Cidade Estrutural por Germano Guedes


Germano Guedes ,Vila Estrutural: de invasão à Cidade



  Vila Estrutural: de invasão à Cidade
Hoje, as obras tomam conta da Vila Estrutural. Proposta de urbanização seguiu diretrizes do PAT-PROSANEAR.

Em 1960, Juscelino Kubitscheck inaugurou Brasília. Exatos 10 anos depois, teve início a ocupação irregular das áreas vizinhas ao aterro controlado do Jóquei Clube, mais conhecido como Lixão do Jóquei.Eram apenas cerca de 130 pessoas que tiravam do lixão o seu sustento. Moravam em cabanas erguidas com materiais encontrados no próprio aterro e, se por um lado estavam muito próximos do lixão, pelos outros dois lados estavam muito próximos a uma imensa extensão de cerrado e a um cristalino córrego – respectivamente o Parque Nacional de Brasília e o córrego Cabeceira do Valo.A combinação dos três elementos – urbanização informal, área verde e recursos hídricos – estava destinada a gerar problemas para todo mundo.Em pouco tempo, o pequeno núcleo de catadores de lixo se transformou em uma das maiores invasões da capital. A Vila Estrutural passou dos 35 mil habitantes, seus moradores começaram a chamá-la de cidade. Uma cidade vermelha até pouco tempo atrás: a terra seca que tomava conta das ruas sem asfalto tingia pessoas, objetos e casas com a inconfundível cor da carência de infraestrutura. Mas não foi apenas o incômodo causado pelas ruas de terra que marcou a história da Estrutural. O processo de ocupação irregular gerou condições favoráveis para uma escalada de violência. A Polícia Civil do Distrito Federal contabilizou, nos últimos dez anos anos, 7,7 homicídios para cada dez mil habitantes da Vila. A imagem da cidade causava danos a seus moradores.Sônia Mendes, presidente da associação Mãos que Criam, que capacita artesãs moradoras do local, conta que seu filho, ao sair da escola com colegas, nunca tomava o ônibus que indicava no itinerário o destino Vila Estrutural. “Isso aqui era uma vergonha”, resume.A comerciante Francisca Santos Carvalho afirma que a Vila Estrutural ainda sofre discriminação devido aos altos índices de violência. “Mas antigamente era mais”, declara, enquanto observa com atenção o movimento em sua loja de materiais de construção.
Começa a mudança.


Francisca e Sônia são retratos da transformação pela qual passa a Vila Estrutural.A comerciante, que mora na cidade há mais de dez anos, tem seu negócio instalado na Avenida Luiz Estevão, uma artéria principal, asfaltada e com muito movimento de carros e pedestres. As reclamações de Francisca sobre a Vila Estrutural são indícios de que o processo de urbanização e desenvolvimento integrou a Estrutural à vida formal de maneira irreversível.Enquanto reclama do trânsito, Francisca chega a ficar com saudades de outros tempos. “Melhorou muito, mas agora eu tenho a concorrência das lojas de fora; antes os moradores nem tinham como sair daqui para comprar em outro lugar”, constata. A necessidade de regularizar o seu estabelecimento também é considerada, num primeiro desabafo, como uma perda. “Eu não tinha firma registrada, e agora tem várias exigências, alvará de funcionamento, o lucro diminuiu; mas tem que ser assim, né?”, diz Francisca.Para Sônia, a chegada da urbanização e da formalidade não causou nenhum problema. Pelo contrário. A associação Mãos que Criam mudou de endereço, aumentou de tamanho, conseguiu financiamento para seu projeto de capacitação e atualmente está atendendo 300 artesãs. O trabalho dessas mulheres se tornou conhecido e é impossível não se render aos encantos dos produtos, alguns confeccionados com materiais coletados na própria comunidade. Uma artesã mostra um pacote de prendedores de cabelos prontos para serem vendidos e aponta para uma pilha de caixas de leite. “São feitos com as caixinhas que o pessoal entrega aqui, não ficam lindos?”, comenta, orgulhosa. No Centro de Ensino Fundamental 1, inaugurado em abril de 2009, a sensação também é de superação. A escola era precária, quase uma cabana. Agora os estudantes frequentam um ambiente planejado, com infraestrutura de fazer inveja a muita escola particular. A renovação do equipamento público também ensejou uma renovação no comportamento dos alunos. Em setembro, eles realizaram o Festival Cult da Paz, uma exposição de talentos para integrar turmas, acabar com brigas e criar um novo padrão para a educação na Estrutural. A mudança no curso histórico da Vila Estrutural foi possível graças a uma série de ações integradas e multissetoriais empreendidas pelo governo do Distrito Federal, pelo governo federal e financiadas pelo Banco Mundial. Essas ações, articuladas no programa denominado Brasília Sustentável, foram o ponto de partida para a transformação da paisagem urbana e do destino da cidade. E a Cobrape estava lá, instalada dentro a Vila Estrutural, na Avenida Luiz Estevão – quase na frente de onde hoje é a loja de Francisca – ajudando a construir essa história de conquista.

Sustentar o crescimento de Brasília

Brasília Sustentável. O nome diz tudo. O objetivo do programa é assegurar às gerações futuras um alto nível de desenvolvimento humano. Para isso, é preciso reduzir a degradação ambiental, promover as condições para o desenvolvimento social da população e a requalificação urbana do território.As diretrizes do Brasília Sustentável foram ditadas por uma política nacional de urbanização de favelas, o programa PAT-PROSANEAR. A Cobrape, que conhece bem o programa, foi a empresa contratada pelo governo do Distrito Federal para desenvolver e implantar a metodologia proposta pelo PAT-PROSANEAR em três frentes de atuação: o Plano de Desenvolvimento Local Integrado (PDLI), o Projeto de Saneamento Integrado (PSI) e o Programa de Trabalho Social (PTS).Os três instrumentos primam por colocar os interesses dos moradores no centro das ações e partem do princípio de que a participação da comunidade é essencial na construção de um novo padrão urbano. A arquiteta Renata Fernandes conta que, quando a equipe da Cobrape apresentou à comunidade o projeto do trevo de acesso à cidade, os moradores logo avisaram: 

– Não queremos o trevo aqui, porque é muito perto da escola. “A opinião dos moradores foi levada em consideração e a Cobrape alterou o projeto”, revela.Renata permaneceu na Vila Estrutural com a equipe da Cobrape durante três anos, de 2006 a 2008. Hoje fica admirada com a transformação que ajudou a planejar. As obras estão a pleno vapor. O governo do Distrito Federal estima que até dezembro 80% das ruas da Estrutural estarão asfaltadas ou com bloquete. “Aqui era um terrão”, aponta Renata para o acesso à cidade. “E hoje tem paisagismo”, completa, satisfeita com os resultados do trabalho.A arquiteta se recorda das primeiras audiências públicas realizadas pela Cobrape, nas quais eram apresentadas maquetes eletrônicas das futuras melhorias a moradores incrédulos. “Uma vez, uma senhora falou para mim que nem o bisneto dela iria ver aquilo”, lembra Renata, rindo. Mas a verdade é que a Vila Estrutural já é outra.Dos planos, projetos e programas desenvolvidos pela Cobrape, muita coisa já foi feita. Três escolas novíssimas dominam a paisagem, atendendo cerca de 3 mil alunos da cidade; o posto de saúde acanhado e antigo cedeu espaço a um moderno centro de saúde; o centro comunitário, ainda em construção, promete ser um ponto alto da nova Estrutural. “Até a igreja foi reformada”, observa Luis Carlos Oliveira de Araújo, técnico da Cobrape que também integrou a equipe que permaneceu na Estrutural até janeiro de 2008. A reforma da igreja é sinal dos tempos de urbanização e do envolvimento da comunidade com o processo de requalificação urbana do seu território.
Novo lar.


Remoções não faltam na história da Estrutural. Cerca de mil famílias foram remanejadas, com o apoio da Cobrape, de áreas de risco ou de proteção ambiental. No total, 1.498 novas casas estão sendo construídas, com infraestrutura completa – luz, água, esgoto e asfalto -, coisa que não existia para os moradores das precárias casas de madeira que eram a marca da cidade.Muitas famílias já se mudaram, e estão gostando do novo lar. Renata e Luis encontraram Amanda Cristina de Souza, uma estudante de 15 anos, arrumando a casa enquanto ouvia música. Luis pergunta como está a vida na casa nova e ela responde rápido. “Hoje está ótimo. Eu morava num barraco horrível, com chão de cascalho, e quando chovia molhava tudo o que gente tinha”, conta a adolescente, que mora com o pai e a irmã na casa geminada. A família é originária da Bahia, como a maioria dos moradores da Estrutural, segundo apontou o diagnóstico feito pela Cobrape no início dos trabalhos.
Novas aspirações
As novas condições da Vila Estrutural despertam, naturalmente, novas aspirações em seus moradores.
Edmilson Almeida Lopes é dono de lava-jato e mora há dez anos na cidade. Líder comunitário, acompanha de perto tudo o que acontece na Estrutural. Nada escapa ao seu olhar – a qualidade do asfalto, a largura das ruas, a questão das calçadas que ainda não foram feitas. Com seu apurado senso crítico, diz que “bate palmas” para tudo o que foi feito, mas que é preciso fazer mais. Paraibano, quando questionado se pretendia voltar para a terra natal, respondeu: “Não, foi este local que me deu qualidade de vida, vou fazer o quê lá?”.


E os catadores de lixo?

Um dos componentes do programa integrado na Vila Estrutural era o apoio aos catadores de lixo do aterro controlado do Jóquei Clube. Afinal de contas, tudo começou com eles. O lixão que deu origem à cidade está com os dias contados. Segundo a Unidade Gestora do Programa Brasília Sustentável, o aterro será desativado dentro de dois anos. Uma parte dos catadores será integrada a frentes de trabalho do governo do Distrito Federal e passará por cursos profissionalizantes para aprender novos ofícios. Aqueles que pretendem continuar na cadeia da reciclagem serão incorporados a um centro de triagem em outro local, com condições completamente diferentes das encontradas no Lixão do Jóquei.Um final feliz para esta fase de mudanças profundas na Vila Estrutural.

 
FONTE: http://germano-nossacidade.blogspot.com/

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