Bato na trave, mas não bato em mulher, diz Crivella

‘Bato na trave, mas não bato em mulher’, diz Crivella

Candidato à Prefeitura do Rio está confiante porque índice de rejeição ‘caiu muito’

MARINA ROCHA

Rio – A menos de dois meses das eleições, o senador Marcelo Crivella, do PRB, é mais uma vez o líder na corrida pela Prefeitura carioca. E agora o senador, que já perdeu duas eleições para prefeito do Rio e outras duas para o governo do Estado, aposta que chegou a sua hora de comandar o Palácio da Cidade. “Dessa vez vai ser diferente porque a minha rejeição caiu muito.”

Em entrevista ao DIA, Crivella antecipa seus planos de investir maciçamente em Saúde e Educação, caso seja eleito em outubro. Revela ainda que pretende deixar de lado obras grandiosas, como as realizadas ao longo do governo de Eduardo Paes. “Meu lema é um Rio mais humano”, resume.

Aos 58 anos de idade, o engenheiro e bispo licenciado da Igreja Universal não mede também críticas aos gastos de R$ 14 bilhões da prefeitura carioca com a Olimpíada: “Foi um desvario”.

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O momento das grandes obras já passou. Acho que o próximo governo precisa cuidar das pessoas

Foto: Maíra Coelho / Agência O Dia

O DIA: O período de campanha eleitoral começa em pouco dias. Quais serão as peculiaridades deste ano?

CRIVELLA: Vai ser uma eleição em que os campos ideológicos estão muito bem representados. A direita com Índio da Costa (PSD), Flávio Bolsonaro (PSC) e Osório (PSDB). A esquerda tem Alessandro Molon (Rede), Jandira Feghali (PCdoB) e Marcelo Freixo (Psol). E no campo popular, eu e Pedro Paulo (PMDB). É uma eleição clássica.

O que o senhor chama de campo popular?

São aqueles eleitores que não se definem por ideologia, mas por afinidades. O Pedro Paulo, por exemplo, é o candidato do prefeito e representa a máquina, e aqueles que se beneficiam com obras públicas. Ele vem sofrendo uma rejeição muito grande porque o povo do Rio entende que, no segundo mandato, o Eduardo Paes governou apenas para a Olimpíada. Saúde, Educação, limpeza urbana…tudo isso foi esquecido. As pessoas estão muito tristes com isso.

A Olimpíada é um evento que, teoricamente, traz benefícios para o município. Ninguém pensou que não fosse bom receber os Jogos aqui. O que não deu certo?

Nós todos choramos quando foi feito o anúncio de que a Olimpíada seria no Rio. Eu estava com minha esposa em Copenhagen quando ganhamos e foi uma emoção tremenda. Mas uma coisa é clara: a Olimpíada de Tóquio foi do Japão, a Olimpíada de Barcelona foi da Espanha, mas a do Rio foi só do Rio. E era para ser do Brasil. Não podia ser uma festa exclusiva da cidade. Nos endividamos. O Rio gastou R$ 14 bilhões numa festa de 16 dias.

Se o senhor estivesse no lugar do Paes, como levaria essa Olimpíada?

Era uma festa do Brasil, deveria ter sido feita pelo governo federal, pelo Ministério do Esporte. O gasto do município de R$ 14 bilhões foi um desvario. Nós vamos sofrer isso lá na frente. As pessoas viram, por exemplo, os altos investimentos em estádios e a disparidade com a sua realidade. Os oito hospitais da rede pública, as emergências, estão muito mal. E também há muitos problemas na Educação. O meu lema é um Rio mais humano.

Na sua opinião, a Olimpíada teve um custo muito alto para a população do Rio?

Se você comparar o que o Eduardo colocou na Saúde no primeiro mandato com o que foi colocado nos três últimos anos do segundo mandato, são menos R$ 700 milhões. Na crise que o Estado vive, tirar R$ 700 milhões da Saúde para fazer uma festa? Custou muito caro.

A afirmação de que o Rio tem dinheiro em caixa não é verdade?

Em 2012, a cidade tinha um endividamento de R$ 11 bilhões. Hoje está em R$ 15 bilhões. São R$ 4 bilhões a mais num período de três anos. Uma coisa sem precedentes. Na semana passada, a assessoria do município esteve no Congresso para tentar convencer os senadores a aumentar o endividamento do Rio. Mas isso está fora da realidade. Hoje o clima é de reajuste fiscal, não de farra fiscal. Enquanto o governador decreta estado de calamidade pública e consegue alguns bilhões com a União, a prefeitura decreta feriado de vários dias. Existe uma dissonância da realidade.

Com as contas tão no vermelho, qual é a estratégia que o senhor pretende adotar caso assuma a prefeitura?

Eu sou engenheiro por formação, mas acho que o momento das grandes obras já passou. Acho que o próximo governo precisa cuidar das pessoas. Chegou o momento de gastar dinheiro com Saúde e Educação. A prefeitura gastou R$ 1,2 bilhão em um VLT que liga a Rodoviária Novo Rio ao aeroporto Santos Dumont. Não é um transporte de massa, pois transporta poucos passageiros por hora e trafega a 7 km/h e não funciona na chuva. Não é claro que é algo funcional.

O senhor fala em alto custo de obras. Caso vença, o senhor pensa em pedir auditorias?

Acredito que o Tribunal de Contas está cumprindo seu papel. Há poucos dias foi divulgado um relatório que aponta superfaturamento de R$ 2 bilhões em obras do metrô. Como engenheiro, digo que a prefeitura fez obras gigantescas que poderiam ter sido executadas de forma mais simples. Chegou a hora de investir no cidadão.

Como engenheiro, como o senhor avalia a obra da ciclovia Tim Maia?

Na correria para entregar a obra, ninguém pensou no esforço que aquela ciclovia ia sofrer de baixo para cima. Isso acontece quando as obras são feitas com ambições eleitorais. A ciclovia foi feita em um processo de engenharia que chamamos de isostático, quando as coisas ficam presas pelo peso próprio delas; elas se apoiam, mas não são fixadas. Hoje é só soldar as placas nas pilastras. Uma coisa muito simples de fazer, e pode bater a onda que for, ela não vai sair do lugar.

Voltando para a política, como estão as articulações para alianças em torno da sua candidatura?

Pela primeira vez conseguimos uma coligação, com o PTN e o PR. Eu ainda quero muito o apoio do senador Romário (o PSB, partido do senador, resolveu apoiar Índio da Costa). Vamos ter o tempo de 1m24s em cada bloco eleitoral na TV e direito a 20 inserções ao longo do dia, em todas as emissoras de televisão. Eu nunca tive aliança e nunca tive tanto tempo na televisão. Estamos muito felizes.

A campanha deste ano será a primeira com a proibição de financiamento de empresas.

Pra mim isso faz pouca diferença. Vai trazer grandes mudanças para o PMDB. Na minha última campanha, para governador, chegamos ao segundo turno com recursos de R$ 4 milhões repassados pelo Diretório Nacional do PRB. Já a do Pezão passou de R$ 100 milhões.

O senhor já disputou várias eleições para prefeito e governador e acaba sempre batendo na trave. Sai na frente antes da eleição, mas chega na hora, não ganha. O senhor não teme que isso aconteça de novo?

Eu bato na trave, mas não bato em mulher (risos). Mas dessa vez vai ser diferente porque a minha rejeição caiu muito. As pesquisas apontam que as pessoas chegaram à conclusão que o melhor nome é Crivella. Chegou a minha hora.

Há uma desesperança na política. O senhor trabalha com a possibilidade de aumento de votos nulos?

Acho que as pessoas estão concluindo que o melhor protesto é voto. O eleitor tem que escolher alguém para depois cobrar. Acredito que essa crise que a gente vive é uma crise redentora de uma sociedade que não suporta mais seus baixos padrões de qualidade de vida. Existe uma oposição a isso tudo que tá aí.

Um das críticas recorrentes à sua candidatura é a sua ligação com a Igreja Universal. O senhor acha que os seus adversários vão usar novamente sua ligação com o Bispo Macedo para atacá-lo?

Vão usar não: já estão usando. Mas essas acusações antigas não terão o efeito que tiveram no passado.

O senhor pretende usar contra o candidato Pedro Paulo o processo que ele está respondendo no Supremo por agressão à ex- mulher?

Não contem com isso.

http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2016-08-07/bato-na-trave-mas-nao-bato-em-mulher-diz-crivella.html

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