As outras Brasílias: conheça os lugares que poderiam ter recebido a capital

As outras Brasílias: conheça os lugares que poderiam ter recebido a capitalDois anos antes de JK decidir construir a capital, o governo tinha estudos consolidados à transferência. Empresa norte-americana contratada para avaliar a localização definiu e demarcou cinco sítios, nos estados de Goiás e em Minas Gerais, a fim de que fosse escolhido um deles para abrigar a nova cidade

Eram cinco os locais onde a nova capital do Brasil poderia ser construída, todos denominados por uma cor — uma artimanha do governo federal para (tentar) despistar a voracidade da especulação imobiliária. As áreas estavam dentro de um espaço previamente definido, o chamado Retângulo Belcher, que compreendia 52 mil km² entre os estados de Goiás e Minas Gerais.

As áreas ganharam os nomes de Sítio Amarelo, Sítio Azul, Sítio Vermelho, Sítio Verde e Sítio Castanho. O eleito, o da cor da pele mestiça, teve 5.202,5, 400 a mais que o segundo colocado. Dos seis membros do júri, apenas um preferiu um outro sítio, o Verde, que ficava colado ao Castanho e tinha características geomorforlógicas muito parecidas. Todos eles eram engenheiros e/ou arquitetos, inclusive o general e o coronel participantes.

Não fosse escolhido o Sítio Castanho, o Plano Piloto poderia ter sido construído colado à centenária Planaltina, próximo a Anápolis, entre as cidades goianas de Vianópolils, Silvânia e Leopoldo de Bulhões ou nas proximidades do Rio Preto, na confluência dos estados de Minas Gerais e Goiás. (ver mapa). Anápolis se transformou num dos mais importantes polos industriais do Centro-Oeste, o Sítio Vermelho e Amarelo tiveram expansão agrícola expressiva e o Sítio Verde abriga uma cidade-satélite de Brasília e foi o único a fazer parte do retângulo do Distrito Federal, demarcado só depois de escolhido o sítio onde a cidade foi construída.

Ao contrário do que o senso comum imagina, Brasília não nasceu com Juscelino. Em 1954, dois anos antes, portanto, de JK assumir a Presidência, o governo contratou a empresa norte-americana Donald J. Belcher Associates para uma série de levantamentos e planejamentos geológicos, topográficos, cartográficos, hidrográficos e energéticos (espécie de Relatório Cruls, porém de menor extensão). O governo pagou US$ 350 mil (R$ 700 mil, em conversão atual).

O Correio percorreu mais de 800km para visitar cada um dos quatro sítios vencidos. E descobriu, antes disso, um grave erro no mapa usado há mais de 20 anos pelo Arquivo Público do Distrito Federal e por todos os que estudam a pré-história da demarcação do Distrito Federal e do Plano Piloto. O mapa que consta de O relatório técnico sobre a nova capital da República, Relatório Belcher, edição publicada em 1995 pelo Governo do Distrito Federal, contém um evidente e grosseiro erro de localização do Sítio Azul.

Demarcado pelo Relatório Belcher nas proximidades de Anápolis, foi deslocado — inexplicavelmente — para a região de Luziânia. O erro original está na página 302 do Relatório Belcher publicado pelo GDF. Abaixo do mapa, há uma observação: “As informações desta figura — Quadrilátero Cruls, Retângulo Belcher e os outros cinco sítios selecionados, foram colocadas sobre mapa da região geoeconômica de Brasília, na escala de 1:1.800.000, elaborado em 1979, pela Codeplan”.

A pedido do Correio, o historiador Elias Manoel da Silva, do Arquivo Público, emitiu um parecer (veja nesta página) no qual confirma o erro: “(…) informo que a partir da documentação cartográfica produzida pela Donald J. Belcher Associates, e do Relatório Original (inglês) desta mesma empresa, documentos esses sob custódia do Arquivo Público do Distrito Federal, a localização geográfica do ‘Sítio Azul’ representada em mapa produzido pela publicação da Codeplan que você me apresentou está errada. Por extensão, todos os mapas reproduzidos segundo aquela referência propagaram o mesmo erro.”

A descoberta do erro só foi possível a partir do cotejamento entre o mapa da Codeplan (de 1995) com o que consta de Nova metrópole do Brasil, de José P. C. de Albuquerque, editado pela Imprensa do Exército, em 1958. Na Carta Geográfica do Estado de Goiás, constante à página 160, o Sítio Azul está demarcado ao lado da cidade de Anápolis. Em História de Brasília, Ernesto Silva reproduz outro mapa, porém com a mesma localização do livro do marechal Pessoa. Consultado, o historiador Adirson Vasconcelos é peremptório: “É o mapa de Pessoa o certo. Até porque Ernesto Silva foi secretário dele, acompanhou a escolha do sítio, ele não erraria…”

Ernesto Silva visitou os cinco sítios, como relata à página 87 de História de Brasília: “Dois aviões da FAB nos levaram a Goiânia, e, daí, nos deslocamos aos diferentes sítios. O Amarelo e o Azul foram percorridos de automóvel, pois estavam localizados junto a Goiânia e Anápolis. Para o exame dos Sítios Verde e Castanho, tomamos o avião em Goiânia e descemos em Planaltina (o Sítio Castanho é a área onde se acha atualmente o Plano Piloto)”.

Procurada, a Assessoria de Imprensa da Codeplan informou que desde 1999 todos os documentos cartográficos da história de Brasília em seu poder foram ou cedidos ao Arquivo Público ou encaminhados à Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano (Sedhab). Como, porém, a edição do livro com o mapa errado é de 1995, a Assessoria de Imprensa procurou localizar a equipe técnica responsável e informou que a coordenadora, Laura Regina Simões de Bello Soares, enfrenta grave problema de saúde, e que os demais funcionários participantes não atuaram na cartografia. A localização do Sítio Verde foi deslocada em 100km.

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