Eleições: Campanha contra candidatos sujões

Moradora de Taguatinga, Venilde Araújo diz que não escolhe candidato pela imagem.


Na tentativa de se fazerem conhecidos e lembrados, concorrentes a cargos públicos espalham propagandas pelas ruas. Incomodados com proliferação de faixas, panfletos e cavaletes, cidadãos iniciaram um movimento contra a poluição.
A temporada de poluição eleitoral começou no Distrito Federal. Em época de campanha, fica difícil não olhar para os lados sem se deparar com cavaletes, placas ou faixas de candidatos. Para tentar chamar a atenção dos eleitores, alguns dos aspirantes aos cargos do poder ultrapassam os limites e irritam a população. Em Ceilândia, material de candidatos atrapalha a visibilidade de motoristas em cruzamentos e retornos. No Guará, calçadas são ocupadas por propagandas e, em Taguatinga Norte, a entrada da Feira Permanente está tomada por cartazes de um concorrente à Câmara Legislativa…

Desde 6 de julho, quando a campanha foi autorizada, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) recebeu 297 denúncias de propaganda irregular. Mesmo as autorizadas pela justiça eleitoral não contam com tanta simpatia dos brasilienses. O técnico em enfermagem Vítor Hugo Campos, 21 anos, passa todos os dias a pé pelo centro de Ceilândia, agora tomado por cavaletes de dezenas de candidatos. Para ele, o efeito da propaganda é inverso. “Eu, particularmente, não voto em candidato que deixa a minha cidade horrorosa e que atrapalha a minha passagem. Ainda não escolhi meus candidatos, mas a minha única certeza é de não votar nesses”, disse.

A opinião é compartilhada pela autônoma Venilde Araújo dos Santos, 46 anos. Moradora de Taguatinga, ela se mostra incomodada com o método que os candidatos usam para buscar votos. “Não conheço uma pessoa que escolhe em quem vai votar baseado em placa no meio da rua. Pelo contrário, todas criam aversão”, afirmou.

No Guará, um motorista se mostrava indignado ao se deparar com uma faixa de pedestre praticamente apagada por falta de manutenção. Ao lado, um cavalete de um deputado distrital trazia a inscrição “Por uma Brasília melhor”. “É assim que ele quer se reeleger? Não moveu uma palha para tornar o trânsito mais seguro, mas fala em melhoria. É muita hipocrisia”, esbravejou o servidor público Cláudio Santana Pontes, 45 anos.

Protesto na rede

Nas redes sociais há vários movimentos que condenam a prática e estimulam eleitores a enviar fotos das propagandas consideradas inadequadas. Um evento virtual batizado de “Nesse eu não voto” conta com centenas de postagens com críticas a candidatos que “sujam” a cidade. O criador da página, o empresário Daniel Zukko, 34 anos, explica que teve a ideia após receber, pelo telefone celular, uma mensagem de texto assinada por uma distrital concorrente à reeleição. “Se essa pessoa utiliza métodos duvidosos para conseguir o meu número e invadir a minha privacidade, imagina o que ela faz no poder?”, reclamou.

Outra página que conta com quantidade razoável de seguidores é a “Diga não ao candidato sujão”. Os autores das postagens usam textos irônicos e resgatam discursos dos políticos —muitos em defesa de uma cidade mais limpa — para repudiar o método de campanha.

Na opinião do cientista político Everaldo Moraes, a tendência é de que os candidatos procurem cada vez mais informações a respeito do efeito da propaganda, principalmente as de rua. “O fato é que hoje faltam estudos para o candidato saber se tal propaganda é eficiente ou não. É difícil avaliar qual é o real impacto de sair distribuindo cavaletes e faixas no resultado das eleições”, disse.

Termo de compromisso
O procurador regional eleitoral do DF, Elton Ghersel, lamentou o tímido avanço em relação às últimas eleições e acredita que a tendência é piorar a poluição visual com a aproximação do pleito. “Tentamos acabar com a pintura dos muros, por exemplo, mas o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) entendeu de maneira diferente. O fato é que estamos lidando com a mesma legislação de quatro anos atrás”, criticou.

No início do mês, o procurador se reuniu com dirigentes de 13 partidos políticos para propor um Termo de Compromisso com o objetivo de preservar a limpeza de Brasília. Do total, oito legendas assinaram de imediato o documento. “Trata-se apenas de uma recomendação, não de imposição. Orientamos que a distribuição de material seja feita diretamente ao eleitor e não lançando panfletos na rua. Também pedimos que os cavaletes sejam confeccionados com material resistente, a fim de evitar que fiquem expostos”, explicou Elton.

Fonte: Por SAULO ARAÚJO, Correio Braziliense – 25/07/2014

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