De hoje a quarta, Correio retorna aos anos 1960 para reviver a Jovem Guarda


De hoje a quarta, Correio retorna aos anos 1960 para reviver a Jovem Guarda
O movimento deu cor a toda uma geração e cujas influências estão espalhadas pela música popular até hoje
Gabriel de Sá

Não passava das 14h quando o cantor Wanderley Cardoso chegou à Consolação e encontrou a rua praticamente vazia. Ele cumprimentou o porteiro, apresentou-se e adentrou o Teatro Record. Naquela tarde de 22 de agosto de 1965, um domingo aparentemente normal, como hoje, a emissora paulistana estreava o Jovem Guarda, programa musical para o público adolescente com alguns dos maiores ídolos da época. Na semana seguinte, Wanderley voltou ao local e o cenário era outro. A multidão impedia o trânsito. Gritos, euforia e confusão. Escoltado pelos pais e o irmão, o cantor teve que se meter atrás de um fusca da polícia para comparecer à gravação do dominical.

Não foi em apenas sete dias que a Jovem Guarda — nome do programa de tevê e também do movimento musical capitaneado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa — se tornou um fenômeno popular, responsável por incendiar a indústria fonográfica e a maneira de se comportar da mocidade. A invasão do rock and roll vinha desde o fim dos anos 1950, viveu o auge entre 1965 e 1968 (quando o dominical esteve no ar) e apontou novos rumos para a música brasileira dali em diante. A partir de hoje, o Correio revive os anos de iê-iê-iê pelo olhar de alguns de seus principais personagens.

Nas últimas semanas, Roberto e Erasmo estiveram envolvidos na polêmica das biografias não autorizadas. Os dois ídolos, ao lado de outros grandes da MPB, se disseram a favor da autorização prévia para que publicações do tipo tomassem vida. A reação da sociedade diante das declarações foi negativa. Este, contudo, é apenas um ponto fora da curva na trajetória da dupla de compositores. Autores de cerca de 400 canções em parceria, Roberto e Erasmo representam uma das amizades mais bem-sucedidas da música brasileira popular. Foi ali, no alvorecer da Jovem Guarda, que os dois se conheceram, sob as bênçãos do amigo em comum Carlos Imperial.

Roberto Carlos e Erasmo Carlos estão envolvidos atualmente na polêmica das biografias
O rock andava fazendo a cabeça de milhares de rapazes e moças e vinha garantido cada vez mais espaço nas rádios e televisões. Quando a Record viu seus jogos de futebol proibidos nas tardes de domingo, acabou preenchendo o horário com a atração musical. “O Jovem Guarda deu bem mais audiência que o esporte”, recorda Wanderley Cardoso. Cantor do hit O bom, Eduardo Araújo questiona apenas o fato de se usar o nome do dominical para batizar aquela geração. “O movimento foi o do rock and roll, que foi acontecendo até chegar aos programas de televisão”, opina.

“Antes deles, quem dominava o mercado musical brasileiro eram os artistas identificados com as raízes. Quem não fazia isso, era marginal. A Jovem Guarda foi a primeira tendência fora da linguagem tradicional da música brasileira a ocupar a ponta do mercado. E isso vai influenciar toda a música brasileira”, observa o historiador Paulo Cesar de Araújo, autor da biografia não autorizada Roberto Carlos em detalhes. “A geração de 1970 nasce eletrificada.”

Rebeldia

O sucesso do movimento, segundo a historiadora Eleonora Zicari, ocorreu por a Jovem Guarda incorporar uma série de problemáticas do universo juvenil. Aqueles rapazes e moças passaram a se reconhecer nas músicas. “Quando se diz ‘estou amando loucamente a namoradinha de um amigo meu’ as pessoas se veem ali. É música feita por jovens e para jovens”, defende. Eduardo Araújo conta que ser chamado de “jovem guarda” era pejorativo. “O pessoal cobrava muito, dizendo que, em tempos de ditadura, a gente estava em cima do muro. Depois, a nostalgia tratou de amenizar”. Eleonora Zicari, porém, acredita que fazer rock, em si, já era transgressor. “A turma dava um pouquinho de trabalho para os militares. A repercussão daquela rebeldia incomodava grande parcela da sociedade. Eles tinham que ter cuidado com a censura, também”, comenta.

Quero que vá tudo pro inferno fez a Igreja Católica classificar o iê-iê-iê de atividade profana. Nelson Motta detalha no livro Noites tropicais que a mesma canção ajudou a turma da Zona Sul a enxergar Roberto Carlos com um olhar mais politizado. Em Copacabana e redondezas, até bem pouco antes do programa, só alguns conheciam Roberto, que já trilhava o caminho de Rei nas rádios populares e nos bailes de subúrbio. O programa da Record começa a dar sinais de desgaste em 1967, e, no começo do ano seguinte, o Rei anuncia a saída do comando da atração. “A Jovem Guarda é a bandeira de todos os jovens do Brasil. Já não é um programa, é um movimento”, disse Erasmo à época.

Beirando meio século desde que tomou o país, a Jovem Guarda, segundo Eleonora Zicari, pode ser reavaliada de forma mais criteriosa. “A distância dos anos permite observar nuances que estavam obscurecidas”. No filme Roberto Carlos e o diamante cor-de-rosa, de 1970, o trio que protagonizou o movimento aparece cantando É preciso saber viver na cena final. O clima é de despedida. As décadas seguintes reservavam outras histórias para os personagens.http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/especiais/jovem-guarda/2013/11/24/internajovemguarda,399832/de-hoje-a-quarta-correio-retorna-aos-anos-1960-para-reviver-a-jovem-guarda.shtml

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