Com Neymar, na saúde e na doença


Com Neymar, na saúde e na doença
O Brasil da Copa e o dos hospitais, segundo os pacientes do maior centro de tratamento de câncer da América Latina
CRISTIANE SEGATTO (TEXTO) E NATHALIA TAVOLIERI (VÍDEO)

Eduardo Antonio Criado, de 69 anos, se emocionou com a vitória do Brasil na Copa
(Foto: Nathalia Tavolieri / ÉPOCA)

Neymar não sabe, mas quando tocou a bola com o pé esquerdo e marcou o primeiro gol do Brasil, ele devolveu a alegria a um rosto que não combina com tristeza. Bastou a bola chacoalhar a rede para seis rugas de preocupação desaparecerem da testa do motorista Eduardo Antonio Queiroz Criado, de 69 anos.

No 16° andar do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), o maior hospital oncológico da América Latina, Eduardo não pôde soltar a voz. Mesmo assim, se fez entender. Agarrou a caneta e anotou no meu caderno: “Neymar chutando é sempre gol”.

Eduardo é otimista por natureza. Há quase um mês, vive sem a laringe. Perdeu as cordas vocais para o tumor provocado por 45 anos de cigarro. No hospital, ele se alimenta por uma sonda nasal. Passa 90 minutos preso ao suporte que transporta o preparado nutritivo.

É o tempo de assistir a uma partida de futebol inteira. Às vezes, Eduardo engasga. Uma secreção escapa pela traqueostomia, o orifício aberto no pescoço. As duas filhas, Érica e Patrícia, correm para limpá-la. Nenhuma imagem da campanha antitabagista poderia ser mais explícita e didática. Quem vê, não esquece.

Apesar do desconforto imposto pelo tratamento, o motorista apoiou a Seleção como pôde. Quando Marcelo inaugurou o placar com um desconcertante gol contra, os olhos de Eduardo ficaram tristes. Foi quando ele mais se agarrou às cores da pátria. Sobre a cabeça enfaixada, ajeitou o chapéu de feltro em forma de bola verde e amarela. No caderno, anotou o incentivo que gostaria de soprar nos ouvidos de cada um dos jogadores: “O Brasil tem que manter a calma para virar o jogo”.

Neymar, Oscar, David Luiz… Todo ídolo do futebol é o sobrevivente de disputas ferrenhas que o brasileiro aprende, desde criancinha, a entender como um fato da vida: as peneiras. Milhões de garotos gostariam de entrar em campo para defender o Brasil, mas só os melhores chegam lá. O sucesso é explicado por ingredientes comuns a outras formas de estrelato: talento, sorte e trabalho.

No futebol, as peneiras fazem sentido. No acesso à saúde, elas são inaceitáveis. Eduardo é sobrevivente de uma forma cruel de seleção. Até o final deste ano, o Brasil terá cerca de 580 mil casos novos de câncer. Pouca gente conseguirá se tratar, pelo SUS, em um centro de excelência como o ICESP. Quinze mil novos pacientes por ano é o máximo que a instituição consegue atender.

Em São Paulo, como no país inteiro, a maioria dos doentes sequer se tornará paciente. Perderá o jogo antes de receber diagnóstico e conseguir começar o tratamento. “As pessoas passam muito tempo sem saber o que têm”, diz o médico Paulo Hoff, diretor geral do ICESP. “Descobrir um câncer não é alegria para ninguém, mas, na realidade brasileira, quem consegue receber pelo menos um diagnóstico já fica feliz”.

Tecnicamente, o ICESP é considerado um hospital de portas fechadas. Não recebe pessoas que desconfiam da doença. Se a estrutura fosse utilizada para fazer triagem e diagnóstico, não sobrariam braços e orçamento para oferecer o tratamento de alta qualidade que caracteriza o instituto.

Só entram no ICESP os pacientes encaminhados por outras unidades de saúde. Gente que já passou por um posto de saúde, já venceu longos meses de espera por um exame e já tem indicação clara da necessidade de tratamento.

Depois dessa corrida de obstáculos, metade dos pacientes que chegam ao ICESP tem tumores avançados (estágios 3 e 4, numa escala de um a quatro). O ideal seria que a maioria chegasse nas fases iniciais da doença.

Oficialmente, o hospital deveria atender apenas a população da capital e casos especiais encaminhados por outras instituições do interior paulista. Basta passar uma manhã na porta do instituto para ver a movimentação de pacientes de outros municípios e até de outras unidades da federação.

“Não discriminamos ninguém”, diz Hoff. “Não investigamos onde as pessoas moram, mas esse afluxo de pacientes é um claro sinal da ausência de tratamento de câncer nos outros estados”, afirma.

As vagas do ICESP são disputadas não apenas pelos pacientes do SUS. Quando a doença se agrava e os planos de saúde não cumprem com suas obrigações — algo tão corriqueiro quanto um pênalti em dia de jogo tenso — os clientes do mercado privado engrossam as filas do instituto.

“Vários amigos com casos de câncer na família me pedem ajuda para conseguir uma vaga aqui”, afirma Patrícia, uma das filhas de Eduardo. “Quem sou eu?”, diz ela. Eduardo coloca a caneta em ação: “Sou muito bem tratado aqui. Sinto pena dos brasileiros que não têm a mesma sorte.”

A família sonha com o dia em que o ICESP e outras raras instituições públicas de excelência no país deixem de ser um privilégio para tão poucos. Para a presidente, ele anota um recado cristalino: “Dilma não se preocupa porque está com os melhores médicos. Se ela tivesse que passar por um hospital público, daria mais valor”.

Eduardo com a família e a equipe de enfermeiros do ICESP. Eles assistiram juntos ao primeiro jogo da Seleção na Copa de 2014 (Foto: Nathalia Tavolieri / ÉPOCA)
No dia histórico em que o Brasil abrigou uma Copa do Mundo, vários pacientes expressaram o desejo de ver o país provar que é capaz de organizar a saúde. Sozinhos, com a família ou com os amigos reunidos no ICESP, eles torceram pela Seleção. Os sentimentos e as aspirações dos que não puderam ir às ruas foram registrados em vídeo pela repórter Nathalia Tavolieri.

Eduardo era um dos mais animados. Os netos Gustavo, de 17 anos, Letícia (11) e Gabriela (9), não aceitaram viver a primeira Copa no Brasil sem o avô. Compraram camisetas, acessórios e adereços para enfeitar o quarto do hospital. Naquela tarde, ele seria a melhor extensão possível da casa de Diadema, na Grande São Paulo.

Faltaram alguns detalhes. Não havia a TV de 42 polegadas nem as seis caixas de som que Eduardo fez questão de comprar para acompanhar os jogos do Corinthians. Em campo, não havia os ídolos que ele viu jogar para nunca mais esquecer: o mítico goleiro Gilmar, Sócrates, Basílio, Vaguinho, Zé Maria, Russo, Birobiro…

Não havia pipoca, sua especialidade altamente reconhecida na vizinhança. “Ele faz doce e salgada”, diz a neta Gabriela. “É tão boa, mas tão boa que minhas amigas perguntam se ele é pipoqueiro”.

O que não faltou foi afetividade. Naquela família, havia tanta e em quantidade tão generosa a ponto de transbordar pelos corredores do hospital. Quem passou por lá, sentiu.

Se Eduardo continuar se recuperando tão bem da cirurgia, talvez tenha alta nos próximos dias. Chegará a Diadema a tempo de ajudar a enfeitar a rua. Não faltarão pacientes para ocupar a vaga tão disputada no quarto 1637.

Sistemas de saúde capazes de atender 100% da demanda são cada vez mais raros – se é que existem, de fato, em algum país. O Brasil certamente não é um deles. Os buracos da peneira de acesso à saúde não podem continuar a ser tão estreitos quanto o fundo de uma agulha. É preciso alargar essa malha e botar para dentro quem precisa de ajuda. Numa terra de tantos craques, está faltando artilheiro para marcar esse gol.

(Cristiane Segatto escreve às sextas-feiras)

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