tempo. Dizer que um menor de 15 anos não sabe o que está fazendo e deve ser tratado como uma criança, seria uma anormalidade. Não pode acontecer isso. Ele já vota, trabalha, namora, casa. Então não pode ser tratado como alguém que não sabe o que está fazendo. Nos Estados Unidos, por exemplo, você com 10 anos paga pelo que fez. Na Europa, com oito anos, também. Agora, é necessário tratar o menor de acordo com o delito que ele cometeu. É preciso separar, cada caso é um caso. Crimes hediondos, por exemplo. Você vai dizer que esse menor não sabe o que é estuprar, matar? Ele sabe o que está fazendo. Você precisa tratar com esse grau de responsabilidade, de acordo com o dolo daquilo que ele fez. Isso se chama responsabilidade. E como o Brasil trata esse tipo de jovem? O ECA prevê a internação em casas como o CAJE.

E isso funciona?

O menor é separado para ser cuidado, recuperado e voltar para o convívio com a sua família. É uma medida preventiva, sócio-educativa, que também tira o menor da liberdade. Está tão preso quanto os outros presos. Dizer que pegar esse menor e colocar em um regime fechado vai resolver, não vai. O que não podemos deixar é que os menores sejam aliciados pelo tráfico, porque eles sabem que vão matar e não vai acontecer nada. É isso que acontece hoje. Agora, você não resolve um problema arrumando outro. Essa mão pesada do Estado que acha que vai resolver. “Ele sabe que ele vai para a cadeia e não vai fazer nada de errado”. Vai fazer, sim. Ele é um inconsequente e vai fazer por outros motivos. Vai ser preso e cumprir pena como os adultos. Mas o que nós precisamos fazer é pensar na dívida social que temos com essas pessoas, de dar educação de qualidade, oportunidade. Uma série de coisas. Antes do Estado pesar a mão sobre ele, precisa cumprir com o seu papel. O papel constitucional é dar educação, segurança, entre outros. O Estado sabe cobrar. A mão é muito pesada para cobrar, mas, e a mão de dar? O Estado pode e deve cobrar, mas tem que dar e cumprir seu papel. Agora, existem estatísticas que dizem que muitos desses jovens se recuperam depois das medidas sócio-educativas. É preciso encontrar um caminho de como se fazer isso.

O senhor teve um passado em Brasília, mas há mais de dez anos, apesar de conhecer bem o DF. Qual o principal desafio para quem transfere o domicílio?

O desafio é fazer com que as pessoas me conheçam. Eu estou aqui desde 1998, vi todos os governos, sempre morando aqui. Hoje, é fazer com que as pessoas conheçam meu passado, minha história. São duas coisas que acho muito importante em um homem público: o que ele é e o que ele faz. As pessoas conhecem a minha história, o que eu sou, qual é meu dia a dia, meu trabalho, minha família. Tenho mais de 15 anos como pessoa pública e, por onde passei, deixei um legado de trabalho, dedicação, responsabilidade, sobriedade. Eu defendo a valorização da família. Uma vez as pessoas me conhecendo como eu sou e o que faço, eu quero crer que eu poderei, sim, ter a confiança do eleitor.

Como alguém que acompanha o cenário político de Brasília avalia o cenário de candidaturas que foi apresentado até agora?

Conheci os cinco últimos governadores e convivi com todos eles. É um ano atípico, de Copa do Mundo e eleição. Há muitos problemas adicionais para o Brasil e os governantes resolverem. Quem está no mandato não está muito preocupado com a sua eleição. Ele está preocupado em fazer o seu trabalho para que o eleitor reconheça e possa o apoiar como candidato. Acho, por isso, que é muito cedo e o momento de discutir isso virá depois da Copa do Mundo, quando vêm as convenções e começam a mostra quem é quem, quem vai ou não ser candidato. Como só a convenção define os candidatos e ela que acontece em junho, acho que é muito cedo. Claro que quem não tem mandato pode dizer que é candidato, porque não tem nada a perder, mas para quem está no exercício é difícil falar que é candidato. Primeiro, a lei não permite e, segundo, porque qualquer coisa que se faz, dizem que é campanha. Se inaugura uma obra, é campanha. Mas se não inaugura é porque não faz. As pesquisas estão aí. Colocam o nome de um de outro, mas na verdade você não sabe quem será candidato.

Qual a sua avaliação do governo Agnelo?

Acho que todos os governantes que passaram pelo poder deixaram marcas do que fizeram. Quatro anos, é muito pouco tempo. O Cristovam na sua época deixou um legado. Assim como o governador Roriz, por quatro mandatos, que criou nove cidades, fez a Ponte JK, entre outras obras. O governo Arruda fez estações do metrô e outras coisas. O governo Agnelo pode dizer que nunca se investiu tanto em saúde, e é verdade, embora ainda continue a existir problema na saúde, porque esse problema não é do governo Agnelo nem do governo Dilma, é um problema que atravessa décadas. Naturalmente, o governo Agnelo tem suas virtudes. Tem defeitos e problemas que você também vai encontrar. Creio que a avaliação tem que ser feita com muito cuidado em cada área.

O PRB vai continuar no governo ou vai fazer oposição?

O PRB está com o governo desde o primeiro ano do presidente Lula. Então, historicamente o PRB sempre caminho com o PT. Os dois partidos estão juntos há 12 anos. O PRB apoiou a candidatura de Agnelo e continuou apoiando o governador durante esses três anos. Não sou presidente do partido, não tenho procuração, não posso falar por ele. Dizem na minha terra que pato novo não mergulha fundo. Estou chegando agora. Naturalmente o partido participa, tem cadeiras no governo, o secretário Roberto Wagner, que é o secretário executivo de articulação do governo é um deles e está discutindo a melhor maneira para os partidos ajudarem nessa eleição. Acho muito difícil que o PRB faça oposição ao governador Agnelo, caso ele seja candidato. Dizer que o partido não vai apoiar o PT seria irresponsável.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília

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