Campeã em desafios

foto-1482016-165455-Campea-em-desafiosApós seis olimpíadas, em quadra e na tevê como comentarista, a Leila do vôlei atua na sua terra natal à frente da secretaria de Esporte, Turismo e Lazer. “A geração Brasília chegou”

Ela trocou as emoções das quadras de vôlei nos ginásios do Brasil e do mundo por uma nova missão no Estádio Nacional Mané Garrincha. O tênis, a joelheira, o short e a camiseta deram lugar à calça jeans, camisa social e salto alto. Em comum, os desafios de horas por dia de dedicação, a rotina intensa e o trabalho em equipe. Da vida de atleta ela carrega o espírito esportivo e, acima de tudo, a vontade de vencer. Apesar de ainda ser conhecida como a Leila do vôlei, a brasiliense Leila Barros é hoje uma autoridade política: secretária de Esportes, Turismo e Lazer do Distrito Federal. A determinação fez Leila sonhar alto, sair de Brasília e conquistar suas vitórias. Agora, de volta à terra natal, ela quer devolver seu amor pela Capital em forma de trabalho.

A atacante canhota, que por mais de dez anos vestiu a camisa 8 da seleção brasileira de vôlei, conquistou dois bronzes olímpicos [1996, em Atenas, e 2000, em Sidney], foi três vezes campeã de Grand Prix, levou duas pratas em mundiais e foi campeã pan-americana. Depois, ainda se aventurou pelo vôlei de praia e, a partir de 2004, tornou-se comentarista esportiva da TV Globo. Depois de três olimpíadas como atleta, outras três como comentarista, neste ano, a participação nos Jogos Olímpicos é como autoridade pública do esporte do DF.

Aos 44 anos, Leila não treina como na época de jogadora. Mas a rotina começa cedo: leva o filho para a escola, academia e gabinete. Um dia cheio de reuniões, visitas aos centros olímpicos, encontros com o governador e parceiros, desenvolvimento de projetos. “Se nas Olimpíadas que eu participei eu tivesse feito um estágio de seis meses no Executivo, eu tinha sido tricampeã olímpica”, brinca. Seu principal objetivo na secretaria é investir na base do esporte, ou seja, na prática em escolas públicas e centros olímpicos. Para desenvolver os projetos na pasta, ela aposta na sua experiência como atleta e gestora de projetos sociais e no curso de Gestão em Marketing que fez. “Acho que eu trabalhava menos quando era atleta”, brincou. “A experiência no esporte me ajudou a ter paciência e, no governo, é necessário”, completou.

No braço direito chama a atenção uma tatuagem de três ideogramas japoneses, que significam mãe, amor e coragem. Nas costas, outros três ideogramas representam confiança, longevidade e energia, feitos no auge da vida no vôlei. A terceira é uma discreta atrás da orelha: uma borboleta que tem na asa a letra “e”, em homenagem ao marido, o atleta do vôlei de praia Emanuel Rego, com quem está casada há 12 anos e tem Lukas, de cinco anos, que mora em Brasília com ela. Já Emanuel fica mais no apartamento do casal no Rio. O encontro deles, como acontece desde o namoro, é semanal. “Somos um casal fora do padrão. Ele sabe que eu sou do mundo e gosto de lutar pelas minhas guerras. A gente preza pela qualidade do tempo junto, não a quantidade”, revela Leila, que por aqui leva uma vida bem caseira. Nos finais de semana, não é difícil encontrá-la no Parque da Cidade, lugar que adora. “Desde os tempos da piscina de ondas”, conta.

A atleta

Filha de um mecânico e uma dona de casa, Leila nasceu e viveu na casa 7 da QSD 39, em Taguatinga. Como era hiperativa, a mãe estimulou a prática esportiva nas escolas públicas de Taguatinga. Primeiro o handball e, depois, o vôlei. “Nunca fiz aulinha, todo o meu contato foi na escola, tenho orgulho de dizer isso”. Sua juventude foi embalada pela turma da Legião Urbana, do Aborto Elétrico e do Capital Inicial. “Eu curtia muito Brasília”.
Jogava na rua ou usava o varal de roupas da mãe como rede de vôlei, saltando para atacar. Aos poucos, foi se destacando. Aos 15 anos, ganhou uma bolsa no Colégio Maria Auxiliadora para integrar o time. Jogava também pelo time da AABB. Aquela menina alta e magricela sonhava em representar o Brasil. “Eu sempre fui muito competitiva. Em 1988, assistia ao jogo de vôlei das meninas nas Olimpíadas de Seul enquanto tomava café da manhã. O Brasil enfrentava os Estados Unidos e eu, molhando o pãozinho no café, disse para a minha mãe, pela milésima vez: ‘Ainda vou jogar pelo Brasil’. Ela falou: ‘minha filha, pare de sonhar. Você está em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília. Não espere isso’. Mas eu acreditava”. Poucos meses depois dessa conversa, um olheiro a viu jogar e a convidou para um teste no Minas Clube. Ela topou.

dia que Leila seguiu para Belo Horizonte, no final de 1988, ainda é tão vivo que parece ter acontecido há pouco tempo. Ela tinha apenas 17 anos e relata, com lágrima nos olhos, detalhes dos diálogos que teve com os pais. Se emociona ao contar que saiu de casa contra a vontade do pai, mas com apoio da mãe. A viagem de ônibus até a cidade mineira foi cheia de medo. Dentre duas mil meninas, apenas cinco seriam escolhidas. Durante uma semana, Leila mostrou seu potencial de ataque com a mão esquerda. “Eu era a mais baixa – com 1,79m de altura –, mas ser canhota era meu diferencial. Um técnico me disse para usar isso como meu trunfo. E foi o que fiz”, conta. E conquistou a vaga.
Na equipe Minas se consolidou, ganhou títulos e se apresentou para o mundo. Destacou-se nos campeonatos brasileiros e, em 1991, fez seu primeiro jogo pelo Brasil, ainda na seleção juvenil, no Mundial da Tchecoslováquia. Naquele mesmo ano, foi convocada para a seleção adulta do Brasil, no Sulamericano no Ibirapuera. Foi quando recebeu pela primeira vez a camisa 8. Sua primeira Olimpíada, em 1992, em Barcelona, ao lado de muitas daquelas atletas que, naquele café da manhã antes da escola, ela viu jogar em Seul.
O retorno à Capital aconteceu em 2012. Já tinha desenvolvido em Brasília desde 2006 o Instituto Amigos do Vôlei, ao lado ex-jogadora de vôlei Ricarda Lima, que atendeu mais de 50 mil crianças e jovens carentes do DF, por meio de aulas gratuitas de vôlei. Quando chegou na cidade, criou o Brasília Vôlei, que deixou quando assumiu a secretaria.
Leila não queria ser apenas uma ex-jogadora de vôlei que deu muito orgulho para Brasília. Queria cumprir a promessa que fez a mãe, falecida em 2003, vítima de um câncer de mama. Depois que fechou o ciclo como atleta, envolveu-se com projetos sociais e ingressou na vida pública, com o objetivo de usar o esporte como objeto de transformação social. “Eu tinha melhor retorno financeiro e mais qualidade de vida, mas o que me move é a possibilidade de deixar um legado”, conta a ex-atleta, que tem apenas um irmão, Marcelo, que mora em Belo Horizonte. “Muitas vezes pensei em desistir, pela saudade, pelas dificuldades. Mas queria mostrar para o meu pai que eu era capaz”, revela.

Em 2014, tentou uma vaga na Câmara Legislativa. Obteve 11.125 votos, mas não se elegeu. Mas foi escolhida pelo governador Rodrigo Rollemberg para assumir a Secretaria de Esportes, que se fundiu com a de Turismo. “Eu e o Jaime [Recena, subsecretário de Turismo,] temos o mesmo intuito, queremos dar a nossa contribuição. A geração de Brasília chegou.” Sobre o curto orçamento, ela diz: “O esporte nunca é prioridade. Mas antes de ser secretária, eu sou cidadã. Eu sei que existem outras prioridades neste momento”, avalia.
A chamada “musa das quadras” mantém seu jeito intenso e temperamental, expansiva, conhecido dos tempos de atleta. Leila é paixão. A explosão antes era em quadra, ao cortar a bola certeira sobre a rede nas adversárias. Hoje, o ataque está no entusiasmo em atuar em projetos sociais. Confira o bate-papo exclusivo com a revista GPS|Brasília.

Brasília

“Muita gente achava que eu era mineira, mas eu fazia questão de dizer que era de Brasília. Eu levei a cidade comigo, no meu jeito de vestir meio hippie, ao falar ‘véi’, ‘massa’, ‘né’. E eu nunca deixei de estar em Brasília. Era aqui que eu curava minhas feridas. Depois de todos os campeonatos, se ganhasse ou perdesse, eu sempre voltava para os meus pais e a minha família.”

Vôlei hoje

“Eu tenho artrose nos dois joelhos e uma ruptura no braço, que me impedem de jogar, nem de brincadeira. Mas sou uma torcedora. A minha geração foi uma das que ajudou o vôlei a chegar aonde chegou, de ser a segunda modalidade mais querida do País. Abrimos as portas para as medalhas, fomos desbravadoras. Então, é como se fosse uma mãe, observando o filho se desenvolver. Eu sou uma torcedora fanática.”

Esporte

“Eu sou filha de um mecânico que estudou até a quarta série e uma dona de casa. Olha a mulher que eu me tornei por causa do esporte. Com o vôlei, eu dei uma casa para os meus pais, meu irmão se formou na faculdade. Eu sei o que o esporte pode contribuir para reduzir a violência, ajudar na prevenção de doenças, trazer benefícios a portadores de necessidades especiais. Meus amigos me perguntam porque eu estou nessa. Eu não sei dizer, é mais forte do que eu.”

Política

“A política pode ser como o esporte, se as pessoas realmente se comprometerem de forma coletiva. Quando estou trabalhando, penso nas 11 mil pessoas que votaram em mim. Mas sei que tem quem não pense assim. Enquanto as pessoas estiverem na política por interesses pessoais e partidários, nós vamos sofrer muito. E não é um papo demagógico.”

Secretária

“Se nas Olimpíadas que eu fui eu tivesse feito um estágio de seis meses no Executivo, eu tinha sido tricampeã olímpica (risos). Isso aqui é uma loucura, é preciso resiliência. No esporte, você tem a objetividade, somos práticos e todos têm uma meta em comum. Aqui, existe um processo, a morosidade, a burocracia e, muitas vezes, o seu objetivo não é o mesmo do de quem está ao seu lado. Se o interesse comum fosse o coletivo, nós estaríamos em outro patamar. Mas eu sou muito otimista.”

Balanço

“No primeiro ano, eu tomei um susto com as dificuldades, e tive paciência de entender que eu tinha que esperar o meu momento. Quando a gente chegou ao governo, a falta de dinheiro era tamanha que como eu poderia exigir alguma coisa de um governador? Quem é do esporte aprende desde cedo a esperar o seu momento. E eu estou esperando o meu. Um deles vai ser agora com as Olimpíadas. E a gente vai construindo esse castelinho, tijolo por tijolo.”

Menina dos olhos

“São os Centros Olímpicos. Eu acho que tinha que ser um programa de governo, além da secretaria. Ali, atendemos mais de 40 mil pessoas, de crianças a idosos, que praticam esporte e têm lazer gratuitos, e de onde podem sair atletas. Quero investir nos centros e concluir os que estão parados. Peço sempre isso ao governador. É questão de honra.”

Legado

“Espero democratizar o esporte, incentivar a prática nas escolas e nos centros olímpicos. Eu tenho um filho de cinco anos hoje que não me viu jogar. Quando você olha para mim, lembra do meu momento de atleta. Eu posso mostrar fotos, mas ele não vai conseguir resgatar essa emoção que ele não teve vendo aquilo ao vivo. Mas eu quero que um dia ele ouça ‘sua mãe foi uma grande atleta, mas também foi uma grande transformadora social, ela ajudou a mudar a história da cidade’. É por isso que estou aqui.”

Esporte em Brasília

“É uma luta árdua. Há dificuldade para arrumar patrocínios. Quero ir atrás da Lei de Incentivo Distrital para que os atletas tenham mais facilidades para buscar parceiros privados. Essa lei já veio de governos anteriores, mas ninguém de fato fez. Tenho a esperança, para o ano que vem, quando as contas estiverem organizadas. Aí, sim, será o divisor de águas para a cidade. Porque o atleta de alto rendimento é fruto de um trabalho na base bem feito.Dá para investir mais nas crianças, dar mais oportunidade e estrutura, principalmente nas escolas.”

Olimpíadas

“Eu joguei três e fui a outras três comentando. Na primeira, em Barcelona, em 1992, ao entrar no parque olímpico, eu sentei e chorei de emoção. Os Jogos Olímpicos são o sonho de todo atleta. Ele vive, treina, joga e compete para participar de uma olimpíada. Esquece o resto. E, naquele momento, eu pensei: ‘Eu não vou estar viva para ver o Brasil realizar um evento desse’. E hoje, depois de tudo que vivi como atleta, somos anfitriões do evento. É um evento impactante, um momento de paz que o esporte proporciona. A comunidade esportiva e o mundo depositaram essa confiança na gente”.

http://gpsbrasilia.com.br/news/p:0/idp:39122/nm:Campea-em-desafios/

About A Politica e o Poder

%d blogueiros gostam disto: