A Baiana da Estrutural, Brasília-DF

Mãe Lucinda da vida real teve nove filhos assassinados no Distrito Federal

Como na ficção, algumas pessoas vivem há décadas no depósito da Estrutural
R7


Há meses o lixão retratado na novela Avenida Brasil, que termina nesta sexta-feira (19), chama a atenção dos telespectadores. E na vida real, a rotina dos trabalhadores e moradores da região do lixão é tão dura quanto a mostrada nas telas. É o caso do depósito de lixo que fica na Estrutural, região administrativa do Distrito Federal. Lá, 4.200 pessoas trabalham, em esquema de cooperativas, recolhendo material que é vendido para a reciclagem.

Enquanto no depósito da novela um dos destaques é a personagem ‘mãe Lucinda’, no único lixão do DF quem chama a atenção é Baiana, apelido de Valdineide dos Santos Ferreira, de 57 anos. De conversa solta e conhecida por todos, ela tem uma triste história de vida.

Baiana deu à luz 12 filhos, mas hoje só três estão vivos. Nove foram assassinados, lá mesmo na Estrutural. Um deles morreu por conta de um videogame que ele havia comprado. Segundo a catadora, o dono do aparelho queria o pagamento, mas seu filho não tinha o dinheiro na hora, houve uma confusão e o rapaz foi morto a tiros.

— Comi o pão que o diabo amassou, mas não saio daqui, porque fiz minha vida nesse lugar.

Além do drama de ter perdido os filhos, Baiana procura também pela irmã, Maria Angelica dos Santos Ferreira, de quem não tem notícias há 20 anos. À época, a catadora soube que a irmã estava no povoado de Cachoeirinha, na Bahia.

Sobre o lixão retratado na novela, ela diz que, como trabalhadora de um, sentiu certo preconceito, quando personagens da novela se referem às pessoas do lugar com desprezo, chamando-as de lixo, por exemplo.

— O lixão que passa na TV é parecido com esse, mas senti um pouco de preconceito.

Cada catador que trabalha no lixão do DF ganha, em média, R$ 800 por mês, mais do que um salário-mínimo, mas sem nenhum benefício. O lixão funciona durante todo o dia e, de acordo com os catadores, um atravessador compra o material recolhido. O quilo de detritos separado rende R$ 0,40 para quem o recolhe. No lixão, há pessoas que estão há mais de 30 anos por lá.

Assim como na novela, algumas pessoas moram em casas dentro do lixão da Estrutural, em moradias que eles mesmos construíram ou em casas populares feitas pelo governo. Algumas dessas casas, inclusive, estão sendo desocupadas, por meio de ação policial, pois foram ocupadas por pessoas que não são os verdadeiros proprietários dos imóveis.

Personagens da vida real

Antônio Cesar Macedo, de 71 anos, trabalha no lixão há mais de 30 anos. Hoje, ele não atua mais como catador por problemas de saúde. O homem sofre da Doença de Chagas e tenta conseguir a aposentadoria. Antônio conta que um de seus filhos de 33 anos costuma trabalhar como catador, quando não está com emprego fixo.

Outro personagem da vida real é Toniel Santos da Silva, de 34 anos, que trabalha no lixão há 27 anos. O catador têm cinco irmãos que trabalham no mesmo depósito e reclama da atual situação do lugar.

— Se privatizarem, muita gente vai ficar sem ter onde trabalhar. Não queremos que isso aconteça.

Protesto

A entrada do lixão da Estrutural está bloqueada há dez dias. Os catadores impedem a passagem dos caminhões de lixo em protesto ao anúncio do fechamento do local, por conta da construção de um aterro sanitário. Como o lixão é cercado, neste período ninguém pode entrar ou sair até que a questão seja solucionada, como informou a SLU (Secretaria de Limpeza Urbana).

Valdineide “Baiana” é uma das catadoras mais conhecidas do lixão da Estrutural. Ela viu nove filhos serem mortos lá mesmo onde mora e tira o sustento da família

About A Politica e o Poder

%d blogueiros gostam disto: