CHORUME, UMA AMEAÇA AO PARQUE NACIONAL

Imagem de 2010 mostra bacia de contenção de chorume às margens do Parque Nacional. O chorume é o principal vilão da unidade de conservação, responsável pela contaminação do solo e até da água do parque

Parque Nacional de Brasília não oferece somente diversão e tranquilidade para moradores e turistas que aproveitam as piscinas da Água Mineral nos fins de semana. É muito mais que isso: um reduto de preservação do cerrado, com mais de 40 mil hectares, e das bacias que fornecem 27% da água potável da capital federal. Tanta riqueza, porém, está ameaçada pelo vizinho mais poluente que um lugar pode ter: um depósito de lixo a céu aberto.

O Lixão da Estrutural faz fronteira com o parque e é responsável pela proliferação de espécies exóticas de plantas e de animais, como urubus, ratos, baratas e cães, dentro da unidade de conservação do cerrado. Os bichos urbanos caçam as espécies endêmicas e espalham doenças, causando desequilíbrio à fauna silvestre. O chefe do Parque Nacional, Paulo Carneiro, relata que é “praticamente impossível” fazer uma ida a campo sem encontrar cachorros e urubus. Mas o grande vilão, pela experiência de Carneiro, é o chorume gerado pelo lixão. O líquido, considerado 100 vezes mais poluente que o esgoto, escorre por debaixo da terra até chegar ao solo do parque. Lá, pode contaminar a terra, a vegetação e a água.


O assunto é estudado há anos por pesquisadores da Universidade de Brasília, como o doutorando em geofísica Márcio Maciel Cavalcanti, de 35 anos. Na dissertação de mestrado defendida em 2013, Márcio comprovou a presença de chorume no Parque Nacional. Segundo ele, até mesmo as árvores próximas ao aterro apresentam metais pesados na folhagem. “Essas plantas geram flores e frutos que podem, futuramente, trazer problemas para os animais”, analisa.


Na pesquisa, Márcio chamou a atenção para o perigo do líquido já ter contaminado a água do córrego do Acampamento, que nasce na unidade de conservação. “Identificamos que o chorume chega ao córrego e, em períodos de grande concentração de chuva, pode haver contaminação da água devido à presença de metais pesados e de carga orgânica.”

A conclusão dos pesquisadores que já denunciavam o perigo do chorume, há anos, começa a ser confirmada pelo próprio Serviço de Limpeza Urbana, responsável pelo Lixão da Estrutural. Isso porque a primeira análise oficial da água do córrego Acampamento, realizada em dezembro de 2013, apontou a existência de nitrito, nitrato e amônia — compostos que indicam presença de chorume.

“O esperado para uma nascente com as mesmas características geológicas do córrego Acampamento é que não haja presença de nitrito, nitrato e amônia. A interferência do aterro e a ocupação irregular [Chácara Santa Luzia] nas proximidades do Parque Nacional contribuíram para a alteração da qualidade da água”, afirma Márcio, ao analisar os resultados, a pedido do Correio.

O chorume do Lixão da Estrutural corre por debaixo da terra até chegar às águas do Córrego do Acampamento, dentro do Parque Nacional. O líquido, cem vezes mais poluente que o esgoto, polui a água com carga orgânica e metais pesados


O doutorando pondera que os resultados encontrados na análise do SLU são aceitáveis, de acordo com as normas do Conama. “A água do córrego não é classificada como contaminada, mas houve interferência, sim”, explica. No resultado do SLU, os valores de nitrito, nitrato e amônia são 0,84 mg/L, 1,26 mg/L e 0,28 mg/L, respectivamente. Segundo a norma do Conama (357, de 2005), o máximo permitido seria 1 mg/L, 10 mg/L e 3,7 mg/L, respectivamente.

O SLU afirma que é “prematuro qualquer conclusão com base nos resultados” e que serão necessárias quatro análises da água para “apresentar dados mais condizentes com a realidade”. A ideia do órgão é realizar o monitoramento trimestral, tanto no período de chuvas quanto na estiagem.

Segundo o chefe do Parque Nacional, Paulo Carneiro, a água do córrego Acampamento ainda não é utilizada para consumo humano e a contaminação pode causar impacto apenas nos animais. Porém, a do Ribeirão Bananal, que também corre risco de ser contaminada e vai passar pela análise do SLU, será captada pela Caesb. “Vamos repassar o resultado do teste para a Caesb”, afirma Carneiro.

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