Carmem de Oliveira, nossa maior recordista tira foto com alunos do Atletismo da Estrutural


Carmem de Oliveira, nossa maior recordista tira foto com alunos de Atletismo do centro  Olímpico  Estrutural.

Veja a sua História de Vida!! 


Primeira brasileira a vencer a Corrida de São Silvestre, em 1995, ela continua sendo a detentora de vários recordes sul-americanos, entre eles o de maratona (2:27:41), conseguido em boston 1994. Agora dirigindo a Federação de Atletismo do Distrito Federal, Carmem indica caminhos para a evolução dos nossos corredores de elite e comenta as diferenças entre seu tempo e hoje.
No melhor estilo de jovem dirigente, a ex-fundista Carmem de Oliveira estreou na presidência da Federação de Atletismo do Distrito Federal fazendo discurso e dando bronca. No bom sentido, claro, mas foi um oportuno puxão de orelhas nos políticos da Câmara Legislativa de Brasília, onde ela mora. “O esporte também passa por aqui (Legislativo), onde os senhores fazem as leis. Mas nós, dirigentes, não podemos ficar na dependência das cores políticas e partidárias para a votação e liberação de verbas ou fixação de políticas do esporte”, protestou Carmem em sua estreia pública como cartola, Carmem, hoje 49 anos, se expressa de forma simples e direta. Ainda lembra a corredora de origem humilde dos anos 90, década em que teve o seu melhor desempenho na pista e na rua: bateu oito recordes sul-americanos, seis deles ainda em seu poder (veja quadro), até fechar a carreira com o prestigiado título de campeã da Corrida de São Silvestre, em 1995.
Encerrando a carreira prematuramente, Carmem resistiu durante bom tempo voltar a se envolver com o esporte. Assim que parou de correr dedicou-se ao estudo de Pedagogia e, logo que se formou, criou o Instituto de Ensino Del Bambino, em Sobradinho, sua cidade natal, no Distrito Federal.
Mas, o que mudou no atletismo feminino, 12 anos depois do encerramento de sua carreira de atleta? Por que, afinal, seis recordes continuam imbatíveis?
“Em primeiro lugar, houve um esvaziamento nas provas de fundo de pista, mas a Confederação Brasileira de Atletismo está revertendo essa tendência, criando um circuito de rua e de pista, oferecendo premiação em dinheiro aos melhores”, explica Carmem. Além disso, existe uma rotatividade muito grande de atletas, com pouca permanência nos circuitos. Ou seja, surgem bons competidores, mas desaparecem rapidamente. Ela explica o fenômeno: “Para os fundistas, em geral, não é aconselhável fazer só provas de rua. Quando não se vê histórico de corredores na pista também não se observa evolução dos tempos na rua”.
A atração das corridas de rua. Para Carmem, os corredores em geral encontraram nas competições de rua uma profissão que rende bom dinheiro, prêmios e, dependendo do nível, cachês. “Isso tudo é salário, é a necessidade de muitos para sobreviver e preparar o seu futuro, pois as carreiras têm tempo limitado e os riscos de contusões estão sempre presentes”, argumenta.
É por isso que alguns de seus recordes se mantêm? “É por isso e muito mais. Vou explicar. Corrida é cada vez mais uma forma de trabalho. Corre-se para vencer, e se vence para se ter o prêmio e se chegar ao pódio e conquistar um patrocínio. Tudo isso se transforma em salário. E isso se encontra cada vez mais nas atrativas provas de rua, que crescem em número e qualidade, no Brasil, onde as marcas e os tempos não interessam tanto quanto a vitória”.
Assim, se um determinado atleta quer priorizar marcas terá que passar necessariamente pelas competições de pista. E isso ocorre com raridade, pois o atrativo dinheiro nem sempre está presente, a não ser nos eventos internacionais, os GPs. “Lucélia Peres (fundista de Brasília) é um exemplo, no feminino. Já no masculino temos o Marilson Gomes dos Santos. Os dois fazem essa prática de rua e pista muito bem”, pois quanto melhor a base, melhor o resultado, e a base se adquire na pista.
Adversárias diretas de Lucélia nas provas de fundo, Ednalva Laureano, a Pretinha, Marizete Moreira, Fabiana Cristine e Marily Santos, entre outras, não têm histórico freqüente de pista. Essa é a diferença que favorece Lucélia. Pista, enfim, dá ritmo e consistência técnica para um atleta ter progressão em seus tempos. Se isso ocorre, as marcas vêem e os recordes serão superados.
Extremamente disciplinada, desde os tempos de juvenil, como lembra o seu primeiro técnico, João Sena, Carmem acredita que também falta às atletas de hoje, em geral, um foco, uma meta. “Sempre trabalhei com calendário e o foco em uma prova: num Pan, num Mundial, num Troféu Brasil. É preciso priorizar e ordenar as metas de uma temporada e fazer o trabalho específico para cada uma”, ensina.
Mais uma vez usa o exemplo de Lucélia – tricampeã da Volta da Pampulha e vencedora da última Corrida de São Silvestre: “O foco recente da Lucélia, foi o Troféu Brasil para alcançar índice para o Pan-Americano. Seu técnico (Edilberto Barros) realiza um trabalho com objetivo, para ela alcançar um bom resultado nesses eventos. E um bom resultado no Pan é o pódio, ganhar uma medalha”. Essa rotina, porém, nem sempre é possível, pois uma corrida de rua com boa premiação acaba atrapalhando o programa de muitas corredoras para o tal “determinado foco”.
 
Diante dessa realidade, os recordes de Carmem se mantêm. Orgulhosa por isso? “Se eu disser que não, estaria sendo hipócrita. Afinal, as minhas marcas mostram um resultado técnico que alcancei. Mas confesso que também dá uma tristeza constatar que isso se deve à falta de renovação no atletismo feminino.
Apoios fundamentais. Carmem admite que para chegar aos seus resultados foi importantíssimo ter um patrocinador de longo prazo. Da Ultracred, logo no início da carreira, passou para a Fundação Banco do Brasil e, mais tarde, foi acolhida pelo próprio Banco do Brasil. A parceria durou 10 anos – o mais longo patrocínio individual a uma atleta no Brasil -, numa época em que não havia influência política para renovar os contratos anuais. “Renovavam porque eu tinha resultados, ganhava espaço na mídia e dava retorno ao patrocinador”, explica Carmem.
Para treinar, viajar, correr, ganhar e dar retorno, ela lembra, porém, que o banco nunca lhe cobrou resultados. Ou seja, não havia pressão para que ganhasse essa ou aquela prova, esse ou aquele meeting. “Assim, o prêmio em dinheiro era muito bom, mas não era o fundamental, porque eu já tinha o patrocínio que garantia o cumprimento de meu calendário e a minha sobrevivência. Isso me dava tranqüilidade para treinar sem pressões, viajar e competir. Reconheço que isso falta hoje à maioria das corredoras, tornando-se o prêmio, portanto, fundamental, prioritário. E o prêmio maior para sobreviver está nas provas de rua, repito”. Essa, na avaliação da hoje dirigente do esporte é a visão da sobrevivência. “Eu tive sorte nesse aspecto e tudo isso fez a diferença”.
Por conta do patrocínio, Carmem contratou o colombiano Felipe Posso como seu agente, que a apresentou à elite das corredoras, no exterior. Assim, de corrida em corrida, de maratona em maratona, de pista em pista, ela ia conhecendo as características de suas adversárias continentais, principalmente. “Depois de algum tempo, eu sabia quem era forte na largada, quem tinha chegada rápida”.
Ao final da Olimpíada de Barcelona, em 1992, quando correu os 10.000 m, Carmem foi treinar em Durango, no México, e mais tarde se mudou para Albuquerque, no estado do Novo México (EUA) a 1.800 metros de altitude. Os resultados foram os melhores possíveis. Em 1994 terminou a Maratona de Boston em terceiro lugar e marcou o recorde sul-americano, 2:27:41, ainda em seu poder. Em 1995 ganhou a medalha de ouro nos 10.000 m, desta vez na pista dos Jogos Pan-Americanos de Mar Del Plata, fechando um circuito vitorioso de rua e pista, apoiado em recordes.
“O patrocínio foi fundamental para que eu montasse uma estrutura profissional no atletismo, modalidade que adoro. Viaja-se muito, conhecemos muitos lugares, bons hotéis, exposição na mídia, enfim. Mas, depois, tudo isso termina”,diz ela, com um certo ar de saudosismo, mas nem um pouco interessada em repetir a fita.
O recorde em Boston. Das provas no exterior, a que se tornou “memorável” foi a Maratona de Boston. Não só porque estava participando de uma corrida centenária, mas naquele abril de 1994 Carmem vivia um excelente momento de sua forma física e técnica.
No ano anterior, ela havia participado dessa competição, quando fechou o percurso em 2h31. Era um bom tempo, mas um pouco antes ela tinha corrido melhor, na Maratona de Tóquio, quando fez 2h29.
“Boston sempre atrai grandes nomes da elite mundial. Eu ainda era desconhecida, mas estava lá. Foi inesquecível. Fiquei em terceiro lugar. A campeã foi a alemã Uta Pippig (2:21:45), que venceu os dois anos seguintes, tornando-se tricampeã de Boston.
O caminho para as provas internacionais estava se consolidando, e foi assim que a brasileira acabou se sagrando campeã no Mundial de 15 km, na rua. “Foi uma prova forte. Além de Uta Pippig, havia a queniana Tegla Loroupe e a mexicana Olga Appel – cujo marido, Brian Appel, treinou Carmem -, recorda.
A vitória na São Silvestre. As quatro vezes segundo lugar na São Silvestre (85, 90, 92 e 93) marcaram Carmem. “Era uma coisa muito triste, uma coisa horrorosa. Parecia o Botafogo, algo assim conquistado com muito sofrimento, resume Carmem. E conta a sua epopéia na tradicional corrida da capital paulista. “Segundo lugar não tinha mais sabor de nada. Ser segundo era ser a primeira a perder…”, filosofa, ainda hoje.
Foi durante a fase de treinamentos no México, em 1995, antes da São Silvestre, que Carmem sentiu “uma coisa muito forte”. Algo que a desafiava à vitória. “Eu precisava vencer na quinta tentativa. Já tinha vergonha de enfrentar os repórteres. Antes das corridas eu até planejava o discurso de chegada, o agradecimento ao patrocinador, dizer que foi bom ser segunda… Ninguém mais acreditava em mim. Era triste tudo isso”
Chegou, enfim, a semana da São Silvestre. Em São Paulo, ela se isolou o quanto pode. “Este vai ser o meu ano. Ou vai ou racha”, repetia, decidida. “A São Silvestre são várias pequenas subidas e descidas que vão lhe quebrando. E as quenianas brincavam com isso, se revezando no jogo de equipe, descansando”, recorda Carmem.
“Eu estava sozinha. Não sabia escapar e depois descansar, tinha que ir para o tudo ou nada. E fui. Rose Cheruiyot estava disputando a ponta comigo. Forcei um pouco e ela acompanhou. Insisti e consegui abrir 50 metros. Ela até que tentou novamente, mas não conseguiu me acompanhar. Senti que era a minha vez. Repeti: ou tudo ou nada. Foi tudo. Cruzei a linha como se tivesse um grande desejo de vingança. Essa vitória foi pra lavar todos os segundos lugares. É inesquecível”.
Ao final dos 15 km de prova, Carmem pode, enfim, mudar o seu discurso de chegada. Um discurso inovador de quem se tornou vitoriosa na mais importante corrida de rua do Brasil e primeira brasileira a conquistar esse feito

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