CENTENÁRIA Casa do Idoso de Planaltina reúne histórias de vida


Amizade, carinho e até casamento marcam a trajetória do local

Na região administrativa mais antiga do DF, é difícil encontrar alguém que tenha visto, aos poucos, a cidade crescer. Com apenas 11% dos moradores com faixa etária acima de 60 anos, segundo dados da Codeplan, são os jovens que, na maioria das vezes, agitam as ruas de Planaltina. A missão de ver a história da RA ilustrada nos olhos dos mais velhos fica mais fácil se formos ao lugar certo.

E é em um casarão antigo, de paredes brancas e janelas azuis, que alguns detalhes dessa história tomam vida. Em um grande salão coberto, ao som de um bom forró, o amor por Planaltina se mistura ao sentimento que os frequentadores da Casa do Idoso da cidade sentem um pelo outro.

“Depois que cheguei em Planaltina, arrumei um namorado e tive dois filhos, depois me separei e casei de novo, tive mais cinco filhos. Hoje sou separada, tenho filho PM, advogado, bombeiro e enfermeiro. Minha caçula já tem 40 anos. Trabalhei a vida toda como diarista, hoje estou aposentada. A minha vida recomeçou na Casa do Idoso, frequento há mais de 20 anos”, revelou dona Josefa Domingues Duarte, que fará 80 anos em abril, e mora em Planaltina desde 1969.

Dona Josefa é apaixonada por Planaltina e garante que não sai da cidade por nada. “Morava na Paraíba, com os meus pais, depois que a minha mãe morreu, meu pai se casou de novo e eu não gostava da esposa dele. Foi quando uma colega me falou que estava vindo para Brasília e eu decidi vir junto. Passei 12 dias na estrada, cheguei no Bandeirante em 61, depois vim para Planaltina. Daqui só saiu para o cemitério”, confessou.

E como ela são vários. A Casa do Idoso de Planaltina recebe cerca de 200 velhinhos, bem animados, todas as quintas-feiras para uma tarde de muito forró. Eles suam a camisa, literalmente, em cerca de 4 horas de dança e descontração. “Quando eu danço, eu me divirto e faço exercício”, afirmou seu João Francisco de Sales, 81 anos.

Se engana quem pensa que depois de anos de trabalho os idosos da Casa se aposentam para descansar. Hoje eles procuram se ocupar, mas com atividade que proporcione diversão e qualidade de vida. O forró é uma alternativa para eles esquecerem os problemas e encontrarem pessoas dispostas a conversar e trocar experiências. A amizade e o respeito são as descrições do local mais ouvidas.

“Venho aqui há 15 anos, todo mundo aqui é meu amigo. Uma vez eu passei um tempo sem vir e quando voltei fiquei com dor no corpo de tanto abraço que recebi. Nunca vi uma briga, aqui tem muito respeito”, contou seu João, emocionado.

Opinião parecida tem seu Antônio Pereira, 80 anos. “Às vezes eu não danço, por causa da dor nas pernas, mas faço questão de vir e encontrar os meus amigos. Tenho um bocado de amigos aqui”.

Com um ambiente assim não é de se estranhar que o amor nasça entre uma dança e outra. O local já foi palco para dois casamentos e cenário para diversas outras histórias de romance. “O espaço foi todo ornamentado, fizemos um coquetel. Um casamento foi com o pastor, o outro foi católico. Aqui tem muitos namorados”, lembrou uma das coordenadoras do local, Sonia Guimarães, 70 anos.

Dona Sonia se recorda desses casos com carinho. “Um dos casais era o seu Miguel e a dona Rosa, ela era bem mais velha que ele, tinha 90 anos e ele tinha 82 anos. Ela já faleceu, mas eles foram muito felizes. O outro casal, do seu João, de 82 anos, e dona Osmarina, de 76, ainda frequenta o forró”, contou.

Seu Sebastião Francisco Ribeiro diz ter 90 e poucos anos – a idade certa ele não revela – e não perde um forró. “É muito bom, sempre que posso eu venho com a minha esposa, adoramos dançar”, revelou em meio aos passos da dança.

E as atividades para a turma da terceira idade não acabam por aí. “Além do forró, temos dança cigana, karatê, judô, aulas de alfabetização e cursos de salgadeira e confeiteira, além de artesanato. Fazemos tapetes e toalhas de mesa bordadas”, contou ao exibir as peças feitas na Casa e lembrar que todas as ações são gratuitas.

Odália Pereira Mendonça, 77 anos, mudou para Planaltina há 42 anos, quando a cidade ainda era muito pequena. “Morava com meu marido e meus oito filhos na Fazenda Cacau, em Planaltina de Goiás, onde ele trabalhava. Mudamos para os nossos filhos poderem estudar. Depois que cheguei aqui tive mais três filhos. Planaltina era muito pequena, você via a cidade toda da esquina”, lembrou.

Agência Brasília

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