CIDADES E REGIÃO – DITADURA MILITAR MPF interroga Guerra e faz reconstituição de incineração em Cambaíba


CIDADES E REGIÃO – DITADURA MILITAR
MPF interroga Guerra e faz reconstituição de incineração em Cambaíba

Marcelo Esqueff

Denúncia de incineração de corpos veio a tona no livro ‘Memórias de uma guerra suja

Tristes memórias da Ditadura Militar voltaram a tona nesta terça-feira (19/08), durante depoimentos e uma reconstituição organizada pelo Ministério Público Federal (MPF) sobre a a possível incineração de corpos de presos políticos que teria ocorrido em fornos da Usina Cambaíba, em Campos.

O ex-funcionário da usina, Erval Gomes da Silva, e o ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dpos) do Espírito Santo e ex-agente do Serviço Nacional de Informações (SNI), Cláudio Guerra são investigados por terem praticado queima de corpos de agentes do exército, principalmente do Rio de Janeiro e de São Paulo.

A investigação teve início no ano de 2012, a partir da criação da Comissão Nacional da Verdade (CNV), com o objetivo de apurar graves violações de direitos humanos, que aconteceram entre os anos de 1964 e 1985, período da ditadura no país.

Na manhã desta terça-feira, uma acareação entre Erval e Cláudio estava marcada, mas por contradições em seus depoimentos, a mesma não aconteceu. “Durante os depoimentos dos dois, verificamos que havia muitos pontos contraditórios. O Erval negou qualquer tipo de envolvimento nos crimes e disse que não conhecia o ex-delegado, já o Cláudio afirmou categoricamente a queima de corpos na usina e que inclusive mantinha um vínculo de amizade com o ex-funcionário, por isso resolvemos obter provas mais concretas para depois colocarmos os dois frente à frente”, disse o procurador do MPF, Eduardo Oliveira.

No mês passado, durante depoimento, Guerra reconheceu as imagens de 19 vítimas da ditadura, onde 13 teriam sido carregadas por ele para incineração na indústria campista, e ainda disse ter sido o autor do assassinato de um deles. O ex-delegado também afirmou ter matado outras cinco ou seis pessoas.

No dia 11 deste mês, Guerra esteve em Campos, com membros da Comissão Nacional da Verdade (CNV), mas o Ministério Público Federal não foi informado. Ainda de acordo com o Procurador, outras duas pessoas serão ouvidas até a próxima sexta-feira (22/08), mas que por motivos de segurança, seus nomes serão preservados. Essas testemunhas seriam ligadas ao exército e aos envolvidos nos crimes.

O procurador Eduardo Oliveira agora busca reunir provas para abrir uma Ação Civil Pública para responsabilizar Cláudio Guerra e outros envolvidos.

RECONSTITUIÇÃO
“Quando chego à usina passa um filme pela minha cabeça. Me lembro de tudo o que fiz de errado por aqui e tento me fazer de forte, mas quando chego a minha casa desabo e me arrependo de cada minuto do que fiz às pessoas”, essas foram as palavras do ex-delegado Cláudio Guerra, levado pelo Ministério Público Federal ao local em que junto a outras pessoas deu fim a diversos corpos de presos políticos.

Estavam presentes a reconstituição, viaturas da Polícia Militar e da Polícia Rodoviária Federal. Cláudio Guerra começou a explicar a dinâmica do crime, desde quando o carro em que os corpos eram levados até a usina e o momento em que as vítimas eram queimadas.

“Os corpos vinham da Casa da Morte, como era conhecido o ponto clandestino de tortura dos militares, que fica em Petrópolis. As vítimas já
chegavam à cidade de Campos, torturadas e mortas, além de serem colocadas em um saco plástico antes de serem colocadas no forno”, disse o ex-delegado ressaltando que além dele, também participavam da incineração, o Erval Gomes, o Zé Crente [também ex-funcionário da usina que já é morto], além de policiais que davam suporte aos suspeitos.

A Casa da Morte era de propriedade do coronel Freddie Perdigão. Segundo o procurador, a motivação para todos estes crimes acontecerem seria o medo de donos de usinas perderem suas terras.

Para a simulação, foram usados dois manequins para representar os corpos das vítimas. De acordo com Guerra, os corpos eram levados até o forno eempurrados até o fundo. Neste momento mais combustível e lenha eram colocados para despistar os funcionários da usina.

Questionado pelo procurador se nenhum funcionário percebia a ação, o ex-delegado foi taxativo ao afirmar que todos tinham medo do grupo. “Os funcionários tinham medo de todos nós, então por mais que eles vissem ou desconfiassem dos crimes, eles não falavam por medo”, disse Guerra.

Cláudio Guerra também mencionou a conivência do dono da Usina Cambaíba e ex-vice governador do Rio de Janeiro, Heli Ribeiro Gomes, no crimes. “ O Heli só teve contato com o grupo uma vez, que foi quando em uma conversa ele autorizou o uso da usina para a incineração dos corpos, mas na época disse que não queria colocar as mãos em nada. Na época ele também recebeu um empréstimo para a usina, que nenhuma outra recebeu”, contou Guerra. A equipe do Site Ururautentou contato com a filha de Heli, Cecília Ribeiro Gomes, mas não obteve exito até a publicação desta matéria.

Ainda durante a reconstituição, Guerra mencionou que o transporte dos corpos era realizado sempre na parte da noite, por volta das 19h, e chegavam à usina no final da noite, por volta das 23h, quando os corpos eram incinerados.

Em um dos momentos da reconstituição, Cláudio Guerra, também confessou a morte de Odilon Carlos de Souza, na década de 80, que segundo o ex-delegado morreu atingido por dois tiros.

“O Odilon também fazia parte desta prática de crimes, porém em um determinado momento começou a tomar decisões por fora do comando. Na época eu tinha uma namorada e ela foi morta, junto com a irmã atingida por mais de 14 tiros. Depois fiquei sabendo que o autor do crime seria uma pessoa conhecida, então comecei a desconfiar do Odilon, que também as conhecia e durante uma discussão, antes de uma viagem ao Rio, disparei dois tiros”, contou Guerra que disse que não sabe o que foi feito com o corpo, mas que ficou sabendo que também foi incinerado, mas não tem como confirmar.

No fim da reconstituição, o ex-delegado Cláudio Guerra, disse o que espera da Justiça. “Sei de toda a minha culpa e já confessei todo o crime que cometi. Já sei que pela lei de Deus já estou perdoado e estou fazendo minha parte para ajudar a Justiça, agora pela lei do homem, irei cumprir o que for decidido”, disse Cláudio Guerra.

LEI DA ANISTIA
No dia 29 de abril deste ano, um Projeto de Lei do Senado foi aprovado, alterando a anistia aos agentes públicos, militares ou civis que cometiam crimes de tortura, através da Lei nº 6.683/1979, que pode responsabilizar os suspeitos .

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Marcelo Esqueff

Comunicado da Justiça Eleitoral

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