Cenas de selvageria no DF


Por Roberta Pinheiro, Thiago Soares, Kelly Almeida, Gabriella Furquim

Foto / Reprodução / TV Record Brasília

Vídeo que circula pela internet mostra adolescente sendo agredido por um grupo de rapazes durante a apresentação de um bloco na Asa Sul. O amigo dele também foi alvo do bando. Em Sobradinho 2, um lavador de carros morreu após ser espancado.
Em menos de 24 horas, três jovens foram brutalmente espancados no Distrito Federal. No primeiro caso, registrado na madrugada do último domingo, Wendrey Ribeiro da Silva, 19 anos, não resistiu aos ferimentos de golpes de barra de ferro. A barbárie ocorreu em Sobradinho 2. Dezessete horas depois, dois adolescentes de 18 anos foram agredidos por um grupo de 15 rapazes. Desta vez, o crime teve como palco o Eixão Sul. Até o fechamento desta edição, nenhum suspeito havia sido preso.


Eram por volta das 18h de domingo. Na altura da 105 Sul, havia uma concentração de pessoas devido à apresentação de um bloco carnavalesco. Yan Filipe Lopes Xavier, 18 anos, chegou ao local com um grupo de amigos e, tempo depois, ele e um dos rapazes foram espancados. Os agressores acusavam os dois de tentarem arrombar um carro na região. O suposto crime, porém, é negado pela Polícia Civil.

Com o nariz fraturado e poucas lembranças da violência, Yan se recorda apenas de chegar ao bloco e acordar em uma maca do Hospital de Base do DF. O estudante foi à festa depois de ter feito uma prova de vestibular para direito. Estava com uma mochila nas costas. Yan diz que foi urinar atrás de uma árvore enquanto o amigo aguardava encostado em um carro. Neste momento, os dois foram surpreendidos pelos agressores. O amigo apanhou, mas conseguiu fugir. No primeiro soco na nuca, Yan desmaiou. Mesmo assim, foi colocado dentro de uma roda de pessoas e continuou levando chutes nas costas e na cabeça. Ficou com o rosto ensanguentado.

A série de agressões foi filmada por algumas testemunhas e circulou ontem por aplicativos de celular. O amigo dele, que prefere não se identificar, conseguiu escapar dos agressores e pediu socorro. Agentes do Departamento de Estradas de Rodagem do Distrito Federal (DER), que estavam próximos ao local, impediram que o grupo seguisse com as agressões. Os dois foram levados pelo Corpo de Bombeiros para o Hospital de Base do DF. “Cheguei cedo ao carnaval, ainda estava vazio. Estava me divertindo. Lembro-me de estar dançando com os meus amigos e de mais nada. Só sei o que aconteceu pelo vídeo e pelo que me contaram”, disse Yan ao Correio.

Ligação

Os pais de Yan só ficaram sabendo da violência quando receberam uma ligação, do celular do filho, já no hospital. “Ele me pediu para sair, depois do vestibular, e deixei. Mas ele se comprometeu a voltar até as 17h, pois era aniversário da irmã dele e iríamos comemorar em uma pizzaria. E aí recebo uma ligação com ele em uma maca de hospital”, conta o policial civil Antonio Sérgio Xavier, 46 anos, pai de Yan (leia Depoimento). O rapaz foi transferido para um hospital particular na Asa Norte, mas acabou liberado no mesmo dia. Os exames comprovaram fratura no nariz. Ontem, o rosto do garoto ainda estava bastante inchado e Yan apresentava vários hematomas pelo corpo. Ele tem dificuldade para comer e precisa da ajuda da mãe para tomar banho.

O amigo de Yan teve ferimentos no rosto e ainda sente dores nas costas. “Perguntava o motivo de eles (agressores) estarem fazendo aquilo e eles não respondiam. Foi só um pretexto para bater”, lembra o jovem. De repouso em casa, em Sobradinho, Yan conversou com o Correio na noite de ontem. Assustado com a violência, ele nega que tenha tentado arrombar ou furtar qualquer veículo. “Quando vi o vídeo (das agressões) com os meninos falando que eu estava roubando um carro me senti difamado, porque nunca precisei disso e nunca faria”, ressalta o garoto. O adolescente garante que não ingere bebida alcoólica. O grupo que estava com ele no Eixão frequenta a mesma igreja que a família de Yan.

Na próxima semana, o estudante vai retornar ao hospital para mais uma avaliação médica. “Como pai, acho que qualquer pessoa se sentiria mal com esse ato de brutalidade e selvageria. Como policial, tenho que confiar no trabalho da corporação e na aplicação da lei. Mas, no momento, eu me sinto impotente”, desabafa. Hoje, Sérgio deve levar o filho para o Instituto de Medicina Legal (IML) para fazer o exame de corpo de delito.

De acordo com a Divisão de Comunicação da Polícia Civil do DF (Divicom), as investigações do espancamento são conduzidas pela 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul). A delegada responsável pelo caso só vai se pronunciar quando tiver informações sobre os suspeitos das agressões, que não haviam sido identificados até o fim da noite de ontem. A Divicom negou que Yan e o amigo tenham tentado furtar algum veículo.

Barra de ferro

O outro caso de espancamento ocorreu em Sobradinho 2, por volta das 1h30 de domingo. De acordo com a Polícia Civil, o lavador de carros Wendrey Ribeiro da Silva estava em uma casa, onde também funciona uma oficina, acompanhado por dois homens, quando foi espancado com uma barra de ferro. O corpo da vítima foi encontrado pelo dono do imóvel.

O local está alugado pelos dois homens que acompanhavam Wendrey. Eles são os principais suspeitos do homicídio, conforme os investigadores da 35ª Delegacia de Polícia (Sobradinho 2). O chefe da unidade policial, Rogério Oliveira, explica que os três podem ter se desentendido. “O jovem (Wendrey) teria sido atraído até o local para consumir bebidas ou drogas”, ressalta o investigador. Até o fechamento desta edição, os suspeitos não haviam sido presos.

Depoimento

“Estou revoltado”

“Ele foi fazer o vestibular na Asa Sul e depois pediu para ir ao bloco de carnaval. O Yan não sai de casa sem autorização. Permiti que ele fosse ao Eixão, pois ele ia encontrar amigos que são do nosso convívio. Ele disse que voltaria de ônibus para nos encontrar e comemorar o aniversário da irmã. O Yan e o amigo já estavam voltando para casa quando foram surpreendidos por esses marginais. Um grupo agrediu o meu filho e outro cercou o amigo. Como pai e ser humano, estou revoltado com esse ato de brutalidade e selvageria. Mas, como sou policial, tenho que confiar no trabalho da corporação e fazer prevalecer a lei. Neste momento, eu me sinto impotente. Foi realmente uma barbárie. Não podemos deixar que o caso fique sem solução”,

Antonio Sérgio Xavier, policial civil e pai de Yan

Depoimento

“Eu espero justiça”

“Meu filho é um ótimo menino. Nunca brigou com ninguém nem na escola. Ele foi para a festa com os amigos da igreja. Como o pai dele é policial, todos os dias, nós ficamos sabendo de histórias horríveis. Sabemos que o mundo lá fora é mau, é violento. Sempre fizemos de tudo para protegê-lo e, em um dia que ele vai se divertir, cometem esse crueldade, uma verdadeira barbárie. Eu fui levá-lo para a prova de vestibular. Eu iria esperá-lo na porta, para voltar com ele. Mas ele pediu para ir ao tal do pré-carnaval. Eu disse que não, discutimos, mas acabei deixando. O pai e eu concordamos que ele merecia se divertir um pouco e acontece uma coisa dessas. É muito doloroso. No hospital, a enfermeira me falou que ele estava ‘furtando e tinha bebido’, como se aquilo justificasse meu filho estar coberto de sangue. Meu filho não dirige nem sabe abrir um carro com a chave e nunca fez nada de errado. O que aconteceu foi uma covardia. Eu espero justiça. ”

Simone Xavier, 47 anos, professora, mãe de Yan

Memória

24 de novembro de 2013

Uma adolescente de 17 anos é assassinada por quatro jovens na Estrutural. De acordo com testemunhas, ela foi espancada, levou várias pauladas e tiros. A polícia suspeita de dívida de drogas, pois a vítima era envolvida com o tráfico e estava na rua há duas semanas, após passar 45 dias no centro de internação para menores infratores, na Granja das Oliveiras.

29 de julho de 2013

Por volta das 22h, na saída da estação do Metrô de Ceilândia Norte, um é abordado por vários rapazes que anunciam o assalto. Moradora da QNN 21, a vítima é espancada até a morte.

10 de abril de 2013
O design gráfico Isaque Nilton Alves Boschini, 28 anos, foi espancado por dois homens até a morte no Guará II. Ele teria sido atacado por reclamar do tráfico de drogas na região. O crime ocorreu por volta da 1h em uma via pública da QE 40, próximo à casa da vítima.

28 de outubro de 2012

Leonardo Guimarães Moreira, 18 anos, é espancado até desmaiar, na saída de uma festa no Lago Norte. Pelo menos sete jovens são apontados como os autores da brutalidade. O garoto tem a mandíbula deslocada, dentes quebrados e passa por cirurgia para a colocação de placas de metal no rosto.

31 de julho de 2011

Seguranças do Bar do Calaf, na Asa Sul, espancam o nutricionista Bruno Marcelino, 26 anos. Ele havia pulado a cerca do estabelecimento, enquanto a namorada pagava a conta. Ao desconfiarem, erroneamente, que Bruno iria embora sem pagar, alguns seguranças avançaram sobre ele, que teve o rosto machucado.

27 de agosto de 2011

O estudante de publicidade Vinícius Schein Bento, 20 anos, tem a mandíbula quebrada após levar um soco na boca de um desconhecido. A agressão ocorre após o término da luta de artes marciais do UFC, transmitida por um estabelecimento da 106 Sul, em um telão.

15 de maio de 2010

Sete homens agridem o militar Anísio Oliveira Lemos, 46 anos, após ir a um posto de combustível da 214 Sul e pedir que baixassem o volume do som. Entre os agressores está o gerente do estabelecimento.

21 de agosto de 2006

O promotor de eventos Ivan Rodrigo da Costa, 29 anos, o Neneco, morre nove dias após ser atacado perto de uma boate do Setor Comercial Norte. Ele não resistiu aos ferimentos provocados pelos golpes de capoeira aplicados por cinco jovens da classe média brasiliense, moradores do Cruzeiro.

25 de abril de 2004

O estudante Pedro Augusto de Almeida Nolasco, 18 anos, morre depois de levar um soco na cabeça. Ele estava com amigos na praça da QI 12 do Guará quando um adolescente de 15 anos interrompeu a conversa e acertou a vítima. O golpe causou traumatismo craniano e cerebral.

21 de abril de 2001

O estudante do ensino médio Rodrigo Toledo de Aguiar, 18 anos, é agredido com um soco em um show da dupla Rio Negro e Solimões, durante a Feira Agropecuária da Granja do Torto. Ele teria esbarrado em um dos integrantes da gangue Grafiteiros Sombrios de Elite (GSE).

9 de agosto de 2000

O estudante de publicidade da UnB João Cláudio

Cardoso Leal, 20 anos, morre depois de ser espancado. Ele foi abordado por dois rapazes quando saía de uma boate, na 411 Sul, e seguia em direção ao carro.

10 de agosto de 1993

O estudante Marco Antônio Velasco, 16 anos, não resiste às agressões de

10 jovens da gangue Falange Satânica. Todos os agressores praticam artes marciais.

Os assassinos foram julgados e condenados.

Gengis Keyne, um dos líderes do grupo, e Francisco

Rivelino, pegaram 21 anos de prisão.

Crônica da Cidade

Conceição Freitas

Nós, os cruéis


Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles negros e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos, seremos sempre servos da maldade destilada e instilada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria.

O mais célebre trecho do indispensável Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, queima no peito dos brasileiros que estamos acompanhando a brutalidade dos acontecimentos recentes: homens amarrados a postes, atirados ao chão com as mãos presas por algemas improvisadas, episódios de racismo, moradores de rua queimados como se fossem dejetos de uma humanidade inexistente. No caso dos suspeitos de furto levados ao pelourinho desses tempos extremos, é inequívoca a aprovação da turba ignóbil que se sente autorizada às atrocidades, porque, via internet, se sente reconhecida e acompanhada.

A rede mundial de computadores desvelou um Brasil de que poucos tinham lúcida noção. A gente alegre, hospitaleira, malemolente, cordial e musical que somos é também a gente marcada a ferro e fogo pelos mais de 300 anos de escravidão. Os senhores e os escravos continuam a habitar a carne de cada um de nós, aceitemos ou não. São três séculos de escravidão para pouco mais de um século de homens livres. É uma camada muito tênue de civilização sobre um fundo espesso de barbárie — o que seria o regime escravocrata senão a selvageria como forma de organização e funcionamento da sociedade?

Faz algum tempo, talvez quase dez anos, escrevi uma crônica de febril indignação pelo assassinato de um adolescente que teria pichado as paredes de uma casa no Guará. Flagrado pelo dono, foi executado. Pelas reações ao texto publicado no blog, o crime foi justificado, apoiado e aplaudido, com diferentes intensidades de pessoa para pessoa. Foi meu primeiro grande susto com a internet, foi a descoberta de que, na dimensão virtual, as pessoas revelavam o que, no corpo a corpo, na letra escrita e assinada, talvez não tivessem coragem de fazê-lo.

As leis de salvaguarda da igualdade racial e dos demais direitos humanos, acompanhadas pelas regras sociais do politicamente correto, conseguiram de algum modo conter a maldade “destilada e instilada em nós”. Seja no papel de senhores (e senhoras e senhorinhas), seja no papel de servos, exercitamos a terrível herança de um povo único no mundo: formado pela mistura de raças, mas marcado, tatuado, deformado pelos três séculos de domínio cruel da pele branca sobre a pele negra e a pele índia. Ainda serão necessários quantos séculos, quantas leis, quantos gritos para que nós, os brasileiros, possamos esmaecer essa herança impiedosa?

Fonte: Correio Braziliense

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