De onde é que vem o baião?


“Para um coração mesquinho/ Contra a solidão agreste/ Luiz Gonzaga é tiro certo”, cantou Chico Buarque em Paratodos. É que o Rei do Baião, até quando entoava versos tristonhos, alegrava seus ouvintes. Nada melhor, então, do que recorrer a ele e a sua música no mês de são-joão — em que não sobra tempo para desalento. Se estivesse vivo, Gonzagão completaria um século de vida em 2012 (nasceu em 13 de dezembro de 1912). Sua obra tem inspirado homenagens diversas e movimentado o mercado fonográfico. Alguns forrozeiros, e outros nem tanto, têm investido no nicho cultivado por Gonzaga; e é de seu Nordeste que partem vários dos tributos.

Uma das iniciativas mais interessantes é a reunião de diversos artistas da nova e da velha guardas em torno de um álbum triplo que revisita 50 peças da obra de Gonzaga — a maioria autoral, mas há também espaço para canções que o Velho Lua, como era conhecido, interpretou. O projeto está sob a batuta do produtor musical paulistano Thiago Marques Luiz e deve chegar às lojas no fim deste mês, pelo selo Lua Music.

“O repertório do Gonzagão é gigante, e daria para fazer uma caixa com 10 discos, com músicas maravilhosas”, conta Thiago. “É um trabalho muito diversificado, sem o compromisso de querer agradar a apenas um segmento. Não é um disco de forró — até por que não teria disco de forró melhor que os dele”, acredita. O produtor ouviu cerca de 400 canções para selecionar o material.

A maior surpresa fica por conta de O xote das meninas, parceria de Gonzaga com Zé Dantas. Gravada mais de 500 vezes, segundo Thiago, ela ganha, no disco, interpretação de Elke Maravilha. Os versos da clássica Asa Branca foram divididos entre os ícones nordestinos Dominguinhos, Geraldo Azevedo, Ednardo, Amelinha e Anastácia. Participam também Fafá de Belém, Zeca Baleiro, Gaby Amarantos, Chico César e Wanderléa, para citar alguns. As gravações são todas inéditas.

O quarteto paulista Falamansa também resolveu se enveredar pelo cancioneiro do Velho Lua. Lançou, em abril, o álbum As sanfonas do rei, pela Deck. Repleto de participações, a trupe de forró resolveu investir em algumas peças menos conhecidas do baú do mestre. Estão lá, por exemplo, O fole roncou, Alegria pé de serra e Xote ecológico. Há ainda um dueto virtual deles com Gonzagão, em A hora do adeus, e a canção inédita que dá nome ao álbum, uma composição do vocalista Tato Cruz. “Sempre tivemos a obra de Gonzaga presente em nosso trabalho e já havíamos gravado canções dele em outros discos. O centenário nos impulsionou a intensificar essa influência”, contou Tato.

A cantora natalense Marina Elali é neta de Zé Dantas, um dos maiores parceiros do mestre nascido em Exu. Juntos, fizeram pelo menos 50 canções — um número impressionante, tendo em vista que Dantas morreu aos 41 anos de idade. Marina pinçou algumas delas para gravar um CD e um DVD a serem lançados no segundo semestre, pela Som Livre. “Foi uma parceria de grande sucesso, que nos mostra que a boa música nunca morre”, acredita a moça.
O xote das meninas, por exemplo, é deles. Sabiá, Cintura fina, Riacho do Navio e A volta da asa branca também. Todas estarão no disco, que trará a participação de artistas como Gilberto Gil, Lenine, Ivete Sangalo, Seu Jorge, Elba Ramalho e Dominguinhos. Recentemente, a avó Iolanda entregou a ela uma letra inédita de Dantas. A cantora a musicou e a canção integra o novo trabalho. Agora, além do orgulho de pertencer ao mesmo clã de um dos maiores poetas da música brasileira, Marina pode encher o peito para dizer que é também sua parceira.

Conterrâneos

Gilberto Gil respondeu à pergunta do título — trecho de uma canção de sua autoria — dizendo que o baião vinha “debaixo do barro chão”. Esse chão certamente é o nordestino, de onde Gonzagão tirou a matéria prima para fazer sua música. Outros quatro artistas da região resolveram prestar tributos a seu mestre maior: os pernambucanos Targino Gondim, Jorge de Altinho e Onildo Almeida e o cearense Alcymar Monteiro.

Onildo teve a honra de ter algumas de suas composições gravadas pelo Velho Lua, dentre elas a afamada A feira de Caruaru. Em maio passado, ele colocou nas ruas o CD Luiz Gonzaga canta Onildo Almeida, cujo título é autoexplicativo. Ele também é responsável pela coletânea Capital do Forró volume 10, em que cantam artistas diversos, dentre eles os onipresentes Dominguinhos e Elba Ramalho. No tributo, uma canção inédita feita por Onildo para o mestre: Rei centenário.

Gondim já havia lançado um álbum em homenagem a Gonzagão em 2009. Agora, chega às lojas o Canções de Luiz volume 2. “Parei e disse: vou fazer um disco com as canções que gosto, que cantaria para o meu pai deitado na rede. Fiz uma escolha bem pessoal, com músicas que pouca gente conhece”.

Altinho disponibilizou gratuitamente em seu site (http://jorgedealtinho.com.br) o download de 100 anos de Gonzagão. No trabalho, entre outras, está a parceria de 1978 dele com o mestre, Mané Gambá. Os dois se conheceram quando Altinho era funcionário do governo de Pernambuco e morava no interior do estado. Já Monteiro comanda o Concerto para Gonzaga, um projeto sinfônico com a Orquestra Criança Cidadã, grupo instrumental formado pelo maestro Cussy de Almeida e crianças do Recife. A gravação do espetáculo se transformará em CD e DVD.

Colaborou Rosualdo Rodrigues

Lua em Brasília
A partir do próximo domingo, e até 15 de julho, o Centro Cultural Banco do Brasil vai mergulhar na obra de Gonzagão. O público poderá conferir espetáculos musicais inéditos com a participação de nomes como Chico César, Quinteto da Paraíba, Marcelo Caldi, Otto, Casuarina, Bebe Kramer e As Chicas. Na estreia, sobem ao palco Moraes Moreira, Carlos Malta e Pife Muderno. A direção é de Daniel Gonzaga, filho de Gonzaguinha e neto do mestre do baião.

Duas perguntas // Tato Cruz

O Falamansa pertence à vertente do forró universitário, enquanto Gonzagão é ligado às raízes do gênero. Como vocês convergiram essas diferenças?
Não entendemos que exista uma diferença, a não ser temporal. O objetivo do forró universitário sempre foi difundir o forró tradicional para os jovens, e isso continua acontecendo. Ambos têm a zabumba, o triângulo e a sanfona como base estrutural e rítmica. É claro que, com a influência do mundo moderno, novas vertentes vão surgindo.

Após mais de 20 anos da morte de Gonzaga, suas temáticas se mantêm atuais?
Tudo o que Luiz cantava era a realidade de um povo, diante de suas alegrias ou dificuldades. Por isso é atemporal. Hoje, é difícil encontrar isso na música. Preocupa-se demais com o ritmo, deixando a letra como um atrativo e não como mensagem de bem. Talvez seja essa a maior identidade que herdamos do rei e que buscamos levar adiante: unir o ritmo do forró com o poder de uma letra feita para fazer o bem.

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