20 km do Palácio do Planalto: Favela com 12 mil famílias `brota` do maior lixão da América Latina. Grande parte dos barracos são feitos de madeira e os serviços públicos são escassos

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No entorno do lixão da Estrutural (DF), o maior da América Latina, cresce uma comunidade com cerca de 12 mil famílias, que vivem alheios a benefícios do Estado, apesar do local estar a apenas 20 km do centro do poder do País. Grande parte da população local se sustenta por meio de resíduos tirados do lixão, o que atraiu moradores para perto.

Por volta das 17h, os catadores vem e vão nas principais ruas do bairro, depois de um dia catando materiais recicláveis… Quase todos têm o mesmo traje: calças longas, blusas de manga comprida e um pano na cabeça seguro por um chapéu para evitar os estragos do sol.

O cenário na Chácara Santa Luzia se assemelha ao de Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, há anos atrás. O bairro, internacionalmente conhecido por meio de um documentário que retrata a vida e a volta por cima de uma cooperativa de catadores, não tem mais um lixão como vizinho.

Na Estrutural, a promessa é que o lixão seja desativado em março do ano que vem, mas a data já foi prorrogada inúmeras vezes. A comunidade, que começou a partir da ocupação de uma chácara, agora tem tamanho a se perder de vista. Ninguém sabe ao certo até onde vai o amontoado de barracos de madeira, divididos por ruas estreitas. Os limites de um lote para outro também é abstrato, só o dono sabe onde começa e termina o terreno em que mora. As ruas podem ser retas ou em curvas, algumas têm saída, outras não. Uma coisa todas tem em comum, nenhum é asfaltada. Água e luz só por meio de gambiarra e as fossas substituem os esgotos.

— Aqui é deserto, só tem gente.

Uma das principais ruas da localidade é praticamente intransitável.

É como Leda Brandão, cuidadora de idosos, descreve o local onde vive há dois anos. A maranhense chegou a Brasília há sete anos para tentar melhores condições de vida e foi parar na Chácara Santa Luzia para se livrar do aluguel. Ela morava na Cidade Estrutural, que também nasceu em função do lixão, e que é dividida da Chácara Santa Luzia por uma avenida. Ali Leda e o marido compraram um terreno e levantaram o barraco de madeira. A mulher aponta a falta de transporte como um dos principais problemas.

Para pegar ônibus e trabalhar no Sudoeste, há cerca de 13 km dali, ela precisa andar 1,5 km até a rodovia onde passam os ônibus. Ela faz o percurso em 30 minutos “se tiver o passo ligeiro”, mas algumas vezes bate a irritação.

— Eu fico a semana fora de casa, durmo no trabalho de segunda a sexta. Sábado eu faço um curso e um dia estava tão quente, eu tive que descer longe, vir andando até aqui, com uma fome danada. Eu cheguei com tanta raiva que falei para o meu marido que eu queria ir embora para o Maranhão. É difícil você tá com fome e ainda ter que andar no sol quente.

O transporte é mais uma dificuldade de quem vive no local. O ônibus só passa até a avenida regularizada, dali para dentro, não tem ônibus, assim como não tem outros serviços. Tudo ali parece ser longe. O tempo verbal mais usado pelos moradores é o futuro de um passado que nem se conhece. Os moradores sempre falam do futuro, da possibilidade de regularização, sem conhecer o passado da área.

Desempregado há uns anos atrás, o auxiliar de serviços gerais Sebastião Jerônimo da Silva, de 42 anos, arriscou ganhar um dinheiro dos materiais retirados do lixão. Incomodado com o cheiro do local, não conseguiu ir mais do que quatro vezes. Hoje trabalha em uma empresa que presta serviços de limpeza ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal, mas nem por isso o lixo deixou de fazer parte de sua vida. Há 4 anos ele comprou por R$ 6 mil um terreno na Chácara Santa Luzia. O barraco de madeira com piso de cimento já estava pronto, mas precisava furar a fossa.

Sebastião cavou 2 metros e encontrou uma camada de lixo enterrado. O lixão fica a cerca de 1,5 km de sua casa, mas ele suspeita que onde dorme com a mulher e os filhos já tenha sido parte do lixão.

–  Eu cavei uns dois metros e já deu no lixo. Eu acho que aqui um dia foi lixão e depois jogaram para lá porque ninguém enterrou lixo aqui.

Mas, no futuro, ele espera construir uma casa de alvenaria ali mesmo.

— Eu preciso construir uma casa, meu sonho, mas não tem como fazer nada aqui porque eu posso fazer e o governo vem e derruba, manda a gente pra outro lugar.

A preocupação é semelhante à de Manuel Alves de Moraes, de 52anos, que comprou um terreno na comunidade, ergueu um barraco e vive pensando em como serão feitas as obras de asfaltamento no local com a estrutura atual das casas.

— Quando chove aqui alaga tudo. Tem um vizinho que água fica na altura da canela. O problema é que a rua é mais alta que os barracos e aí a água invade tudo. Se eles asfaltarem aqui, vai ter que fazer uma base para a casa ficar mais alta. Quem é que vai fazer isso? Construir tudo de novo?

Manuel vê o problema, mas não vê solução. O enredo é quase o mesmo do lixão, que atraiu para perto as milhares de famílias. Tem o problema, mas não acharam a solução. A previsão é que ele seja desativado em março de 2016, mas as instalações do aterro sanitário, que vai funcionar a cerca de 30km ainda estão no papel. Por enquanto, contrariando a Lei de Resíduos Sólidos, o lixão funciona 24h e recebe 10 toneladas de lixo por dia.

Fonte: Portal Carol Oliveira/ R7 – 08/08/2015

http://www.loival.com.br/noticias/11554

About Germano Guedes

Olá Pessoal,
Sou Germano Guedes, criador do site “a politica e o poder”.
Baiano, morador da Estrutural desde 99, cheguei a Capital Federal para tentar a vida como milhares de outras pessoas.
Ao chegar na Estrutural, começei a participar de discussões que visavam a melhoria da qualidade de vida na Cidade. Vi que alguns grupos já formados, ” monopolizavam” os moradores e inclusive, a informação que chegava até a comunidade.
Nessa condição, resolvi criar um blog – meio que possibilitaria levar informação as pessoas. Neste canal, soltei o verbo e começei a dizer o que eu realmente pensava sobre o que acontecia na Estrutural.
Abordei vários assuntos polêmicos, revelei notícias “bombas” e muitas vezes, tive que desmascarar grupos organizados que não pensavam no interesse da população – como diz o ditado ” era só venha a nós” e a população que se vire.
Como Prefeito Comunitário pude participar mais ativamente das ações políticas que discutiam a Estrutural. Lixão, instalação de creches, reabertura de escolas e a regularização de alvará dos comerciantes eram algumas de nossas reivindicações.
No ano de 2014, fui indicado pelo meu Partido – PRB – a vaga de administrador da Cidade.
Continuo abastecendo o site com notícias e assuntos polêmicos, dizendo realmente o que penso. Porém, agora somos uma equipe e ” A Política e o Poder”, além de abordar assuntos correlatos à Estrutural, terá uma discussão voltada para todo o Distrito Federal, garantido informação e notícias exclusivas a todos os brasilienses que nos acompanham.

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