Série especial de reportagem mostra infância esquecida nos portos da Copa Correio revela abusos sofridos por crianças e adolescentes em terminais marítimos e fluviais das cidades sedes do mundial

Leilane Menezes

Helena Mader

Ao desembarcar de transatlânticos para assistir aos jogos da Copa do Mundo, os turistas vão se deparar com o abandono da infância brasileira. Nos portos das cidades sedes do mundial de futebol, meninas seminuas vendem os corpos em troca de um prato de comida. Garotos franzinos carregam malas e vendem bugigangas para sobreviver. Jovens moradores de rua fumam crack à beira-mar para tentar fugir da rotina de desamparo e de desespero. O governo modernizou a estrutura das regiões portuárias, mas não conseguiu acabar com a violação dos direitos das crianças nessas áreas. Os terminais marítimos e fluviais de todo o Brasil são pontos para a exploração sexual de adolescentes, o trabalho infantil e o uso de drogas.

Em Manaus, homens transportam meninas em jet skis para levá-las a pontos de exploração sexual. Na capital baiana, meninos disputam as moedas atiradas por turistas estrangeiros: esmola utilizada para comprar crack

A equipe do Correio viajou 8 mil quilômetros e visitou quatro capitais para conhecer a realidade de quem vive em áreas onde o crescimento econômico nem sempre é sinônimo de avanço social. Hoje e nos próximos três dias, o jornal publica a série de reportagens Cais do abandono, que mostrará os principais abusos sofridos por crianças e adolescentes em regiões portuárias.

O governo federal estima em R$ 33 bilhões os investimentos em infraestrutura realizados para a Copa em todas as sedes. Já o repasse para o combate à exploração sexual infantil ficou em R$ 1,3 milhão em 2013— o equivalente a 0,03% da despesa total em obras. Do total de gastos em infraestrutura, R$ 499 milhões foram reservados para a reforma e a construção de terminais portuários.

Em Manaus, nos fins de semana, casas de palafitas vizinhas ao porto transformam-se em bares, onde garotas consomem drogas e vendem sexo a R$ 10. Homens buscam meninas em jet skis, para levá-las aos pontos de exploração. Barcos proibidos de circular por falta de documentação são usados como motéis, para onde são levadas as jovens aliciadas. “Há dezenas de embarcações ancoradas, sem poder navegar, mas, em vez de resolver o problema, os donos transformaram em motel, cobrando R$ 40 por hora”, afirma Clodoaldo Santos, conselheiro tutelar em Manaus.


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