Apenas 16,21% tem cobertura de saúde no DF

O técnico de enfermagem Lourival Muniz mede a pressão de uma moradora da Estrutural: programa é importantíssimo, mas patina no DF / Ricardo Marques / Metro Brasília

Apenas 16,21% tem cobertura de saúde no DF

É o menor percentual do país de moradores que podem contar com as visitas do Saúde da Família

O técnico de enfermagem Lourival Muniz mede a pressão de uma moradora da Estrutural: programa é importantíssimo, mas patina no DF Ricardo Marques / Metro Brasília

Alzira Soares, 42, está grávida de cinco meses. Será o décimo filho da dona de casa, moradora da Via Estrutural, em Brasília. Ela não esconde a satisfação por poder contar com as visitas periódicas de uma equipe do PSF (Programa Saúde da Família). É com eles que faz o acompanhamento pré-natal. As duas filhas gêmeas de dois anos passam pelo chamado “controle de desenvolvimento”.
Alzira pode se considerar uma privilegiada: apenas 16,21% da populacão do Distrito Federal podem contar com esse tipo de acompanhamento contínuo. É o pior índice do país – de longe (a segunda menor cobertura é em São Paulo, com 30,41%). Na campanha eleitoral, o então candidato Agnelo Queiroz, médico por formação e paixão, martelava a cada entrevista: “O Saúde da Família será uma prioridade do meu governo”.
O Agnelo versão 2010 considerava “um absurdo” que o DF contasse com tão baixa cobertura do programa, sempre considerado uma “porta de entrada” para o atendimento de saúde. Além disso, era uma forma de evitar que problemas controláveis se transformem em doenças graves e acabem desaguando na porta de um dos sempre sobrecarregados hospitais da rede pública. A promessa era clara: elevar de 120 para 400 o número de equipes do PSF.
O Agnelo governador assistiu, há praticamente 18 meses completos, ao programa ficar praticamente estagnado durante o que já chega a quase 40% do mandato. Hoje, o PSF tem 121 equipes no DF. O governo anunciou, na terça-feira, a contratação de funcionários para a saúde e sustenta que serão formadas 102 novas equipes (leia na página ao lado).
Cada equipe deve ter ao menos um médico, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem e entre quatro e 12 agentes comunitários de saúde. Cabe a esse time multidisciplinar uma série de ações básicas de acompanhamento da saúde nas famílias. Eles tentam diminuir uma série de fatores de risco a que as pessoas estão expostas continuamente, por comportamentos inadequados ou mesmo por problemas ambientais e estruturais do lugar onde vivem.
Estão nessa lista ações como acompanhamento pré-natal, incentivo à vacinação, diagnóstico e controle de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, e planejamento familiar. Com esse tipo de medidas, o programa, prevê a OMS (Organização Mundial da Saúde), é possível evitar até 85% da procura por unidades físicas de saúde.
Índice de equipes por moradores é pífio
A OMS recomenda que cada equipe de saúde da família atenda a, idealmente, 3,5 mil pessoas – no máximo, quatro mil.  É a quantidade que permitiria um acompanhamento constante e qualificado dos problemas de cada família abrangida pelos grupos. Para que essa relação seja obedecida no Distrito Federal, o número atual de equipes – 121 – deveria quadruplicar para ficar no limite máximo de quatro mil moradores atendidos por cada unidade.
Com o número atual de equipes, o resultado em termos de atendimentos realizados também é um claro indicador da falta de investimentos do governo no programa. Em 2011, segundo dados do Ministério da Saúde, o DF realizou 1,15 milhão de atendimentos.
É o pior resultado do país, como consequência de ter o segundo menor número de equipes (só perde para o minúsculo Estado de Roraima, com 98 grupos e uma população de apenas 18% da existente no DF) e a menor população coberta. A quantidade de atendimentos é semelhante à do Acre e à de Roraima, ambos com população que não chega a 20% da do DF. Repasses desprezados O programa deve ser custeado por cada unidade da Federação, com ajuda federal, via Ministério da Saúde. Em abril passado, o ministério repassou, a título de “incentivo de custeio” para as 121 equipes implantadas no DF, R$ 912.640,00.
O teto previsto, porém, chega a R$ 7.302.100,00 – ou seja, o DF está deixando de receber cerca de R$ 6,4 milhões porque simplesmente não cria novas equipes. Grupos atuam a pé em cada comunidade O GDF gasta hoje, por mês, R$ 800 mil para custear o programa – sem contar as despesas com pessoal.
Com as novas equipes anunciadas na segunda-feira, o secretário de Saúde, Rafael Barbosa, estima que haverá um impacto de mais R$ 12 milhões até o fim do ano.  A estratégia, diz Barbosa, é evitar a pulverização de novas equipes. Ele revela que prefere concentrar eventuais novos investimentos para completar o atendimento em áreas já parcialmente cobertas do que criar grupos e deslocá-los para regiões hoje completamente a descoberto, como as asas Sul e Norte e quase toda a cidade de Taguatinga.
“Prefiro, por exemplo, colocar cinco novas Clínicas da Família em Samambaia, onde hoje temos uma cobertura de 44%, e fazer esse índice saltar rapidamente para 90% do que jogar uma equipe aqui e outra ali”, defende Barbosa. “Caso contrário, todas as áreas ficam mal atendidas.   
Anúncio de novos grupos
Na segunda-feira, a Secretaria de Saúde anunciou, com pompa e circunstância, a convocação de 634 concursados da área. Entre eles, 128 médicos e 170 enfermeiros. O secretário de Saúde, Rafael Barbosa, afirma que esses dois grupos de profissionais irão todos para a área de saúde da família.
Com os chamados, serão criadas 102 novas equipes, diz Barbosa. Ele revela que os agentes comunitários de saúde de cada equipe serão remanejados todos do atual Programa de Agentes Comunitários. “É melhor que eles ajam em equipe do que sozinhos”, defende. Quando todas as equipes estiverem trabalhando, a previsão da secretaria é de que o percentual de população coberta salte para 30% – algo como 703 mil pessoas.
Barbosa reconhece que parte dos novos profissionais servirá para recompor equipes que, embora constem como completas, não contam com médicos há um bom tempo. “Herdamos isso”, defende-se Barbosa. Na terça-feira, o GDF irá inaugurar uma Clínica da Família em Samambaia. Essas unidades são desenhadas para abrigar três equipes do Saúde da Família. Para Barbosa, unidades como essa são fundamentais para, finalmente, ser cumprida a promessa de dar atenção prioritária para essa “porta de entrada” do sistema.
Dedicação e vínculos fortes
Se o programa sofre no DF para atingir maior cobertura, não é em razão de qualquer falta de comprometimento ou dedicação dos integrantes das equipes. A agente comunitária Cláudia Saraiva, 40, no PSF desde 2004, e sempre na Estrutural, abre um enorme sorriso ao falar do quão gratificante o trabalho acaba sendo.
“É muito bom acompanhar as crianças, vê-las crescendo e se desenvolvendo com saúde”, derrama-se. Para o técnico de enfermagem Lourival Muniz, 40, os vínculos criados com as famílias atendidas pelo grupo são uma das partes mais importantes do trabalho. “Gosto muito de trabalhar aqui. Interagir e atender a população é gratificante.”
A agente comunitária Meire Parra, 42, que também está no programa desde 2004, concorda com os colegas. uma das famílias atendidas por Meire é a de Marina Santos, 33. A baiana vive com o marido e seis filhos na Estrutural desde que a família deixou a Bahia para tentar a vida na capital federal.
Ela é muito grata a Meire e à equipe do Saúde da Família. Gabriela, a filha mais nova, tem nove meses e é acompanhada no programa. “Eles também marcaram para mim a próxima vacinação dela, quando ela fizer um ano.” 

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